EUA

Quantos democratas são preciso para tirar Trump da Casa Branca? 20 chegam?

Nas noites de 30 e 31 de julho, os candidatos à nomeação democrata para as presidenciais de 2020 voltam a enfrentar-se, em Detroit, com transmissão na CNN. São dois grupos de dez, quatro ficaram de fora.

Joe Biden deixa a promessa: desta vez não vai ser tão educado. O ex-vice-presidente de Barack Obama esteve em Detroit para os 110 anos da NAACP - uma das principais instituições americanas de defesa dos direitos civis dos negros - e aproveitou para deixar alguns recados aos adversários que vai enfrentar no segundo debate entre candidatos à nomeação democrata para as presidenciais americanas de 2020, sobretudo os senadores Kamala Harris e Cory Booker. Afinal, Biden sabe que para manter o favoritismo e ganhar a nomeação que lhe permitirá enfrentar Donald Trump em novembro do próximo ano precisa do voto dos afro-americanos. E depois do primeiro debate, em finais de junho, estes passaram-se maciçamente para Harris.

Nos próximos dias 30 e 31 de julho, 20 candidatos democratas (quatro ficaram de fora, ver texto secundário) vão enfrentar-se em dois grupos de dez, precisamente em Detroit, num debate em dois momentos organizado pela CNN. Biden volta a estar no mesmo grupo que Harris. E se no primeiro debate Booker estava no outro, desta vez estará em palco com os dois rivais. Prevendo já novos ataques, Biden decidiu antecipar-se. Acabado de apresentar o seu plano para mais justiça criminal - que contrasta com o que ele próprio lutou para ser aprovado em 1994 e que levou Cory Booker a apelidá-lo de "arquiteto de detenções em massa" -, o ex-vice-presidente de Barack Obama explicou que o senador de Nova Jérsia sabe perfeitamente "que tal não é verdade". E ainda recordou que o próprio Booker - que acusa o plano de 1994 de ter aumentado as detenções de afro-americanos - quando era mayor de Newark autorizou a polícia a revistar suspeitos sem acusação, na maioria afro-americanos.

O feudo entre os dois homens já vem de trás. Antes do primeiro debate, Booker foi uma das vozes mais críticas de Biden quando este elogiou o facto de no passado ter trabalhado com senadores segregacionistas. Mas com os dois homens em palcos diferentes, em finais de junho acabou por ser Kamala Harris a lançar o ataque mais duro contra Biden, tornando-se uma das estrelas da noite.

A filha de um jamaicano e de uma indiana não hesitou em confrontar o favorito com o seu registo em relação a racismo. Para Biden, o seu trabalho em parceria com senadores segregacionistas era um exemplo de como mesmo pessoas que discordam podem trabalhar juntas. Mas para muitos, sobretudo dois afro-americanos como Booker e Harris, as palavras de Biden soaram a nostalgia em relação a uma era em que os negros eram excluídos da política.

Harris atacou ainda Biden por ele se ter oposto, enquanto senador, ao busing - o transporte em autocarros, nas décadas de 1960 e 1970, de alunos negros para escolas maioritariamente brancas de forma a conseguir um equilíbrio racial. "Trabalhou com esses senadores segregacionistas contra o busing. E havia uma menina na Califórnia que no segundo ano integrou uma escola e era levada para lá de autocarro todos os dias. Essa menina era eu", lançou Harris, defendendo uma política do governo americano que foi tudo menos consensual, mesmo entre os afro-americanos, muitas vezes irritados por mandarem os filhos para longe quando tinham uma escola perto de casa.

"Trabalhou com esses senadores segregacionistas contra o busing. E havia uma menina na Califórnia que no segundo ano era levada para a escola de autocarro todos os dias. Essa menina era eu"

A resposta de Biden não convenceu, e a verdade é que, nas semanas que se seguiram ao debate, não só perdeu apoio junto dos eleitores afro-americanos como esse apoio se transferiu para Harris quase diretamente. Biden perdeu 7% do voto negro, Harris subiu 6% nas intenções de voto dos afro-americanos.

Os favoritos, os perseguidores e o pelotão

Basta olhar para as sondagens para perceber que Biden, apesar das polémicas, continua o claro favorito. O último estudo do instituto YouGov dá 25% das intenções de voto para o ex-vice-presidente, seguido pela senadora do Massachusetts Elizabeth Warren com 18% e pelo senador do Vermont Bernie Sanders com 13%. Os três veteranos - estão todos acima dos 70 anos, com Sanders a fazer 78 em setembro - destacam-se dos restantes rivais.

Harris e o mayor de South Bend, o até há pouco desconhecido Pete Buttigieg, surgem num grupo de perseguidores, com as sondagens a darem-lhes entre os 6% e os 14%, dependendo do instituto. Aos 37 anos, Buttigieg, um veterano do Afeganistão, cristão praticante e gay assumido - anunciou a candidatura à Casa Branca com o marido ao lado no palco -, tem sido uma das grandes surpresas da campanha democrata. Apesar da juventude, da falta de notoriedade e de experiência política, tem sido presença forte nos media e conseguiu recolher uns admiráveis 25 milhões de dólares para a sua campanha.

