Guterres diz que Nações Unidas "podiam fazer mais com menos"

Secretário-geral da ONU defendeu no Fórum Económico Mundial uma "nova geração de parcerias" com o setor privado para concretizar objetivos do desenvolvimento sustentável.

O setor privado é vital para garantir o desenvolvimento sustentável e ajudar na prevenção de conflitos, que continuam a ser uma das maiores, se não a maior, ameaça na atualidade, afirmou ontem António Guterres no penúltimo dia do Fórum Económico Mundial, a decorrer em Davos.

O secretário-geral das Nações Unidas notou que o desenvolvimento sustentável pode ser uma arma fundamental no combate ao terrorismo que "recruta jovens desempregados em muitas partes do mundo". Estes são mesmo a "principal fonte de recrutamento", sublinhou Guterres, num momento em que "as condições de vida melhoraram bastante" e a "pobreza absoluta diminuiu" mas, em paralelo, "as desigualdades se acentuaram" de forma gritante. Um fenómeno que criou uma "tremenda frustração" nas pessoas e contribuiu para tornar ainda maior o fosso entre as pessoas e os políticos e "também com organizações como a ONU".

Apresentado pelo fundador do Fórum de Davos, Klaus Schwab, Guterres defendeu a necessidade de uma reforma da organização que dirige. "As Nações Unidas são burocráticas. É possível fazer mais com menos", disse, enumerando as áreas em que quer avançar nas mudanças: reforma da sua arquitetura e das suas estruturas e das regras de gestão e funcionamento. Para o primeiro caso deu o exemplo das missões de manutenção de paz "em países onde não há paz alguma para manter e as forças da ONU acabam por se tornar uma das partes no conflito". Sobre as regras de gestão e funcionamento lembrou que o próprio secretário-geral não pode criar "um cargo de nível mínimo sem passar pela Assembleia Geral" para ter a necessária autorização.

O outro aspeto central da intervenção de Guterres foi a defesa de "uma nova geração de parcerias" com o "mundo empresarial", tendo em vista as áreas do desenvolvimento sustentável referidas na Agenda 2030 da ONU e no Acordo de Paris sobre o clima. Para o secretário-geral da organização deve existir um "alinhamento do mundo empresarial" com a estratégia e as prioridades da comunidade internacional naquelas áreas. O setor privado é fundamental, disse Guterres, pois "sem este não haverá inovação" nem a criação de emprego. "Só uma forte parceria entre os governos e o setor privado criará soluções", disse com ênfase.

Noutro ponto da sua intervenção, Guterres notou que o problema dos refugiados e migrantes "veio para ficar", lembrando que a proteção dos primeiros "está consagrada nas leis nacionais" e "é dever dos Estados em conceder" essa proteção. Em relação com a chegada de grande número de pessoas, principalmente, às sociedades europeias, o secretário-geral da ONU salientou que, de modo geral, estas são "multiétnicas, multirreligiosas e multiculturais" e esta "diversidade" deve ser entendida "como uma riqueza", não uma ameaça.

Guterres não deixou de ter uma reflexão sobre o cargo que desempenha, explicando que, na sua visão, o secretário-geral deve estar "pessoalmente envolvido" nas tentativas de se "conseguir a resolução, pelo menos, de alguns conflitos".

Em Davos está também o primeiro-ministro António Costa que manteve ontem contactos para apresentar Portugal como destino privilegiado de investimentos. A generalidade dos encontros foram à porta fechada, mas após uma reunião com a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, Costa disse à Lusa que a "primeira mensagem foi de congratulações" por Portugal ter tido "um resultado surpreendente para aquilo que eram as previsões iniciais do FMI" e pelo trabalho desenvolvido do executivo "não só para a consolidação orçamental, mas também para a criação de emprego, para o crescimento económico e para a estabilização do sistema financeiro".

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