Madrid pede desculpa pela violência mas mantém polícias na Catalunha até dia 18

Violência policial registada no passado domingo fez mais de 800 feridos, segundo a Generalitat

Generalitat e sindicatos policiais exigem a demissão do delegado do governo em Barcelona. Puigdemont vai ao Parlamento na terça-feira

O governo de Espanha pediu ontem desculpa pela violência policial registada no passado domingo e que tinha como objetivo impedir a realização do referendo independentista da Catalunha. Uma tentativa de tom conciliatório que, no entanto, veio acompanhada por uma justificação da atuação policial. E pelo anúncio de que os agentes enviados por Madrid para a região viram a sua estada prolongada até ao dia 18.

"Quando vejo aquelas imagens, e quando sei que pessoas foram atingidas, empurradas e hospitalizadas, não posso deixar de lamentar e pedir desculpas em nome dos agentes envolvidos", declarou ontem o delegado do governo espanhol na Catalunha. Segundo a Generalitat, foram feridas mais de 800 pessoas na sequência da atuação da polícia.

Mas, nas mesmas declarações à TV3, Enric Millo justificou o uso da força, alegando que os agentes tiveram de enfrentar barreiras humanas "com ativistas, crianças, idosos e inválidos", que os pressionavam quando tentavam entrar nos locais de voto e quando o conseguiam, não os deixavam sair, fazendo os polícias sentirem-se ameaçados. Em última análise, na opinião de Millo, a responsabilidade é do presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, a quem havia pedido para que não se ocupassem os locais de voto e não fosse oferecida resistência. "Se ele o tivesse feito não teria havido confrontos", concluiu.

No dia do referendo, a vice-primeira-ministra espanhola, Soraya Sáenz de Santamaría, considerou a atuação dos agentes de "proporcionada e proporcional", defendendo que "fizemos o que tínhamos de fazer". Mas ontem, o porta-voz do governo de Mariano Rajoy subscreveu o pedido de desculpas feito pelo seu representante na Catalunha.

"Ele é o delegado do governo da Nação na Catalunha, então o que ele disse, embora eu não tenha ouvido, foi bem dito. A operação teve como objetivo retirar as urnas, mas se houve pessoas lesadas, todos nós sentimos muito", afirmou Íñigo Méndez de Vigo após o Conselho de Ministros onde foi aprovado um decreto-lei que facilita a mudança de sede social às empresas espanholas, legislação feita a pensar na Catalunha.

As palavras de Millo tiveram também eco na Generalitat, com o porta-voz do governo catalão, Jordi Turull, a pedir a "demissão imediata" do representante de Madrid "por ser o responsável direto de uma repressão e uma violência de Estado que é apenas recordada pelos mais velhos na época franquista".

Os sindicatos policiais não ficaram satisfeitos com o pedido de desculpas de Enric Millo, tendo exigido também a sua demissão. Para eles, se se registaram cargas policiais foi por causa da "inação" dos Mossos d"Esquadra (a polícia da Catalunha) e por falta de antecipação nas ordens recebidas para encerrar as assembleias de voto. Segundo o porta-voz do Sindicato Unificado de Polícia, Ramón Cosío, que falava em nome das cinco associações, a atuação dos agentes "foi ajustada como noutras centenas de ocasiões".

Ontem, um tribunal de instrução de Barcelona decidiu abrir uma investigação às queixas contra a atuação das forças de segurança do Estado no dia do referendo, repudiando os argumentos apresentados pelo Ministério Público em defesa dessa intervenção policial. Nesse sentido, o juiz quer, entre outras coisas, que a delegação do governo espanhol informe o tribunal de todas as instruções orais e escritas dadas aos corpos policiais, indicando as pessoas responsáveis na organização e as suas funções concretas.

Ontem de manhã, a Guardia Civil e a Polícia Nacional começaram a notificar as unidades enviadas para a Catalunha por causa do referendo de que irão ficar na região mais uma semana do que o previsto e que o seu regresso nunca acontecerá antes de dia 18. Esta é a segunda vez que o Ministério do Interior ordena o prolongamento da permanência do dispositivo e, segundo o documento a que o El País teve acesso, é dito que fica em aberto a possibilidade de ser novamente adiada caso. O governo enviou para a Catalunha cerca de seis mil agentes, que se juntaram aos cerca de seis mil efetivos da Guardia Civil e Polícia Nacional que já estão em permanência na região.

O major dos Mossos d"Esquadra foi ontem ouvido em tribunal por suspeita de alegada sedição relativa aos factos ocorridos a 20 de setembro à porta do Departamento de Economia da Generalitat, quando agentes da Guardia Civil estiveram mais de 20 horas cercados dentro das instalações por uma centena de independentistas. Não foram aplicadas medidas de coação a Josep Lluís Trapero, que deve voltar a ser ouvido ainda este mês por causa da atuação da polícia catalã, já acusada de inação, no dia do referendo.

Depois do Constitucional ter suspendido a sessão de segunda-feira do Parlamento da Catalunha para evitar uma declaração unilateral de independência, o presidente da Generalitat pediu ontem para comparecer perante os deputados na terça-feira, para nesse dia explicar os passos que conta dar depois do referendo. A CUP, um dos partidos nacionalistas que compõem a maioria do Parlamento, afirmou ontem que os catalães votaram a favor da independência e que a sessão parlamentar de terça-feira é "uma oportunidade histórica para exercer a autodeterminação".

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