Ao grupo da frente e aos dois perseguidores segue-se um vasto pelotão de candidatos que oscilam entre 1% e 3% das intenções de voto nas várias sondagens compiladas no site FiveThirtyEight.

Neste segundo debate, a 31 de julho, Biden estará no mesmo palco de Harris, Booker, o ex-secretário da Habitação Julián Castro, o empresário Andrew Yang, o senador do Colorado Michael Bennet, o mayor de Nova Iorque Bill de Blasio, a congressista do Havai Tulsi Gabbard, a senadora de Nova Iorque Kirsten Gillibrand e o governador de Washington, Jay Inslee.

Na véspera, Sanders e Warren estarão em palco com Buttigieg, com a senadora do Minnesota Amy Klobuchar, com o ex-congressista estadual do Texas Beto O'Rourke, o governador do Montana, Steve Bullock, o congressista do Ohio Tim Ryan, o ex-governador do Colorado John Hickenlooper, o ex-congressista do Maryland John Delaney e a escritora e guru espiritual Marianne Williamson.

Vencedores e vencidos do primeiro debate

Com 20 candidatos em palco - divididos também em dois grupos -, o primeiro debate entre rivais na corrida democrata só podia ter sido caótico. E foi. Mas a verdade é que após duas noites de discussão, permitiu tirar algumas conclusões.

Os favoritos mantiveram o estatuto, mas surgiram algumas surpresas. A primeira, como já disse, foi uma prestação de Biden abaixo do esperado, revelando alguma dificuldade na resposta aos ataques de Kamala Harris.

Mas se Harris se destacou, talvez a maior surpresa da noite tenha mesmo sido Julián Castro. O ex-secretário da Habitação de Barack Obama nunca passou do 1% das intenções de voto nas sondagens - resultados vistos como uma desilusão para um ex-mayor de San António, no Texas, com vasta experiência política. Mas tudo mudou naquela noite no palco da NBC News em Nova Iorque. Ao confrontar o também texano Beto O'Rourke sobre a imigração, o descendente de mexicanos conseguiu pôr a maioria dos rivais a apoiar a sua ideia de descriminalizar a entrada ilegal nos EUA. Nos quatro dias seguintes, e segundo o Politico, Castro recolheu um milhão de dólares e já ultrapassou a fasquia dos 2% de intenções de voto, essencial para se apurar para o terceiro debate em setembro. E se será com certeza difícil que venha a conseguir a nomeação democrata para as presidenciais, a verdade é que ganhou de certeza pontos na corrida paralela a candidato a vice-presidente.

Terminado o primeiro debate, os media americanos não hesitaram em garantir que se as suas ideias dominaram o palco - do perdão da dívida aos estudantes (uns pesados 1,6 biliões de dólares, os trillions anglo-saxónicos) até à criação de uma espécie de serviço nacional de saúde nos EUA -, Bernie Sanders foi um dos derrotados da noite. Porquê? Porque se em 2016 o senador do Vermont deu luta a Hillary Clinton ao apresentar-se como uma radical em relação à ex-primeira-dama, num partido hoje muito mais à esquerda, não faltam opções para os eleitores que simpatizem com as suas ideias - de Warren a Cory Booker, passando pela própria Kamala Harris.

Olhando para as sondagens, é claramente Warren quem está a tirar mais votos a Sanders - em dois meses, a senadora do Massachusetts subiu dos 6% para os 18%, enquanto o senador do Vermont, autointitulado "socialista", baixou de 23,5% para 16%.

Um teste para o terceiro debate

Se para os principais candidatos os debates de 30 e 31 de julho são importantes, para os candidatos mais "pequenos" são vitais. Esta é a sua grande oportunidade para se destacarem se querem continuar na corrida. Até porque as regras para entrar no terceiro debate serão bem mais apertadas. Nos dois primeiros bastava ter 65 mil doadores únicos e mais de 1% das intenções de voto em pelo menos três sondagens nacionais ou nos primeiros estados a votar nas primárias. No próximo debate, marcado para setembro, a fasquia passa para os 2% em pelo menos quatro sondagens e para 130 mil doadores únicos.

Sendo assim, os debates na CNN podem ser a última oportunidade para ver alguns destes candidatos em palco. Afinal, até agora só seis conseguiram alcançar as metas que lhes garantem a presença no terceiro debate. Em setembro, portanto, o número de candidatos deverá começar a reduzir e deverá ficar mais claro quem vai mesmo ser o adversário de Donald Trump nas presidenciais de novembro de 2020.

BI DOS 20 CANDIDATOS

Joe Biden
Ex-vice-presidente dos EUA e ex-senador do Delaware
76 anos
Moderado, defende o Obamacare enquanto alguns rivais mais radicais propõem um serviço nacional de saúde. Tem sido criticado tanto pela relação muito física que tem com as mulheres como pela ligação passada a senadores segregacionistas.

