Haddad: "Estranho que quem lutou pela democracia seja neutral perante Bolsonaro"

Candidato do PT assume-se como o "candidato da democracia" contra um político que nunca mentiu na defesa da ditadura e da tortura. E diz que não tem de indultar Lula, porque este nunca o pediu

O candidato às eleições presidenciais brasileiras Fernando Haddad disse, em entrevista ao jornal espanhol El País, "estranhar que pessoas que lutaram pela redemocratização [do Brasil] se mantenham neutrais perante uma pessoa que manifestamente apoia a ditadura e a tortura", referindo-se ao candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, que é o favorito nas sondagens.

"Quem está de fora, por vezes vê as coisas muito mais claras do que quem está dentro. Quem está cá dentro por vezes pensa com o fígado e não com a cabeça e com o coração, que é o que deveria guiar as eleições", começou por dizer o candidato apoiado pelo PT e por Lula da Silva, o antigo presidente, hoje preso em Curitiba. E foi aí que Haddad atirou: "Eu estranho que as pessoas que lutaram pela redemocratização se mantenham neutrais perante uma pessoa que manifestamente apoia a ditadura e a tortura. Uma pessoa que diz que não viola a uma colega porque esta não merece. Que simboliza isto? Que há mulheres que merecem que as violem? Que sentido têm estas expressões? É muito complicado o que acontece no Brasil, mas o risco é evidente."

O risco, identifica Haddad, é o candidato "fascista" ser eleito para o Planalto e aplicar aquilo que sempre apregoou muitos anos de deputado. "Bolsonaro tem a vantagem de nunca ter mentido durante os 28 anos como deputado. Está a mentir agora. Ele disse que fechava o Congresso se fosse [eleito] Presidente; que não teria que impedir os seus filhos de casar com uma afrodescendente porque os tinha educado bem e sabia que nunca o fariam; que as pessoas da comunidade LGBT [homossexuais] são desprezíveis e têm de ser atiradas ao lixo. Nunca escondeu as suas opiniões, agora na campanha é que se está a controlar um bocado."

Tudo isto pode desembocar em algo mais grave, como um golpe militar, avisa o candidato de esquerda, que agora procura os apoios do campo democrático. "Há pelo menos cinco anos que as instituições no Brasil não estão bem. Não estão sólidas. E com uma figura como ele à frente do executivo, pode acontecer tudo. Incluindo o sistema explodir. Nada está descartado", aponta Haddad.

Para o antigo presidente da câmara de São Paulo, que diz que não é "o candidato do PT, mas sim da democracia" - quando questionado sobre a quota-parte de culpa do PT - Dilma Roussef, a ex-presidente que foi destituída, cometeu "erros na política económica", durante o seu primeiro mandato. E admite que se devia ter avançado com "uma reforma política" em 2003, "para evitar que alguns indivíduos utilizassem determinados mecanismos para enriquecer". "Não foi o partido", aponta, "mas são as pessoas que se aproveitaram para enriquecer". "E são [de] todos os partidos, hoje sabemos que é muito mais sistémico do que parecia à primeira vista", completa.

Para Haddad, o que há a fazer é "continuar a fortelecer os organismos de combate à corrupção", como ele próprio garante ter feito quando da sua passagem pelo Ministério da Educação e no Município de São Paulo.

Sem responder diretamente se pedirá desculpa publicamente pela implicação do PT nos casos de corrupção, Haddad garante que "quem enriqueceu está a pagar por isso". "E está a pagar através de legislação aprovada por nós", sublinha. E descarta um eventual indulto a Lula da Silva. "Lula não o pediu. Tem graça que me peçam que me posicione sobre algo que o presidente não pediu. Ele só pede um julgamento justo."

A menos de 15 dias das eleições, Fernando Haddad tem um duro caminho pela frente para dar a volta ao resultado da primeira volta e às intenções de voto das sondagens. Se o adversário é difícil, a campanha de Bolsonaro faz uso de notícias falsas para atacar o candidato de esquerda, através das redes sociais. "Recebo cada coisa sobre mim, que quase desisto de votar em mim", brinca Haddad. "Nossa senhora, quantas mentiras. Mas não esperava outra coisa. É o tipo mais rasteiro que conheci ao longo da minha vida pública", atira Haddad sobre Bolsonaro.

"Recebo cada coisa sobre mim, que quase desisto de votar em mim. Nossa senhora, quantas mentiras."

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