"Estamos no inferno no paraíso": turistas abandonam ilha grega de Hydra exigindo dinheiro de volta

Avaria deixou ilha sem eletricidade desde sábado. Água também faltou durante todo o domingo. Até esta tarde, quando voltou a haver eletricidade, não havia dinheiro nos multibancos, os restaurantes estavam fechados e a comida nos hotéis racionada. Foi mesmo declarado o estado de emergência e turistas querem ser ressarcidos.

"Não há dinheiro, o pequeno-almoço que nos deram hoje era horrível, fecharam a piscina, os restaurantes estão fechados, e não pudemos tomar um duche durante todo o domingo." O relato é de turistas portugueses que estão a passar férias na ilha grega de Hydra, considerada uma das mais belas do país e preferem não ser identificados. "Vamos exigir o dinheiro de volta e se isto não se resolver hoje vamos sair daqui."

Contactado pelo DN esta tarde, o hotel em causa, uma unidade de quatro estrelas, recusou qualquer esclarecimento sobre como vai lidar com a situação, limitando-se a certificar: "Temos água e luz e sempre tivemos." Esta certificação, porém, não só contradiz a informação dada pelos hóspedes como choca com a informação de que as autoridades gregas terão declarado o "estado de alerta/emergência" na ilha. Rena Duru, a presidente da região a que pertence Hydra, justificou a decisão com o facto de o município não conseguir lidar sozinho com a gravidade da situação..

A presidente da associação hoteleira da ilha, Maria Kladaki, confirma a debandada de turistas: "Estão a deixar Hydra em massa, não só reclamando de volta o que pagaram como exigindo uma indemnização por terem ficado com as férias estragadas", disse ao ao site noticioso grego Kathimerini.

"Os visitantes estão a deixar Hydra em massa, não só reclamando de volta o que pagaram como exigindo uma indemnização por terem ficado com as férias estragadas"

Os comerciantes confirmam igualmente a inexistência de condições na ilha: "Os restaurantes estão fechados, os multibancos não funcionam, nada está a funcionar. As pessoas estão a fazer as malas e a partir", disse um ao mesmo site.

O presidente da Câmara de Hydra, Yorgos Kukudakis, garantiu que a eletricidade regressaria esta tarde, depois de ontem ter voltado a haver água graças ao fornecimento por um navio da marinha grega. Para já, anunciou, o fornecimento de eletricidade será garantido por dois grandes geradores. Os turistas portugueses contactados pelo DN confirmam que se ouvem geradores a funcionar: "O ruído é indescritível, e o cheiro também." Ao fim da tarde, a eletricidade tinha voltado ao hotel.

"Os restaurantes estão fechados, os multibancos não funcionam, nada está a funcionar. As pessoas estão a fazer as malas e a partir"

Em comunicado, citado pela agência EFE, a Autoridade de Gestão de Distribuição de Eletricidade tinha esclarecido, esta manhã, que os técnicos ainda estavam a tentar encontrar a origem do apagão. Esta terá sido detetada finalmente num dos cabos submarinos entre a Grécia continental e a ilha, que terá sofrido danos, entretanto reparados.

Um oásis de tranquilidade, beleza e silêncio

Numa ilha que apresenta como um dos seus encantos ter banido os veículos motorizados e utilizar burros, mulas e cavalos como meio de transporte exclusivo (só os bombeiros e os serviços de recolha de lixo podem usar veículos motorizados), geradores a motor em laborar contínuo pareceriam ainda mais deslocados.

Hydra fica a uma hora de barco de Atenas. Em 2007, um grupo de peritos da National Geographic proclamou-a a melhor e mais pitoresca da Grécia. Tem apenas uma povoação, junto ao porto, e vive sobretudo do turismo. A sua beleza e tranquilidade atraiu notáveis como Leonard Cohen, que comprou ali uma casa nos anos sessenta; Henry Miller visitou-a em 1939 e descreveu-a num dos seus livros: "É quase uma rocha nua e a sua população, constituída quase exclusivamente por pescadores, está a desaparecer. A cidade, que rodeia o porto em anfiteatro, é imaculada. Só há duas cores, branco e azul, e o branco é repintado todos os dias, até ao chão de pedra das ruas. (...) Esteticamente é perfeita."

"Não há dinheiro, o pequeno almoço que nos deram hoje era horrível, fecharam a piscina, os restaurantes estão fechados, e não pudemos tomar um duche durante todo o domingo."

Uma perfeição e tranquilidade que atraiu o grupo de turistas portugueses. Mas descobriram-se num filme completamente diferente: "Estamos no inferno no paraíso."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.