Dois meses de Vaza Jato: tudo sobre as reportagens que abalaram Moro

Na primeira semana de junho, o site The Intercept Brasil começou a revelar, a conta-gotas, troca de mensagens comprometedoras entre o juiz da Lava Jato, hoje ministro de Bolsonaro, e o procurador-chefe da operação. E nada no Brasil ficou como dantes.

O Brasil foi abalado há dois meses por revelações do The Intercept Brasil sobre a Lava Jato. Com acesso a trocas de mensagens entre Sergio Moro, o juiz da operação que se tornou ministro da justiça de Jair Bolsonaro, e os procuradores que investigaram o maior escândalo de corrupção do país, o site fundado pelo prémio Pulitzer de jornalismo Glenn Greenwald deixou a nu um conluio entre aquele a quem era exigida imparcialidade e uma das partes do processo. Nomeadamente, no caso da condenação, pelo próprio Moro, de Lula da Silva, antigo presidente que liderava as sondagens para as eleições do ano passado à frente de Bolsonaro.

A imagem do ministro mais popular do governo foi, no mínimo, arranhada - a única pesquisa sobre o tema revelou perda de 10 pontos na sua aprovação - assim como a de toda a task force do ministério público que conduziu a Lava Jato, principalmente a do seu chefe, Deltan Dallagnol, que, revelou o site, além de trocar mensagens com o juiz, ainda lucrou com a operação e cometeu ilegalidades que lhe podem valer punições.

Mais tarde, os supostos hackers que serviram de fonte ao The Intercept foram presos. O seu líder, por acaso filiado ao partido com mais ministros no atual governo, contou como agiu e com quem agiu. O ministro Moro editou portaria controversa logo a seguir.

Na imprensa - o jornal ​​​​​​Folha de S. Paulo e a revista Veja tornaram-se parceiros do The Intercept - as revelações continuam a surgir dia após dia. E, segundo Greenwald, continuarão, uma vez que, diz ele, este caso tem mais material para ser divulgado do que o seu furo de reportagem anterior, aquele em torno de Edward Snowden que abalou as estruturas da CIA.

O que é a Vaza-Jato?

Um conjunto de reportagens, liderado pelo site The Intercept Brasil, fundado pelo jornalista norte-americano radicado no Brasil Glenn Greenwald, que revelou comportamentos considerados condenáveis ou ilegais do então juiz da Lava Jato Sergio Moro em conversas com procuradores da operação obtidas por meio de hackers.

O que de mais grave foi revelado sobre o juiz da operação (o hoje ministro da justiça) Sergio Moro?

As mensagens revelam que Moro indicou ao procurador-chefe da Operação Lava-Jato, Deltan Dallagnol, uma testemunha que poderia colaborar na acusação a Lula da Silva.

Também orientou a inclusão de provas, sugeriu mudança nos métodos, no calendário e na escala dos procuradores, além de lhes antecipar decisões e recomendar envio de notas à imprensa sobre supostas contradições de Lula.

O hoje ministro de Bolsonaro desaconselhou, por outro lado, investigações contra Fernando Henrique Cardoso, de forma a manter o antigo presidente a favor da operação.

Moro, segundo conversas entre procuradores, também duvidava da delação de Antonio Palocci, braço direito de Lula, mas ainda assim decidiu torna-la pública às vésperas da primeira volta das eleições, ao ver o candidato Fernando Haddad (PT) subir a pique nas sondagens.

O então juiz também disse esperar que eventual delação de Eduardo Cunha - cujo conteúdo à partida poderia incriminar o presidente Michel Temer - não fosse efetuada.

Quem mais foi atingido pelas revelações?

O procurador Deltan Dallagnol por, em conversas com outros procuradores, demonstrar estar a trabalhar para impedir que Lula desse uma entrevista às vésperas das eleições, uma vez que, lê-se na troca de mensagens, isso poderia beneficiar o PT.

Também por, após reuniões com juízes do Supremo Tribunal Federal (STF), se congratular por, pelo menos, dois deles estarem a favor da Lava-Jato. "In [Luiz] Fux we trust", disse numa mensagem, e "aha, uhu, o [Edson] Fachin é nosso", disse noutra.

Nas mais recentes revelações, soube-se que Dallagnol e outros procuradores investigaram juízes do STF, o que é proibido por lei, buscando informações bancárias deles e das suas mulheres.

Por outro lado, Dallagnol e outro procurador usaram o prestígio adquirido na Lava-Jato para lucrar com palestras, através da criação de uma empresa estrategicamente em nome das respetivas cônjuges. "Se fizéssemos algo sem fins lucrativos e pagássemos valores altos de palestras para nós, escaparíamos das críticas, mas teria que ver o quanto perderíamos em termos monetários", disse.

Em troca de uma palestra no Ceará, o chefe dos procuradores pediu alojamento grátis para si e a sua família num parque aquático.

Dallagnol chegou a fazer palestras a empresas citadas na Lava-Jato, revelam as mensagens.

