Forrest Gump alemães: 5 mil Km Lisboa-Tallin pela união na Europa

Carsten Witt, alemão de Munique, perdeu o pai na II Guerra Mundial. Tinha três anos. Hoje, com 76, criou um projeto para promover a união em tempos de desunião na Europa. Amanhã, às 10.00, ele e os filhos, Jacob e Korbinian, saem da Praça do Comércio, em Lisboa. A pé. E de bicicleta. Esperam chegar a Tallin, na Estónia, dentro de um ano e, pelo caminho, quem quiser pode juntar-se a eles.
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Quando tinha três anos, Carsten Witt perdeu o pai na II Guerra Mundial. Hoje, com 76, vê com angústia o aumento do poder de atores que "procuram dividir as civilizações": Donald Trump, brexit, Alternativa para a Alemanha, populismo em países como a Hungria são apenas alguns dos exemplos que dá. Mas em vez de ficar em casa de braços cruzados a reclamar de quão injusto e perigoso o mundo pode ser, decidiu antes tomar uma atitude. Durante um ano, ele e os seus dois filhos, Jacob e Korbinian Sonnenholzer, vão percorrer a Europa. A pé. E de bicicleta.

Quase ao estilo de Forrest Gump, quem quiser pode juntar-se a eles. E já a partir de amanhã. A partida desta família de alemães oriunda de Munique está marcada para as 10.00, na Praça do Comércio em Lisboa. O destino é Tallin, a capital da Estónia, onde esperam chegar a 28 de outubro de 2018. Durante o caminho esperam ir angariando apoios e dinheiro para conseguir criar na fortaleza-prisão de Patarei um centro de encontros europeu. Em tempos de profunda desunião (veja-se igualmente o atual caso da independência unilateral e ilegal da Catalunha), pai e filhos procuram defender a unidade, provar que existe solidariedade entre os povos e que o mais importante é as pessoas falarem e conectarem-se entre si.

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"Eu criei o projeto Go Europe! no início do ano passado. É baseado na minha experiência de vida. Estive um ano na capital portuguesa como professor de matemática e física numa escola, no âmbito do projeto COMENIUS. E depois também estive na capital estónia e encontrei a prisão de Patarei (edifício que hoje em dia está abandonado) e tive a ideia de fazer lá um centro europeu. Lisboa é uma janela para o Ocidente. Tallin é uma janela para o Leste. Vamos fazer 5 mil Km, sem fronteiras, em liberdade e em paz. Mostrar que nós temos que cooperar de pessoa para pessoa nos vários países. Ouvimos dizer coisas más uns dos outros e quando vamos ao terreno vemos que não são verdade e que não podemos ser inimigos", diz em declarações ao DN Carsten Witt, que de formação e profissão é engenheiro civil e psicólogo desportivo. O filho mais novo, Jacob, de 25 anos, que está a acabar o curso de Estudos Europeus em Passau, no estado da Baviera, já tinha pensado fazer uma viagem do género, ir de bicicleta de Gibraltar a Istambul. Mas depois quando o pai surgiu com a ideia dele decidiu juntar-se.

"Na primeira semana vamos tentar então que o máximo número de pessoas se junte a nós. Podem estar connosco um dia, umas horas, beber apenas um café e falar um pouco. Na primeira semana vamos os dois juntos, depois separamos as rotas e um ano depois chegamos juntos a Talin", explica ao DN Jacob Sonnenholzer. O pai vai a pé, com o apoio de um ou dois automóveis elétricos, conduzidos por voluntários, que lhe levarão a bagagem. Fará as principais capitais europeias e, entre de 28 de junho a 2 de julho de 2018, estará em Roth para o triatlo DATEV Challenge. "O carro vai de um ponto para outro, de manhã, para estar lá à noite, pode ser conduzido por pessoas que queiram ajudar ou queiram participar no projeto mas que não podem caminhar durante muito tempo", explica Carsten, dizendo que o seu plano, para já, é não ter quaisquer planos. Deixar acontecer. Podia ser este o seu lema.

