Governo exuma Franco e decide para onde vai se família não se pronunciar

O governo de Pedro Sánchez aprovou a exumação dos restos do ditador do Vale dos Caídos, devendo o processo seguir agora para o Congresso espanhol.

O governo espanhol aprovou, em Conselho de Ministros, a modificação de dois aspetos da lei de memória história de 2007, dando assim luz verde à exumação dos restos do ditador Francisco Franco do Vale dos Caídos, um monumento onde estão as vítimas de ambos os lados da guerra civil. A ideia é o processo estar terminado até ao final do ano.

"A exumação de Franco será feita com garantias e a família será ouvida e poderá dispor, num prazo de 15 dias após ter sido iniciado o processo, para se encarregar dos restos mortais", disse a vice-presidente do governo espanhol e ministra da Presidência e da Igualdade, Carmen Calvo, após o Conselho de Ministros.

"Caso a família discorde ou não indique nenhum lugar para colocar os restos mortais de Franco, o governo decidirá para que lugar digno e respeitoso se transferem os restos de Franco", acrescentou a ministra, indicando que na próxima sexta-feira vai ser decidido o procedimento através do qual se vai tramitar a exumação, incluindo o aviso à família.

Em relação à Igreja Católica (a basílica onde está o túmulo é administrada pelos beneditinos), Calvo disse que o governo vai empreender as medidas que forem necessárias com o Vaticano, lembrando que os acordos que existem permitem empreender este tipo de decisão.

"Não podemos perder um só instante", disse a ministra, indicando que uma das alterações é um parágrafo que indica a urgência de fazer esta exumação, visto que se considera que a presença de Franco no local é "uma falta de respeito e paz para as vítimas". O ditador morreu a 20 de novembro de 1975, aos 82 anos.

"A democracia não é compatível com um túmulo que honra a memória de Franco", afirmou Calvo. "Não há uma só democracia no panorama internacional com a qual nos queremos comparar que tenha mantido uma situação como a que nós mantivemos durante 40 anos", referiu, dizendo que a decisão de transladar o corpo do ditador segue o decidido já, em duas ocasiões, pelo Congresso espanhol e também nas Nações Unidas.

Caberá agora ao Congresso espanhol aprovar o decreto, por maioria simples (mais votos a favor do que contra), que dá proteção legal à exumação. Apesar de os socialistas do primeiro-ministro Pedro Sánchez não terem maioria, tem o apoio de outros partidos para avançar com o processo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.