Neto diz que família de Franco irá encarregar-se dos restos mortais

Governo espanhol tinha dito que se a família não se pronunciasse encontraria um lugar digno e respeitoso para transferir os restos do ditador.

A família do ditador espanhol Francisco Franco irá encarregar-se dos seus restos mortais, caso estes sejam exumados do Vale dos Caídos, a 40 quilómetros de Madrid, afirmou um dos netos, Francis Franco.

Numa entrevista publicada hoje no jornal La Razón, citada pela agência EFE, Francis Franco disse acreditar que o Governo espanhol vai realizar a exumação "de qualquer forma e ver-se-á se saltando a legalidade".

O Governo espanhol iniciou na sexta-feira o processo de exumação de Franco do mausoléu no Vale dos Caídos ao aprovar um decreto-lei em Conselho de Ministros. A decisão do Governo recebeu uma forte oposição da família do ex-ditador, que morreu em 1975.

O decreto aprovado na sexta-feira terá que ser votado no Congresso, onde os socialistas estão em minoria, mas podem contar com o apoio da esquerda radical do Podemos, dos separatistas catalães e nacionalistas bascos para obter a maioria simples necessária.

Questionado sobre se a família irá recorrer do processo administrativo para proceder à remoção dos restos mortais, contemplado no decreto que permitirá exumar o cadáver do ditador, Fracis Franco respondeu que "gastar dinheiro contra um Governo é perder tempo".

A família, acrescenta, dará uma resposta "em conjunto" com as "alegações apropriadas", assim que o organismo instrutor do processo abra o prazo de 15 dias para que os interessados possam apresentar alegações, e comunicará o destino que deseja para os restos mortais de Franco.

O Governo espanhol tinha dito que, se a família não se pronunciasse, decidiria "para que lugar digno e respeitoso se transferem os restos de Franco".

A esse respeito, Francis Franco descartou a hipótese de os restos mortais do avô poderem ser enterrados com os da mulher, Carmen Polo, em El Pardo: "Onde ela está enterrada não há segurança, o meu avô não pode estar ali enterrado. Hoje essa hipótese não se coloca".

Francis Franco acredita que "nem o Governo nem 90% dos espanhóis veem urgência" na exumação e pede ao executivo que, se considera ter razão, o faça às claras - não através de um decreto, normalmente reservado a temas urgentes.

O neto de Franco disse ainda que a família enviou uma carta à comunidade religiosa que gere a basílica de Vale dos Caídos para comunicar que não autoriza a exumação.

O Vale dos Caídos, a 40 quilómetros da capital, é um complexo de edifícios de grande dimensão idealizado e erigido por Francisco Franco para homenagear os mortos da Guerra Civil espanhola, estando o túmulo do ditador, sempre florido, ao lado do do fundador do partido fascista Falange, José António Primo de Rivera.

Em nome de uma suposta "reconciliação" nacional, Franco transferiu os restos mortais de 37 mil vítimas - nacionalistas e republicanos - da guerra civil, para o local que foi inaugurado em 1959 e que é visto como exaltador da ditadura franquista.

Francisco Franco Bahamonde foi um militar espanhol que integrou o golpe de Estado que em 1936 marcou o início da Guerra Civil Espanhola, tendo exercido desde 1938 o lugar de chefe de Estado até ao seu falecimento em 1975, ano em que se iniciou a transição do país para um sistema democrático.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.