Indignação em Itália: jornalistas são "chacais" e "prostitutas", dizem líderes do 5 Estrelas

Depois de verem a presidente da Câmara de Roma absolvida de perjúrio, no sábado passado, dois dirigentes do Movimento 5 Estrelas, um dos dois partidos no poder em Itália, classificaram os jornalistas como "chacais" e "prostitutas". Jornalistas protestaram esta terça-feira contra os insultos e receberam inclusivamente o apoio do presidente de Itália e do presidente do Parlamento Europeu

Jornalistas italianos, apoiados por várias associações de imprensa estrangeiras, saíram hoje às ruas do país para protestar contra as declarações proferidas sobre a classe por dois dirigentes do Movimento 5 Estrelas, partido eurocético que governa Itália coligado com os nacionalistas xenófobos da Liga de Matteo Salvini. Em causa estão o vice-primeiro-ministro e líder do 5 Estrelas Luigi Di Maio e o deputado do partido Alessandro Di Battista.

Os ataques foram desferidos depois de conhecida a absolvição da presidente da Câmara de Roma, Virginia Raggi, que era acusada de prestar declarações falsas no âmbito de um julgamento relacionado com a nomeação polémica de um alto dirigente da autarquia da capital italiana. Se Raggi, de 40 anos, tivesse sido condenada, isso abriria uma séria crise no 5 Estrelas.

A autarca, eleita para Roma em 2016 e considerada uma das estrelas do partido, foi acusada de ter mentido aos tribunais sobre o seu envolvimento no processo que levou à nomeação de Renato Marra para o cargo de diretor do departamento de Turismo da cidade. A irmã de Marra é, nem mais nem menos, uma das colaboradoras mais próximas de Raggi.

"Esta sentença limpa-me de dois anos de lama. Agora continuamos em frente, com a nossa cabeça erguida, por Roma, minha cidade amada, e pelos seus cidadãos", escreveu, no sábado, no Twitter, Virginia Raggi.

"O pior neste caso é que foi tratado pela maioria dos que ainda gostam de se intitular jornalistas, mas que não verdade não são mais do que infames chacais, que todos os dias, durante dois anos, com as suas insinuações ridículas, tentaram convencer o Movimento a descartar Raggi", escreveu Luigi Di Maio, no sábado, na sua página de Facebook. E prosseguiu: "Páginas e páginas de fake news, jornalistas de investigação transformados em cães de fila da mafia do capital, diretores editoriais à beira de um ataque de nervos, escritores de livros contra "a casta" tornam-se enviados especiais do poder instituído".

"Hoje a verdade judicial só mostrou uma coisa: que as únicas prostitutas aqui são mesmo eles. Vendem-se não por necessidade mas por cobardia. Coragem Virginia. Ainda tens muito tempo para prosseguir o teu trabalho e estou convencido de que vais deixar esta cidade melhor do que a encontraste", escreveu, no Facebook, Alessandro Di Battista.

Face ao chorrilho de insultos, a Federazione Nazionale della Stampa Italiana, apoiada pela European Federation of Journalists, organizaram esta terça-feira uma série de flash mobs para protestar contra as declarações de Di Maio e Di Battista. "Juntarmo-nos todos nas praças italianas significa que rejeitamos ataques cruéis e inaceitáveis contra a informação e os jornalistas. Agora já não é de incidentes isolados que estamos a falar. Estamos a falar de ações organizadas para desacreditar os jornalistas profissionais e destinadas a desorientar a opinião pública", declarou Raffaele Lorusso, secretário-geral da Federazione Nazionale della Stampa Italiana. "Aqui habita um chacal", lê-se num dos cartazes de protesto, usados nas flash mobs.

"As declarações de Di Maio e Di Battista fazem lembrar as do primeiro-ministro eslovaco Robert Fico, que chamou aos jornalistas prostitutas sujas anti-Eslováquia", declarou, por seu lado, Mogens Blicher Bjerregard, presidente da European Federation of European Journalists. E deixou um alerta: "De facto, cada vez há mais figuras políticas europeias a demonizar os media. A sua vontade de espalhar boatos sobre os jornalistas é maior do que a de debater factos e isso é uma das maiores ameaças a uma imprensa livre na Europa".

Em defesa dos jornalistas saíram ainda personalidades como o próprio presidente de Itália, Sergio Matarella, e o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, que é italiano e já foi jornalista e editor. "A liberdade de imprensa é algo de grande valor", recordou, na segunda-feira, o chefe do Estado italiano.

"Tenho orgulho em ser jornalista. Sem uma imprensa livre, a democracia não existe. Há sinais preocupantes na Europa contra a liberdade de informação. O Parlamento Europeu rejeita completamente todas as ameaças contra jornalistas e lembra as mortes de #DaphneCaruanaGalizia e #JánKuciak", escreveu Tajani, no Twitter, na segunda-feira, lembrando a jornalista maltesa e o jornalista eslovaco assassinados, respetivamente, em outubro do anos passado e em fevereiro deste ano.

Isto porque, além de insultar os jornalistas, o 5 Estrelas sugeriu também a introdução de legislação para fazer quebrar os chamados "líderes de media impuros". No poder desde maio, o governo de coligação 5 Estrelas-Liga tem-se pautado por várias polémicas. Normalmente o protagonista é Matteo Salvini, ministro do Interior, pelos seus ataques à UE por causa dos migrantes e das políticas orçamentais. Mas desta vez foi suplantado por Di Maio. O primeiro-ministro, no meio disto tudo, é Giuseppe Conte, um tecnocrata, com a difícil tarefa de ser o fiel da balança e tentar encontrar algum equilíbrio entre os dois.

O jornalista Franco Viviano, basedo em Palermo, indicou entretanto que vai processar Luigi Di Maio pelo crime de difamação contra os jornalistas. Esta terça-feira também a CNN, cujo correspondente na Casa Branca, Jim Acosta, foi banido por Donald Trump, anunciou que vai processar o presidente dos EUA.

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