Macri vs. Kirchner: primárias na Argentina são teste para presidenciais de outubro

Ex-presidente, amada e odiada em igual medida, enfrenta vários processos judiciais por suspeita de corrupção. Surpreendeu ao apresentar-se como candidata a vice-presidente, fazendo dupla com o antigo chefe de gabinete, com os críticos a dizer que será ela a mandar.

A 18 de maio, quando todos esperavam que anunciasse a sua candidatura às presidenciais de outubro, a ex-presidente argentina Cristina Fernández Kirchner surpreendeu ao anunciar que seria candidata, mas a vice-presidente. Mas isso não significa que as primárias deste domingo não sejam um confronto entre ela e o presidente conservador Maurício Macri, que tem nesta ida às urnas um teste às políticas de austeridade que implementou.

Kirchner é candidata a número dois de Alberto Fernández (a dupla é conhecida como Fernández-Fernández), que foi chefe de gabinete do seu falecido marido, Néstor Kirchner, e nos primeiros meses em que esteve no poder, em 2007. Acabaria contudo por se demitir e tornar-se num dos críticos da presidente, como tantos outros membros do Partido Justicialista, fazendo as pazes com ela em 2017. Odiada por uns e amada por outros, em igual medida, a senadora de 66 anos enfrenta vários processos judiciais por suspeita de corrupção.

A dupla Fernández-Fernández, da coligação Frente para Todos, é a favorita à vitória nas primárias deste domingo, um teste para as eleições do final do ano onde o atual presidente, Maurício Macri, de 60 anos, é contudo o favorito. Escolheu para seu candidato a vice-presidente da aliança Juntos pela Mudança o peronista Miguel Ángel Pichetto, que liderou o Partido Justicialista no Senado durante 18 anos.

"Decide-se muito a 11 de agosto, decide-se se avançamos para o futuro ou voltamos ao passado", disse Macri no fecho da campanha. "Estou aqui porque quero que os argentinos voltem a ser felizes e precisamos unir os esforços de todos os argentinos para poder deixar para trás isto tão feio que estamos a viver como cidadãos", afirmou Kirchner no final da campanha.

O que são as PASO?

As primárias abertas, simultâneas e obrigatórias (PASO, como são conhecidas) foram criadas em 2009 e servem para escolher que partidos vão as eleições gerais e que candidato, dentro de cada partido, vai a votos (precisam de conseguir mais de 1,5% dos votos a nível nacional).

Mas, este ano, não há rivalidade interna e os candidatos dos partidos às presidenciais já estão escolhidos, pelo que as PASO funcionam como uma sondagem gigante daquilo que os 32 milhões de eleitores pensam e do que pode acontecer na primeira volta, a 27 de outubro. Para vencer nas presidenciais, um candidato tem que ter 40% dos votos e uma diferença de dez pontos percentuais para o segundo classificado. Caso contrário, haverá segunda volta a 24 de novembro.

As PASO foram criadas depois do aparecimento de vários partidos de esquerda, que enfraqueceram o Partido Justicialista de Kichner no Parlamento, servindo como incentivo para a criação de coligações (que não podem mudar depois das primárias). Este ano, por exemplo, um crítico feroz da ex-presidente, Sergio Massa, líder da Frente Renovadora que foi terceiro nas presidenciais de 2015, resolveu coligar-se com Fernández. É candidato a deputado.

Além dos candidatos a presidente (há dez no total), as primárias incluem ainda a escolha dos candidatos a governador de algumas províncias, incluindo a de Buenos Aires, e dos deputados e senadores.

Economia contra Macri

O presidente Macri chega às primárias sem ter conseguido travar a inflação (algumas previsões indicam que será de 40% no final do ano, sendo que já foi de 47% em 2018), com projeções de que o PIB possa cair 1,2%.

No ano passado, o peso perdeu quase metade do seu valor em poucas semanas e, em setembro de 2018, Macri voltou a pedir um empréstimo ao Fundo Monetário InteRnacional, no valor de 57 mil milhões de dólares.

Desde o primeiro dia que os argentinos se queixam das políticas de austeridade, com os dados a apontar para um aumento de seis pontos percentuais no número de pobres entre a população urbana em 2018, para os 32%. Nos vídeos de campanha peronista, alega-se que desde que Macri chegou à Casa Rosada, 4,1 milhões de argentinos caíram na pobreza.

O presidente sempre acreditou que seria possível atrair investimento externo para impulsionar a economia, apostando ainda nos acordos de livre comércio (como o que o Mercosul assinou pela União Europeia), para melhorar as exportações e o crescimento.

Alberto Fernández apresenta-se como um "homem comum", que contrasta com o presidente -- um antigo empresário e dirigente de clbe Boca Juniors. O companheiro de candidatura de Kirchner faz campanha com um slogan de união, que diz que "o futuro inclui todos".

Uma das suas promessas de campanha é renegociar o empréstimo de 57 mil milhões de dólares do FMI, tendo ainda prometido o acesso a medicamentos grátis para os reformados e melhores salários para os funcionários.

Os mercados vão estar atentos ao resultado das PASO, temendo que a vitória de Fernández signifique o regresso às políticas protecionistas de Kirchner.

As sondagens apontam para a vitória da dupla Fernández-Fernández nas primárias desde domingo, mas por uma curta margem de diferença. Depois, no eventual frente a frente com Macri na segunda volta, o presidente surge ligeiramente à frente. Nas eleições de 2015, em que Kirchner estava proibida de se candidatar, Macri teve 34,1% na primeira volta, frente aos 37,08% de Daniel Scioli, o candidato kirchnerista. Contudo, na segunda volta, Macri impôs-se com 51,34% dos votos.

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