Livro de Bob Woodward revela Casa Branca em esgotamento nervoso

Em 448 páginas, o repórter do Watergate Bob Woodward retrata o invulgar funcionamento da atual presidência norte-americana em Fear: Trump in the White House. Conselheiros que escondem documentos ao presidente ou que lhe prometem uma coisa e fazem outra são parte do quotidiano.

Com base em centenas de horas de entrevistas com participantes e testemunhas, o veterano jornalista Bob Woodward escreveu o livro Fear: Trump in the White House, a ser publicado em breve.

O Washington Post - jornal de sempre de Woodward - revela algumas passagens do livro, no qual Donald Trump se recusou a colaborar. Com o livro já finalizado, em agosto, Trump mudou de ideias e afirmou que queria participar no livro.

Ao que conta o Post, um tema central do livro é a forma como o círculo mais próximo do presidente tenta controlar os seus impulsos.

Woodward descreve "um golpe de Estado administrativo" e um "esgotamento nervoso" do ramo executivo, no qual conselheiros de topo esconderam documentos oficiais da mesa do presidente, ou prometendo agir num sentido e fazendo noutro.

Por exemplo, o livro relata que o conselheiro de economia Gary Cohn "roubou uma carta da secretária de Trump" na qual o presidente iria manifestar a intenção de assinar a retirada oficial do acordo de comércio com a Coreia do Sul. O mesmo terá feito no que respeita ao acordo com o México e o Canadá (NAFTA).

Apesar das repetidas ameaças de Trump de sair unilateralmente dos dois acordos, ambos mantêm-se em vigor e estão a ser negociados novos termos.

Woodward conta com grande pormenor como a equipa de segurança nacional de Trump ficou chocada com a ignorância e falta de curiosidade sobre assuntos internacionais e o seu desprezo pelas opiniões dos líderes militares e de informações.

Como um aluno do quinto ano

O secretário da Defesa Jim Mattis, que se mostrou "especialmente exasperado e alarmado", desabafou perante os próximos que o presidente "agia e tinha a compreensão de um aluno do quinto ou do sexto ano".

As capacidades mentais de Donald Trump são também postas em causa pelo chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, que numa reunião afirmou: "Ele é um idiota. Não faz sentido tentar convencê-lo de qualquer coisa. Saiu dos trilhos. Estamos na terra dos loucos. Eu nem sei porque algum de nós está aqui. Este é o pior trabalho que já tive."

Quando Bashar al-Assad foi acusado de atacar civis com armas químicas, em abril de 2017, Trump ligou a Mattis e usou vernáculo para dizer que queria assassinar o presidente sírio. Ao que conta Woodward, Mattis disse que iria tratar do assunto com urgência.

No entanto, disse logo a um funcionário: "Não vamos fazer nada disso. Vamos ser muito mais comedidos". E na realidade seguiu-se um ataque aéreo a uma base aérea do regime apoiado por Moscovo e Teerão.

A falta de respeito de Trump para com a sua equipa é retratada com alguns exemplos. O general na reserva McMaster, que foi conselheiro de defesa nacional, era objeto de piadas na sua ausência, tendo chegado a dizer que o antigo militar se vestia como "um vendedor de cerveja".

Procurador-geral é um "sulista imbecil"

O procurador-geral Jeff Sessions, que passou a "traidor" a partir do momento em que se escusou a supervisionar a investigação sobre as ligações russas à campanha de Trump, passou a ser um "atrasado mental", "um sulista imbecil que não conseguiria ser advogado de uma única pessoa no Alabama".

A investigação conduzida pelo procurador especial Robert Mueller, conta Woodward, levou a dias de paralisia total na governação.

E quando se debateu se o presidente devia aceitar responder às perguntas relativas às relações da equipa de Trump com Moscovo, um dos seus advogados, John Dowd, terá explicado ao próprio Mueller porque não queria que fosse testemunhar: "Não vou sentar-me e vê-lo fazer figura de idiota. E quando publicarem a transcrição, porque tudo se sabe em Washington, os tipos no estrangeiro vão dizer, "Eu bem dizia que ele era um perfeito calhau. Porque estamos a lidar com este idiota?"

Mais tarde, Dowd terá dito a Trump: "Não testemunhe. É isso ou um fato cor de laranja", em alusão a poder ser preso. Trump insistiu que seria uma boa testemunha e Dowd prescindiu de ter o presidente dos EUA como seu cliente.

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