30 mortos em 13 horas. Fim de semana sangrento nuns EUA entregues à lei da bala

30 pessoas, incluindo um dos atiradores, morreram em dois ataques que ocorreram com 13 horas de diferença em El Paso (no Texas) e em Dayton (no Ohio). Trump chama cobardes a atacantes. Mas democratas culpam o presidente dizendo que o seu discurso de ódio contra os imigrantes instiga extremistas perigosos.

Dois tiroteios nos EUA, com 13 horas de intervalo, fizeram 30 mortos, incluindo um dos atiradores. O primeiro aconteceu no interior de uma loja Walmart, em El Paso, no Texas, e foi levado a cabo por um supremacista branco que admitiu que o seu objetivo era matar o maior número de hispânicos para, assim, preservar o domínio das pessoas de ascendência europeia. Patrick Crusius, de 21 anos, oriundo de Dallas, fez 20 mortos e 26 feridos. Entregou-se em seguida às autoridades. O segundo ocorreu à porta do bar Ned Peppers, em Dayton, no Ohio. Connor Betts, 24 anos, foi abatido pela polícia. Mas antes ainda conseguiu matar nove pessoas - entre elas a irmã Megan, de 22 anos, e deixar feridas outras 16.

"O meu objetivo era matar o maior número possível de mexicanos", confessou o atirador de El Paso, à polícia, segundo informação divulgada pelos vários media norte-americanos. Matou três e feriu seis, segundo o presidente e o ministro dos Negócios Estrangeiros do México, respetivamente Manuel López Obrador e Marcelo Ebrard. Entre os feridos está uma menina mexicana de apenas 10 anos, indicou Ebrard, na sua conta de Twitter. No interior da loja Walmart havia na altura do ataque cerca de três mil clientes e cem empregados.

Uma hora e meia antes do tiroteio, foi publicado no imageboard americano 8chan um manifesto, agora atribuído a Crusius. O documento fala em invasão latina e faz referência ao massacre em Christchurch, na Nova Zelândia, onde em março deste ano um supremacista branco australiano matou 51 pessoas que se encontravam em duas mesquitas islâmicas. O texto alude à Grande Substituição, teoria da conspiração dos supremacistas brancos, que diz que as pessoas de ascendência europeia estão a ser substituídas. "Em resumo, os EUA estão a apodrecer de dentro para fora e os meios pacíficos para travar isto parecem impossíveis. A verdade incomoda os nossos líderes, tanto os democratas como os republicanos, que estão a falhar há décadas", escreve o atacante, apresentando o sonho americano como um problema.

"Ainda que os imigrantes façam, normalmente, o trabalho sujo, os seus filhos já não querem fazê-lo. Querem viver o sonho americano, vão para a universidade, conseguem trabalhos altamente qualificados. É por isso que as empresas os querem", prossegue o atirador, que na sua conta de Twitter, entretanto apagada, tecia elogios a Trump e à ideia fixa do presidente de construir um novo muro na fronteira entre o México e os Estados Unidos. "Sei que os meios de comunicação vão provavelmente chamar-me supremacista branco e vão culpar a retórica de Trump. Mas os media são famosos pelas suas notícias falsas e é provável que a sua reação a esse ataque simplesmente o confirme."

Apesar disso, o presidente, através da sua conta de Twitter, condenou o ataque e chamou cobarde ao atacante. "O tiroteio de hoje em El Paso, no Texas, não só é trágico como é um ato de cobardia. Sei que estou ao lado de todos os que neste país condenam este ato de ódio. Não há razões nem desculpas que alguma vez justifiquem a morte de inocentes. Os meus pensamentos e orações, bem como as de Melania, vão para a grande população do Texas."

Na cidade americana de El Paso, vizinha da mexicana Ciudad Juárez, vivem 680 mil pessoas. 84% são de origem hispânica. El Paso tornou-se um dos pontos de entrada de imigrantes sem documentos mais movimentados ultimamente. A administração Trump tem feito acordos com países da América Central no sentido de evitar que os imigrantes cheguem aos EUA.

Detalhes descritos por Crusius no manifesto, nomeadamente sobre armas, munições e equipamentos, levam a crer que houve um elevado grau de premeditação por parte do atirador de 21 anos. "Neste momento, temos um manifesto deste indivíduo que até certo ponto indica uma ligação com um possível crime de ódio", disse o chefe da polícia de El Paso, Greg Allen, numa conferência de imprensa que foi citada pelas agências noticiosas internacionais.

