"Hipóteses de não haver Brexit são agora de 20% a 30%. E isso é muito"

Nada é irreversível. E o Brexit também não. Quem o diz é o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, numa entrevista ao jornal diário polaco Gazeta Wyborcza

Ao longo de toda esta crise do Brexit, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, tem tido um pouco o papel de dizer alto aquilo que muitos pensam mas têm medo de materializar em palavras nem que seja em voz baixa.

Nos últimos meses, o ex-primeiro-ministro polaco, de 62 anos, já acusou os brexiteers mais radicais de serem mentirosos e irresponsáveis e questionou-se se haveria para eles um lugar reservado no inferno. Também disse, num documentário da BBC, que David Cameron prometeu o referendo porque não estava à espera de ganhar as eleições de 2015 com maioria. Achou que ia precisar de voltar a coligar-se com os liberais-democratas e que estes travariam a ideia de um referendo. Não precisou. E teve que cumprir o que prometera. O referendo aconteceu a 23 de junho de 2016. O resultado foi de 52%-48%. A ideia da permanência do Reino Unido na UE foi derrotada pela da saída dos britânicos do clube europeu.

Agora, numa entrevista ao jornal Gazeta Wyborcza, o presidente do Conselho Europeu volta à carga. Donald Tusk considera que nada é irreversível nesta vida. Nem mesmo o Brexit. "Hannah Arendt disse que, na política e na história, as coisas só são irreversíveis se as pessoas as reconhecerem como tal. Porque as coisas, em si mesmas, não são irreversíveis. Depois do referendo do Brexit em 2016, pensei que era preciso admitir que o caso estava encerrado, que era o fim, Hoje em dia as hipóteses de não haver Brexit, na minha opinião, são agora de 20% a 30%. E isso é muito".

Na entrevista, destinada a assinalar os 30 anos daquele diário, o ex-chefe do governo polaco afirma que o referendo surgiu no pior momento possível, em resultado de um mau cálculo político, que as verdadeiras consequências do Brexit nunca foram debatidas durante a campanha para o referendo de 2016 e que os defensores da permanência do Reino Unido na UE encontravam-se e encontram-se mergulhados numa crise de liderança.

Quanto a um segundo referendo, hipótese admitida no programa eleitoral do Labour para as europeias deste mês, Tusk não descarta, de todo, esse cenário. O próprio líder trabalhista, Jereemy Corbyn, admitiu, na quinta-feira, que uma segunda votação popular sobre o Brexit até poderia funcionar como um processo de cura. Isto numa altura em que o Reino Unido está dividido. "Mesmo se repetimos que um referendo é a expressão da vontade de uma nação, tendo por isso que ser respeitado, sim, então tem que ser respeitada. Mas o referendo de 2016 não foi o primeiro na história do Reino Unido enquanto membro da UE. O primeiro aconteceu em 1975, quando os britânicos, dois anos após aderirem à Comunidade Económica Europeia (CEE), decidiram permanecer nela. Se o referendo de 2016 mudou o resultado do referendo de 1975, porque é que isso não pode acontecer de novo? Nada é irreversível até as pessoas acreditarem que é".

O Brexit, inicialmente previsto para 29 de março, foi adiado duas vezes, depois de o governo de Theresa May ter obtido da UE27 uma extensão do Artigo 50.º do Tratado de Lisboa. O Brexit está neste momento adiado até pelo menos ao dia 31 de outubro. Por causa disso, os britânicos têm, entretanto, de participar nas eleições para o Parlamento Europeu. Ironicamente, quem vai à frente nas sondagens é o Partido do Brexit, a nova formação política de Nigel Farage, ex-líder do Ukip e um dos ideólogos e defensores do Brexit.

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