Evangélicos estão magoados com Bolsonaro

"Estou machucado", diz Magno Malta, pastor que fez oração com o eleito logo após os resultados e que afinal não será ministro. "Gratidão é memória do coração", alerta o bispo que recebeu o presidente e a mulher em culto

Uma das alianças mais sólidas da campanha eleitoral, entre o candidato entretanto declarado vencedor Jair Bolsonaro (PSL) e as lideranças da igreja evangélica brasileira, está ameaçada. Na constituição do seu governo, o capitão do exército, que conta com perto de uma dezena de militares em cargos chave, preteriu, por exemplo, o pastor Magno Malta (PR).

Malta, um ex-senador e ex-vocalista de banda gospel, era dado como certo num ministério de cariz social, sobretudo desde que puxou a oração logo após a confirmação da eleição de Bolsonaro, ainda na casa do presidente eleito, entre ele e a sua mulher, Michelle, e perante os "améns" do núcleo essencial do bolsonarismo.

"Saio machucado, saio magoado!", disse, citado pelo jornal O Estado de S. Paulo, ao abandonar Brasília e refugiar-se numa propriedade rural em intensa reflexão, triste por, disse ainda, "ser um dos últimos a ser convocado" para as reuniões do governo de transição.

Silas Malafaia, o bispo evangélico a cujo culto Jair e Michelle Bolsonaro se deslocaram menos de 48 horas após o sufrágio, também verbalizou a sua irritação. Para o líder do ministério Vitória em Cristo, "a única pessoa que pode responder por que o Magno não foi confirmado é o próprio presidente". "A mim", prosseguiu, citado pelo jornal Gospel Prime, "Bolsonaro disse-me três vezes que ia convidá-lo para a pasta da Cidadania, o Magno só não se elegeu senador [perdeu a eleição no estado do Espírito Santo] porque andou a fazer campanha nacional pelo Bolsonaro, a gratidão é a memória do coração", afirmou Malafaia.

E concluiu com uma pergunta: "quem é Osmar Terra comparado com o Magno Malta?". Osmar Terra é o escolhido por Bolsonaro para o tal ministério da cidadania a que o cantor gospel aspirava. A nomeação de Terra, do MDB, é interpretada como um agrado do presidente eleito a um dos maiores partidos do Congresso Nacional, cujo apoio em votações estratégicas é visto como essencial para a governabilidade.

Para a pasta da educação, entretanto, Bolsonaro convidara Mozart Ramos, um técnico respeitado e tido como liberal nos costumes, o que deixou desesperada a bancada evangélica. O presidente acabaria por desconvocá-lo e chamar para o seu lugar Ricardo Vélez, cujo pensamento é sintonizado com o da chamada Bancada da Bíblia, a frente parlamentar religiosa. Mas Vélez também não era a primeira escolha evangélica.

Oficialmente, o deputado Takayama (PSC), líder da Bancada da Bíblia, repudiou em nota qualquer tentativa de desestabilizar o apoio dos evangélicos a Bolsonaro. Segundo o comunicado, as sugestões da sua bancada não obrigam o presidente a acatá-las. Em paralelo, porém, Sóstenes Cavalcanti, outro membro do grupo parlamentar cristão, concordou que Bolsonaro. "tem de se explicar".

Com menos razões de queixa estão as forças armadas, representadas em peso no governo liderado pelo capitão do exército na reserva. Além do vice-presidente Hamilton Mourão, a quem Malta atribui em surdina a responsabilidade por ter sido rejeitado, e de mais três ministros com patente de general, outros nomeados por Bolsonaro têm passado militar.

Até ao momento, o governo tem 19 ministros e pode ter ainda mais três ou quatro. Em campanha, Bolsonaro havia prometido um executivo de até 15 ministérios.