Quanto ao atacante de Dayton, no Ohio, o Dayton Daily News noticiou que Connor Betts começou a disparar durante a madrugada quando lhe foi negada a entrada no bar Ned Peppers. A polícia e ambulâncias foram chamadas ao local e o atirador, que tinha um colete à prova de bala vestido, acabou por morrer, após troca de tiros com as forças de segurança. O balanço deste ataque, o segundo em menos de 24 horas neste fim de semana nos EUA, é de dez mortos, com o atirador, e 16 feridos. Todas as mortes aconteceram no exterior daquele estabelecimento.

Os relatórios iniciais indicam que Betts não tinha antecedentes criminais, exceto por pequenas infrações de trânsito. Uma análise inicial dos seus perfis de redes sociais não mostra nenhuma ligação óbvia com qualquer ideologia extremista. O perfil do Betts no Facebook foi retirado da manhã de domingo.

De acordo com o que parece ser a sua página no LinkedIn, Betts era um estudante de psicologia no Sinclair Community College, que tinha empregos em part-time num posto de gasolina local e num restaurante.

Também este segundo incidente mereceu comentários do presidente através do Twitter: "O FBI, as forças de segurança locais e estaduais estão a trabalhar juntas em El Paso e em Dayton, no Ohio. As informações estão a chegar de Dayton. Muito se sabe já sobre El Paso. As forças de segurança foram muito rápidas em ambos os casos. Haverá atualizações durante o dia! Deus abençoe as pessoas do Texas. Deus abençoe as pessoas de Dayton, no Ohio", escreveu Trump, em dois tweets.

Tiroteio de El Paso foi o oitavo mais mortífero na história da América moderna

O tiroteio de El Paso, no Texas, com 20 mortos, foi o oitavo mais mortífero da história da América moderna. O ataque que mais vítimas mortais provocou foi o ocorrido num festival de música, em Las Vegas, a 2 de outubro de 2017, com 58 mortos e 527 feridos. Os menos mortíferos foram os registados em Aurora, no Colorado, em julho de 2012, em Washington, em setembro de 2013, em Thousand Oaks, na Califórnia, em novembro de 2018, em Virgínia Beach a 31 de março de 2019, com 12 mortos a registar em cada um deles. No primeiro, houve 58 feridos, no terceiro oito.

Numa lista de piores ataques, citada pelo Axios.com, entre o ataque de Las Vegas e o de agora em El Paso, estão:

- O da discoteca Pulse, em Orlando, na Florida, em junho de 2016, com 49 feridos e 50 mortos
- O do instituto Virginia Tech, em Blacksburg, na Virgínia, a 16 de abril de 2007, com 32 mortos e 17 feridos
- O da escola primária Sandy Hook, em Newtown, no Connecticut, em dezembro de 2012, com 26 mortos
- O da igreja batista de Sutherland Springs, no Texas, em novembro de 2017, com 26 mortos
- O da cafetaria Luby's, em Killeen, no Texas, em outubro de 1991, com 23 mortos
- O do McDonald's, em San Ysidro, na Califórnia, em julho de 1984, com 21 mortos

Na nona posição está, de acordo com a mesma lista, o ataque no liceu Stoneman Douglas, em Parkland, na Florida, a 14 de fevereiro de 2018. Este fez 17 mortos e 15 feridos. O atirador, que está preso, era um ex-aluno que tinha sido expulso por razões disciplinares e que já tinha feito ameaças contra outros estudantes. O ataque de Parkland, o de El Paso agora, o da igreja baptista e o de Las Vegas, quatro dos mais mortíferos, ocorreram já todos depois da eleição de Trump. Só neste ano já houve 252 tiroteios nos EUA, ou seja, mais do que um por dia.

No rescaldo deste fim de semana sangrento já houve quem apontasse o dedo a Trump, ao discurso anti-imigração, à sua defesa de uma sociedade armada e à sua proximidade ao lóbi das armas de fogo nos EUA. Beto O'Rourke, um dos candidatos à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 2020, afirmou o seguinte, segundo a CNN: "Tivemos um aumento dos crimes de ódio em cada um dos últimos três anos durante uma administração que tem um presidente que chamou violadores e criminosos aos mexicanos apesar de os mexicanos apresentarem uma taxa de crimes inferior aos cometidos pelos que nascem neste país. Ele é racista e está a instigar o racismo neste país. Isso leva a mudanças fundamentais no carácter deste país e conduz à violência", disse aos media, à margem de uma visita a vítimas num hospital de El Paso. Beto O'Rourke é um antigo congressista eleito pelo Texas que é natural de El Paso.