Bernie Sanders
Senador do Vermont
77 anos
Derrotado por Hillary Clinton nas primárias de 2016, mantém as ideias progressistas. Autodenominado "socialista democrático", quer um serviço nacional de saúde, cancelar as dívidas dos estudantes e promete retirar todas as tropas americanas do Médio Oriente.

Elizabeth Warren
Senadora do Massachusetts
70 anos
Pertence à ala mais radical dos democratas. Tem propostas para cancelar a dívida dos estudantes (1,6 biliões de dólares), criar cuidados infantis universais, um ensino superior gratuito e impor mais impostos sobre a fortuna.

Kamala Harris
Senadora da Califórnia
54 anos
Filha de um jamaicano e de uma indiana, é vista como liberal. Propõe aumentos para os professores, seguro de saúde para todos e um novo New Deal do Ambiente.

Pete Buttigieg
Mayor de South Bend, Indian
37 anos
Gay assumido, tem usado a sua experiência militar e a sua religiosidade para desafiar os estereótipos dos republicanos. Mas tem sido criticado por as suas propostas não serem muito concretas.

Julián Castro
Ex-secretário da Habitação
44 anos
De origem mexicana, destacou-se na defesa das crianças migrantes detidas pelas autoridades americanas na fronteira com o México. Tem na proposta de reforma da imigração um ponto forte do seu programa.

Kirsten Gillibrand
Senadora de Nova Iorque
52 anos
Descrita como "democrata centrista" quando era congressista, no Senado as suas posições tornaram-se mais liberais. Defensora de uma licença parental paga e do acesso de todos à saúde, apoia o casamento gay e as restrições no acesso às armas.

Tulsi Gabbard
Congressista do Havai
38 anos
Filha de um católico da Samoa e de uma americana de origem alemã mas hindu, a veterana do Iraque é uma progressista que defende um serviço nacional de saúde e o desmantelamento dos grandes bancos. Em política externa, esta não intervencionista tem sido criticada por um encontro com o presidente sírio, Bashar al-Assad.

Marianne Wlliamson
Escritora e guia espiritual
67 anos
Convencida de que "o amor" vai vencer Trump, Williamson é a outsider do grupo. Defensora de um despertar moral e espiritual da América, propõe indemnizações pela escravatura, legalizar a marijuana, acesso grátis à saúde e educação para todos.

Cory Booker
Senador de Nova Jérsia
50 anos
Liberal, defende mais fundos para a educação, a reforma da justiça, o acesso de todos à saúde e a criação de baby bonds - poupanças de baixo risco a que a criança terá acesso quando fizer 18 anos.

Bill de Blasio
Mayor de Nova Iorque
58 anos
Decidido a levar a sua experiência em Nova Iorque até à Casa Branca, foi um dos dois (com Warren) candidatos a defender o fim dos seguros privados e a sua substituição por um programa estatal.

Michael Bennet
Senador do Colorado
54 anos
Moderado, é contra o serviço nacional de saúde, preferindo uma solução a que chama Medicare X, votou contra um projeto apresentado por Sanders para retirar as tropas americanas envolvidas na guerra do Iémen.

Beto O'Rourke
Ex-congressista estadual do Texas
46 anos
O homem que quase derrotou Ted Cruz na corrida a senador do Texas em 2018 tem tido dificuldade em se impor. Moderado, propõe reduzir as emissões de gases de efeito estufa mas votou várias vezes ao lado dos republicanos nos apoios aos combustíveis fósseis ou na imigração.

Tim Ryan
Congressista do Ohio
46 anos
Empenhado em trazer para o partido o voto dos eleitores brancos e de classe média, as suas políticas são pouco claras. Defendeu no passado cortes dos impostos para as grandes empresas.

John Hickenlooper
Ex-governador do Colorado
67 anos
O geólogo é um dos candidatos mais moderados, conhecido pelas propostas a favor das empresas e pelo desejo de trabalhar com os republicanos.

Jay Inslee
Governador de Washington
68 anos
Centrou a campanha na questão do ambiente. Defende eliminar a dependência dos combustíveis fósseis até 2045.

Andrew Yang
Empresário
44 anos
Filho de imigrantes de Taiwan, destacou-se por falar de assuntos que os outros candidatos têm ignorado - como a criação de um rendimento mínimo universal para responder à automação do trabalho.

Amy Klobuchar
Senadora do Minnesota
59 anos
Ao centro do espectro político, defende políticas pragmáticas, como um plano de 650 mil milhões de dólares para desenvolver as infraestruturas.

John Delaney
Ex-congressista do Maryland
56 anos
Considerado moderado, não apoia, por exemplo, o Medicare para todos, o que lhe valeu críticas.

Steve Bullock
Governador do Montana
53 anos
A estreia neste debate, Bullock é mais um moderado. Tem centrado a campanha na luta contra a corrupção.

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