Jogadora transexual de voleibol vai candidatar-se a deputada

Tiffany, craque do campeonato, filiou-se no último dia do prazo ao MDB, de Michel Temer. Nas eleições de outubro, devem concorrer quase uma centena de candidatos LGBT.

O Sporting de Espinho venceu, o Vitória de Guimarães ficou em segundo, o Benfica em terceiro e o Leixões em quarto no campeonato de voleibol masculino de 2008-09. Já o Esmoriz teve participação meio anónima, assim como provavelmente todos os seus jogadores, o atacante/oposto brasileiro Rodrigo Abreu incluído. Sucede que Rodrigo Abreu mudou entretanto de sexo, hoje chama-se Tiffany Abreu e é a maior vedeta da Superliga de Vólei do Brasil, ao serviço do Bauru. A fama no desporto, como tantas vezes sucedeu no passado no país, foi o passaporte para a política da atleta de 33 anos e 1,92 metros.

Escolheu o ideologicamente indefinido MDB, maior partido do Brasil, parceiro de todos os governos desde a redemocratização em 1985 e berço político do atual presidente da República, Michel Temer, e da maioria dos principais decisores do Palácio do Planalto nos últimos dois anos. Tiffany, que acabou de renovar contrato com o Bauru, faz parte dos planos do partido de continuar a ser o principal representado nas câmaras alta e baixa, Senado, Câmara dos Deputados. Com o veto às doações empresariais de campanha, Tiffany terá só cerca de quatro milhões de reais [um milhão de euros aproximadamente] do fundo público partidário para gerir nos tempos de antena até outubro e tentar eleger-se deputada federal por São Paulo.

A jogadora de vólei, que nos campeonatos português, espanhol, francês, holandês, belga e indonésio ainda participou como Rodrigo, mas em Itália e agora no seu país natal surgiu já com a mudança de sexo realizada como Tiffany, não é caso único. Segundo a Aliança Nacional LGBTI+, perto de cem candidatos a cargos públicos nas eleições de 7 de outubro são assumidamente homossexuais ou aliados. No último levantamento, de março passado (ainda sem Tiffany), constavam 93 nomes: 43 gays, 12 lésbicas, 15 mulheres trans, um homem trans, oito bissexuais masculinos, três bissexuais femininos, quatro travestis e sete incluídos no item "outros".

Entre estes "outros" a Aliança Nacional LGBTI+ incluiu a candidata à presidência da República pelo comunista PCdoB Manuela D"Ávila. "Embora não seja gay, a Manuela entra como "outros" porque é uma aliada "plus", alguém muito conectada com as nossas causas", disse ao jornal O Estado de S. Paulo Toni Reis, presidente da instituição. O PCdoB, de Manuela, com 14 concorrentes, só é superado pelo também esquerdista PSOL, com 19. Três partidos à direita, como PSD, PTC e PTB, têm pelo menos um nome, como agora o MDB, visto como conservador. O Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, e o socialista PSB, no entanto, destacam-se por serem os únicos com transexuais nas suas comissões executivas nacionais. Além da candidatura ao Palácio do Planalto já referida, são contabilizados pela organização LGBT dois candidatos a governador de estado, cinco candidatos ao Senado, 30 candidatos à Camara dos Deputados, a que se deve acrescentar Tiffany, e 55 às diferentes câmaras estaduais.

O objetivo comum dos candidats LGBT é aprovar leis, como a criminalização da homofobia. A Câmara dos Deputados, a que concorre Tiffany, é considerada particularmente conservadora, com forte influência da suprapartidária Bancada da Bíblia, com agenda oposta às entidades LGBT. Daí que, segundo Toni Reis, o objetivo em outubro seja "aumentar em 100% a representatividade", o que equivale a dizer, eleger mais um deputado, além de Jean Wyllys, o único homossexual assumido da casa. Em entrevista ao DN em 2016, Wyllys sublinhava que todos os avanços sobre questões de género no país vieram do poder judicial: "Enquanto o legislativo se nega a discutir o tema..."

A comunidade LGBT aposta por isso mais alto do que nunca nas eleições deste ano. No dia 3 de junho, quando se realizar a Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo, por norma a maior do mundo, o tema vai estar em cima da mesa: "Nosso Voto, Nossa Voz" é o lema da festa.

São Paulo

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