O filho Jacob, de bicicleta, passará por grandes cidades, mas também localidades menos conhecidas, de países que não são só da União Europeia. Bósnia, Sérvia, Ucrânia e Albânia são apenas alguns exemplos. "A nossa definição de Europa vai muito para além da União Europeia. Recuamos a uma definição mais antiga. É preciso ter uma visão mais alargada. A Europa não deve limitar-se a fronteiras geográficas. Claro que há o oceano, para Ocidente, mas para Leste não há nada que diga exatamente onde acaba", lembra o estudante, admitindo que, da mesma forma, não há fronteiras religiosas. "Sempre a religião islâmica teve influência na Europa. Basta olharmos para os edifícios. Em todas as religiões há extremistas. Mas a ideia base da religião é exatamente a mesma que nós temos: vivermos em comunidade, ajudar-nos entre nós, sem divisões sem sentido. A liberdade religiosa é uma coisa que é muito positiva na Europa".

Jacob irá transportar a sua bagagem sobre as duas rodas. "Estarei na Rússia na altura do Mundial de Futebol e isso será certamente uma boa oportunidade para promover o projeto e incluir a população russa e a Rússia. Todo o mundo estará lá durante um mês [entre 14 de junho e 15 de julho]". E que reação tiveram por parte das autoridades russas em relação ao Go Europe? "Ainda não entramos em contacto com eles, mas creio que não haverá problemas. A população russa tem, basicamente, os mesmos desejos de viver em paz. Achamos que se tratarmos as pessoas com respeito e tivermos interesse genuíno no que elas têm a dizer, no que fazem, na maioria das vezes isso volta para nós. O respeito é um boomerang. Também tenho amigos russos. Somos um movimento da sociedade civil e queremos apenas reunir-nos com a população".

E como se prepararam fisicamente? "Eu tenho boa condição física, já fiz três maratonas, Berlim, Munique, Nova Iorque. Penso que não será difícil. Farei 20 Km por dia cinco dias por semana", conta Carsten Witt. "Eu sempre fiz ciclismo, vou treinando pelo caminho, depois irei adaptar-me", acrescenta Jacob, por seu lado, enquanto o irmão mais velho explica que só faz natação. Korbinian, de 32 anos, vai-se juntar pontualmente ao pai e ao irmão. "Tenho uma filha e tenho que cuidar dela", diz, sublinhando que, sempre que der, irá levá-la com ele para acompanharem Carsten e Jacob.

"A ideia era eles conseguirem fazer toda a viagem sem gastar um único euro em alojamento ou comida. Se conseguissem isso seria perfeito", afirma o organizador de eventos alemão. "Pelo caminho vamos perguntando às pessoas se conhecem alguém que nos possa dar dormida, comida, etc...", acrescenta, por seu lado, o irmão Jacob. "Tivemos algum dinheiro privado para começar, mas não chega para um ano. Agora estamos à procura de donativos, fazemos um crowdfunding", explica Carsten, embora sublinhando que a maioria do dinheiro que recolherem não é para as despesas da viagem em si, mas para o projeto da prisão de Patarei.

"Ao governo da Estónia custa-lhe meio milhão de euros por ano a manutenção do edifício", afirma Korbinian, enquanto o pai explica: "o governo, com o qual já nos reunimos, quer vender para não ter essas despesas. Chineses e árabes também podiam comprar, mas é um edifício classificado, num sítio onde só há sol três meses por ano, é difícil ganhar-se dinheiro com ele". A ideia, enumera Carsten, é "trazer 400 pessoas, durante 10 dias, para este centro de encontros europeu de Patarei. Queremos 15 mil pessoas por ano. Precisamos de patrocinadores. Queremos ter a cada ano um patrocinador, que participe com 12 mil euros. Se encontrarmos empresas dispostas a participar podemos fazer isto". O target do projeto, acrescenta Korbinian, "não são alunos Erasmus, mas sim pessoas sem educação superior, que não teriam de outra forma acesso a este tipo de encontros sobre a Europa".

A ignorância e o medo têm sido muitas vezes apontados como motivos para a subida de partidos populistas ou até mesmo de extrema-direita, como a Alternativa para a Alemanha. "As pessoas que votaram neles sentem medo em relação ao futuro. Se fosse por motivos racistas já tinha votado noutros de extrema-direita nos últimos 40 anos. Não basta dizer às pessoas que são estúpidas e que a democracia é que é boa. Isso só se resolve com encontro, respeito e diálogo", assinala Jacob, enquanto Carsten, que nunca recuperou o corpo do pai morto na guerra (quando combatia pelo exército alemão na Bessarabia), diz que de partidos como a AfD só se pode esperar uma de duas coisas: "serão desmascarados em pouco tempo e mostrarão que não sabem funcionar em democracia ou vão destruir as sociedades, os Estados e a Europa". Espera, por isso, que a sua peregrinação não seja em vão.

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