Sem-abrigo português encontrado no metro morreu por ingestão de drogas

Análises ao sangue revelaram a presença de marijuana sintética, que pode causar arritmias cardíacas e hemorragias

O português sem-abrigo encontrado inanimado numa estação de metro em Londres em fevereiro morreu na sequência da ingestão de drogas, determinou esta quinta-feira um tribunal britânico.

Análises ao sangue de Marcos Gourgel, de 35 anos, encontraram sinais de marijuana sintética, conhecida por "spice", droga que se sabe causar fortes arritmias cardíacas e hemorragias, informou hoje a responsável pelo inquérito ao óbito, Shirley Radcliffe.

O inquérito judicial decorreu no Tribunal do Coroner de Westminster e é um procedimento a que são sujeitas todas as mortes súbitas e sem causa natural e é conduzido por um magistrado, que tem em conta uma investigação prévia feita pela polícia.

Gourgel, que nasceu em Angola mas cresceu em Portugal, tinha um historial de contacto com serviços de apoio a sem-abrigo que remonta a 2008, intercalado com períodos de ausência.

Segundo a informação que deu à organização Connection at St Martin's quando regressou em janeiro de 2018, antes tinha passado vários anos a viver nas ruas em Amesterdão e em Portugal, mas sem dar muitos pormenores sobre as circunstâncias ou a razão do regresso a Londres.

No passado tinha sofrido de alcoolismo em consumo excessivo e de episódios de paranoia, problemas que aparentava ter ultrapassado desta vez, mostrando desejo de encontrar trabalho.

No dia 12 de fevereiro, no pico de um inverno rigoroso, foi-lhe oferecido um abrigo para passar a noite na área de Wandsworth, num espaço com mais cerca de 30 pessoas.

Porém, um desentendimento com outros dois homens resultou na decisão "por vontade própria" de abandonar o abrigo pelas 02:15 horas da manhã.

No dia 14 de fevereiro, pelas sete da manhã, foi encontrado por funcionários municipais de apoio à população sem abrigo inanimado numa das passagens subterrâneas de acesso à estação de metropolitano de Westminster.

Apesar das tentativas de reanimação e da intervenção dos serviços de emergência, Marcos Gourgel foi dado como morto no local, às 7:03 da manhã.

A família, nomeadamente duas irmãs que vivem em Angola e um irmão emigrado na Venezuela, terão sido informados.

A morte do português chegou a ser motivo de notícia nos meios de comunicação britânicos depois de o gabinete do líder do partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, ter deixado um cartão de condolências e flores no local.

"Acabei de ser informado sobre a morte de um sem-abrigo à entrada do Parlamento. Os poderosos não podem continuar a passar ao lado, enquanto há pessoas que não têm uma casa. Está na hora de todos os deputados assumirem este desafio moral e encontrar casa para todos", criticou na sua conta de Twitter.

Marcelo Rebelo de Sousa manifestou pesar pela morte de Marcos Gourgel

O deputado trabalhista David Lammy descreveu o incidente como um "sinal chocante" da incapacidade do governo britânico em resolver o problema dos sem-abrigo e uma porta-voz do Mayor de Londres, Sadiq Khan, declarou que este "ficou profundamente triste" ao saber da morte do sem-abrigo.

Dois dias depois, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa manifestou publicamente pesar pelo sucedido e agradeceu ao líder trabalhista o gesto de respeito pelo cidadão português que, soube-se posteriormente, estava no Reino Unido em situação ilegal.

O gabinete do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas revelou que o homem "estava inscrito no consulado geral de Portugal em Londres desde 2008" e que tinha sido deportado para Portugal pelas autoridades britânicas em 2014.

Numa segunda ocasião, em 2016, o homem foi deportado por "se encontrar ilegalmente" no Reino Unido, "sem que tivesse sido formulado qualquer pedido de apoio aos serviços consulares".

Mark Schreiber, membro da Câmara dos Lordes, a câmara alta do Parlamento, confrontou o ministério do Interior britânico com as alegações de que Marcos Gourgel teria sido deportado após ter estado preso por crimes sexuais contra menores.

Porém, as autoridades britânicas rejeitaram dar pormenores sobre o caso e nem explicaram como é que o português foi autorizado a entrar no país duas vezes de forma ilegal, respondendo apenas: "Fazemos inspeções de segurança nas fronteiras a todos os passageiros que chegam ao Reino Unido no controlo de passaportes. Quando temos conhecimento de que indivíduos que representam um risco, os agentes da polícia das fronteiras podem - e fazem-no - recusar a sua entrada".

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