Confrontos e manifestações na Cisjordânia e na Faixa de Gaza

Protestos contra a decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel

Várias localidades da Cisjordânia foram hoje palco de confrontos entre manifestantes palestinianos e militares israelitas, enquanto na Faixa de Gaza populares queimaram fotografias de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu e bandeiras dos Estados Unidos e de Israel.

Os incidentes registaram-se em protestos contra a decisão, anunciada na quarta-feira pelo presidente dos Estados Unidos, de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e de transferir a embaixada norte-americana de Telavive para a cidade considerada santa por cristãos, judeus e muçulmanos.

O líder do movimento radical Hamas, que controla a Faixa de Gaza, apelou hoje a uma nova Intifada, depois de logo na quarta-feira dirigentes do movimento terem declarado três "dias de ira", entre hoje e sábado.

Na Cisjordânia, grupos de centenas de manifestantes incendiaram pneus e lançaram pedras contra tropas antimotim.

Na cidade bíblica de Belém, as tropas dispararam canhões de água e lançaram granadas de gás lacrimogéneo para dispersar uma manifestação e em Ramallah, sede do governo palestiniano, manifestantes incendiaram dezenas de pneus, provocando uma espessa nuvem de fumo negro sobre a cidade.

Nos territórios palestinianos, as escolas e lojas não abriram hoje, primeiro de três "dias de ira" em protesto pela decisão do presidente norte-americano.

Protestos foram realizados em várias localidades e também em Jerusalém, junto à Porta de Damasco, na cidade velha.

Até ao momento não há informações de vítimas graves dos confrontos.

A decisão de Donald Trump contraria a política seguida há décadas pelos Estados Unidos em relação a Jerusalém e a posição aceite pela comunidade internacional de que o estatuto da cidade deve ser definido em negociações entre israelitas e palestinianos.

O exército israelita anunciou entretanto que vai destacar forças suplementares na Cisjordânia, território palestiniano ocupado, mas não especificou o número de efetivos em causa. Um porta-voz do exército israelita indicou que os batalhões adicionais vão ser enviados para a Cisjordânia, e que outras forças estarão prontas para intervir.

Rex Tillerson: Trump está a reconhecer a realidade

O secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, considerou que Trump está apenas a reconhecer a realidade.

Em declarações aos jornalistas à margem de uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos países da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE), Tillerson defendeu a decisão de Donald Trump e argumentou que o Presidente está apenas a reconhecer a realidade.

Confrontado com a crítica generalizada dos ministros presentes na reunião e com o repúdio manifestado pelas autoridades palestinianas, Tillerson argumentou que os Estados Unidos ainda apoiam a solução de dois Estados para o conflito entre israelitas e palestinianos, "se for esse o desejo das duas partes".

Nas declarações citadas pela agência de notícias AP, Tillerson, cujo cargo equivale ao de ministro dos Negócios Estrangeiros, disse que o estatuto final de Jerusalém deve ser dirimido entre os israelitas e os palestinianos.

"O mundo inteiro" quer um processo de paz e os Estados Unidos ainda acreditam que existe uma oportunidade, concluiu o governante.

O primeiro-ministro israelita, por seu lado, defendeu hoje que o presidente dos Estados Unidos "entrou para sempre na história" de Jerusalém. "O Presidente Trump entrou para sempre na história da nossa capital e o seu nome será exibido orgulhosamente junto com outros nomes na gloriosa história da nossa cidade", disse Benjamin Netanyahu, num evento público organizado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel.

O líder israelita manifestou-se ainda confiante de que outros países irão seguir a iniciativa dos Estados Unidos e mudar as suas embaixadas para Jerusalém.

União Europeia e ONU preocupadas

A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, considerou que a decisão de Trump pode levar a "tempos ainda mais sombrios".

O anúncio do chefe de Estado norte-americano pode "levar-nos a tempos ainda mais sombrios do que os que vivemos hoje", disse numa conferência de imprensa em que reiterou que a UE defende a solução de Jerusalém como capital dos dois Estados de Israel e da Palestina.

"O anúncio do Presidente Trump sobre Jerusalém tem um impacto potencial muito preocupante", acrescentou, sublinhando que o contexto da região "é muito frágil".

O Conselho de Segurança da ONU vai reunir-se de urgência na sexta-feira. Oito países que estão contra a decisão do presidente dos Estados Unidos - Bolívia, Egito, França, Itália, Senegal, Suécia, Reino Unido e Uruguai - solicitaram o encontro de urgência, pedindo ao secretário-geral da ONU que informe os 15 membros do conselho. António Guterres disse ontem que a paz no Médio Oriente só será possível concretizando a visão de dois estados, com Jerusalém como a capital de ambos, Israel e a Palestina.

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