Bernie Sanders, outro dos candidatos democratas, desafiou o Senado, dominado pelos republicanos, a não se subjugar ao lóbi das armas (NRA). "Precisamos de um presidente e de um Congresso que ouça os americanos, não a ideologia das organizações extremistas da extrema-direita. Temos de aprovar legislação de bom senso sobre as armas (...) Senhor presidente, pare com a sua retórica racista, de ódio e anti-imigração. A sua linguagem cria um clima que encoraja os extremistas violentos", escreveu o senador, em dois dos vários tweets que postou.

Joaquín Castro, congressista eleito pelo Texas, irmão gémeo do candidato democrata a 2020 Julián Castro, escreveu na sua conta de Twitter: "Este ataque vil contra os hispano-americanos é inspirado numa retórica radical e de divisão instigada pela guerra das armas. A linguagem do manifesto do atirador é consistente com a descrição que o presidente Trump faz dos imigrantes hispânicos como sendo 'invasores'. O meu comunicado na íntegra em baixo."

Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama e também candidato à nomeação democrata, apelou ao combate ao lóbi das armas nos EUA. "Armas de assalto e carregadores e elevada capacidade não fazem parte das nossas ruas. Temos de nos erguer contra a NRA e os fabricantes de armas - eles não são os donos do nosso país. Nós, o povo, é que somos os donos deste país", escreveu Biden, também na rede social Twitter.

Mais lojas de armas do que restaurantes McDonald's

Nos EUA, refere um artigo recente da agência Deutsche Welle, estão registadas 50 mil lojas de armas, mais do que lojas de McDonald's, cerca de 14 mil. Nalgumas lojas do grupo Walmart, por exemplo, é possível comprar armas. Após o massacre de Parkland, no ano passado, o grupo decidiu elevar para os 21 anos a idade mínima para compra de armas de fogo e munições nas suas lojas. "A nossa tradição como empresa esteve sempre ao serviço dos atletas e caçadores, e continuaremos a fazê-lo de uma maneira responsável", disse a empresa, com sede no Arkansas, num comunicado divulgado na altura.

A posse e o porte de armas nos EUA estão protegidos pela Segunda Emenda à Constituição americana, que data do século XVIII. A ambiguidade do texto, no entanto, provocou diferentes interpretações ao longo do tempo. Críticos do comércio e do livre porte de armas apontam que a emenda condicionaria o direito de possuir e ser portador de armas ao facto de se ser membro de uma milícia de autodefesa estadual. Já os defensores da posse e do porte preferem concentrar-se na parte que indica que o direito deve ser assegurado a qualquer cidadão americano.

Em 2008, numa decisão histórica, o Supremo Tribunal dos EUA concordou que a Segunda Emenda protege o direito individual de os cidadãos possuírem e serem portadores de armas e que esse direito não depende da formação de milícias. Dois anos depois, o Supremo Tribunal estendeu esse entendimento aos 50 estados dos EUA.

A legislação sobre armas de fogo varia de estado para estado. Nalguns, como no Alasca, não é preciso registar a arma ou obter licença para posse e porte de arma. Na memória de todos estão ainda os vídeos e as fotografias da ex-governadora do Alasca e ex-candidata republicana a vice-presidente Sarah Palin disparando espingardas automáticas e outras. Noutros, como a Califórnia, desde o tempo em que o governador era Ronald Regan, em 1967, é proibido exibir fuzis em público. E, desde 2011, exibir armas de cano curto. Noutros ainda é totalmente proibida a venda de espingardas de assalto.

À luz de uma lei federal de 1993, que proíbe a venda de armas a pessoas com cadastro e com problemas mentais, em 2017 foram recusados 181 mil pedidos de compra de armas. Mesmo assim, a lei não exige que haja confirmação de cadastro quando a venda de armas é feita entre indivíduos. Assim, segundo uma investigação do projeto Small Arms Survey, existem pelo menos 390 milhões de armas de fogo nas mãos de civis nos EUA, o que dá mais do que uma por habitante. O mesmo projeto apontou que metade das armas de fogo que pertencem a civis no mundo estão nos EUA, apesar da população do país representar apenas cerca de 5% da população mundial.

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