Outros procuradores relataram perplexidade por Moro vir a ser nomeado ministro de Bolsonaro. "É o fim", disseram.

E questionaram a atitude do hoje ministro da justiça a respeito do caso em que Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, é investigado por formação de quadrilha e corrupção.

Quem são os quatro hackers entretanto detidos pela polícia?

Walter Delgatti Neto, 30 anos, natural e residente em Araraquara, cidade a 250 km de São Paulo, é considerado o líder do grupo de hackers. Tem mais de 20 processos criminais por aplicação de pequenos e grandes golpes a instituições, como bancos, e cidadãos.

Danilo Cristiano Marques, 33 anos, amigo de infância de Delgatti, também de Araraquara, teve uma condenação por roubo.

Gustavo Henrique Elias Santos, disc jockey de 28 anos, e Suelen Priscila de Oliveira, 25, mulher de Gustavo, são, tal como Marques, amigos de infância de Delgatti.

Qual a sua filiação partidária?

A alcunha de Delgatti é "Vermelho", o que fez correr a versão que tinha a ver com simpatias políticas à esquerda - no entanto, deve-se à cor do cabelo e da barba, ruivos.

A única filiação do hacker é ao DEM, o partido (de direita) com mais ministros no governo Bolsonaro e dos presidentes das duas câmaras do Congresso Nacional.

Dos restantes não há notícia de filiação mas Marques, a julgar pelas publicações nas redes sociais, é apaixonado apoiante do atual presidente.

Receberam pelo trabalho?

Em depoimento, Delgatti disse que fez o encaminhamento das mensagens a Greenwald sem cobrança e de forma anónima.

Como agiram?

Também em depoimento, Delgatti contou que depois de invadir o telefone de um juiz de Araraquara que o condenara, teve acesso à agenda telefónica dele e depois às agendas telefónicas de todos os seus contactos, chegando, segundo a polícia federal, aos números de quase 1000 autoridades.

Qual a participação de políticos no esquema de invasão dos telemóveis dos procuradores?

A única referência é a Manuela D"Ávila, do PCdoB, candidata a vice-presidente na lista de Fernando Haddad, do PT, nas últimas eleições. Segundo Delgatti, ele obteve o seu número no meio das mensagens que pirateou, depois procurou-a, sem se identificar, e pediu-lhe o contacto de Greenwald.

Ela confirma. E, à partida, não cometeu nenhum crime por intermediar o contacto.

O que é a portaria 666?

Dias depois da detenção dos hackers, o ministro da justiça Moro editou uma portaria que prevê a deportação de estrangeiros considerados "perigosos" ou que tenham "praticado atos contrários aos principais objetivos" da Constituição. A portaria foi entendida como feita à medida do caso de Greenwald e por isso alvo de críticas.

O que Moro e Dallagnol dizem da Vaza-Jato?

O ministro da justiça disse não ter como se lembrar se as conversas eram verdadeiras, chamou os ataques de "vilania" e chegou a afirmar que "se quiserem publicar tudo, publiquem, não tem problema".

A propósito de um trecho divulgado pela imprensa em que chamava elementos do Movimento Brasil Livre, que liderou manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, de "tontos" telefonou aos seus diretores pedido "escusas".

O procurador começou por chamar as reportagens de "equívoco da imprensa" para depois vir a comentá-las uma a uma, à medida que são divulgadas.

E o que diz Greenwald?

Ouvido no Senado, afirmou que Moro quer que os jornalistas sintam "medo e apreensão". "Não temos medo nenhum. Continuamos publicando depois disso. Vamos continuar publicando".

Após a prisão dos hackers negou-se a confirmar se são eles a sua fonte.

Segundo o artigo quinto da Constituição "é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional".

E Bolsonaro?

Declarou apoio ao mais popular dos seus ministros, indo com ele a dois jogos de futebol na tentativa de receber chuva de aplausos, após a divulgação das mensagens.

Mais tarde, a propósito da portaria 666 negou que Greenwald fosse visado mas disse que o jornalista poderia "apanhar uma cana no Brasil". Segundo o presidente, o norte-americano foi "malandro" por se ter casado com um brasileiro e adotado filhos para evitar deportações.

E Lula?

"A verdade fica doente mas não morre nunca", disse por meio de mensagem lida por um advogado.

Segundo outro advogado, o antigo presidente acrescentou que nunca sentiu receber tratamento imparcial compatível com a Constituição.

O que esperar a partir de agora?

Caso seja entendido que Moro colaborou com uma parte, no caso a acusação, é considerado "suspeito", ao abrigo dos artigos 254 e 564 do Código de Processo Penal, e as sentenças proferidas na Lava-Jato podem ser anuladas, incluindo a de Lula.

Dallagnol pode sofrer punições na procuradoria-geral da República e no Conselho Nacional do Ministério Público.

Os hackers continuam em prisão preventiva.

As revelações continuarão a surgir tanto no The Intercept Brasil como nos órgãos que a ele se associaram, Veja e Folha de S. Paulo.

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