"Ensinamos o português nos nossos países como se fosse língua materna, quando não é"

O diretor executivo do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP) defendeu esta sexta-feira que o ensino do português como língua materna em países com "línguas africanas muito vivas" não é "a melhor" metodologia, antecipando alterações na forma de ensino.

"Depois de observar durante muitos anos alguns sistemas de ensino, algumas metodologias de ensino de língua portuguesa, fiquei com a ideia que a metodologia não é a melhor, porque ensinamos o português nos nossos países como se fosse língua materna, quando não é. Talvez uma abordagem diferente fosse mais produtiva", defendeu Incanha Intumbo.

O diretor executivo do IILP, um organismo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), falava na cidade da Praia, no arranque do segundo dia do IX Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, evento organizado pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e pela Câmara Municipal da Praia.

Incanha Intumbo disse ter ficado "muito contente" de ter ouvido, no dia anterior, o primeiro-ministro cabo-verdiano, Ulisses Correia e Silva, dizer que Cabo Verde, que tem o português como língua oficial, vai repensar a sua metodologia de ensino.

"Quando eu puder, recomendarei a alguns países que façam o mesmo, porque notamos que os estudantes passam 12 anos num sistema de ensino num país onde o português é língua oficial, chegam ao 12.º ano e têm dificuldades muito sérias em língua portuguesa. Os mesmos estudantes vão à China e já falam chinês, com muito boa correção, vão à Rússia, a outros países, é claro que depois melhoram", exemplificou o diretor do IILP.

"O que é que está mal? A primeira constatação é que estes estudantes não são burros, embora se diga em português que burro velho não aprende língua'. O problema está no sistema, na metodologia, e é aí que temos que procurar as bases para dizer que isto está mal", prosseguiu o responsável institucional.

Para Incanha Intumbo, um dos problemas de ensino do português está no facto de alguns países continentais terem "línguas africanas muitos vivas", a que os estudantes estão habituados desde crianças, mas, de repente, têm de fazer uma transição para uma língua de índole europeia.

"Por isso mesmo temos que repensar, adaptar e estudar a metodologia adequada para ensinar essa pessoa a língua portuguesa", insistiu o diretor do IILP, que é natural da Guiné-Bissau, pelo que antecipou que "qualquer dia" esse e os outros países também vão mudar a sua metodologia de ensinar a língua de Camões.

Incanha Intumbo garantiu também que o IILP pode colaborar tecnicamente com os países que pretendem mudar a sua metodologia de ensino da língua portuguesa.

Com sede da cidade da Praia, o IILP é um órgão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e tem por objetivos fundamentais "a promoção, a defesa, enriquecimento e difusão da língua portuguesa como veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento científico, tecnológico e de utilização em fóruns internacionais".

O IX Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que se prolonga até sábado, homenageou na quinta-feira o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, Prémio Camões de 2018.

O evento, que conta com a participação de dezenas de escritores e que este ano tem como tema geral a literatura infanto-juvenil, visa contribuir para o diálogo e a aproximação entre os escritores de língua portuguesa dos diferentes continentes.

As anteriores edições do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa decorreram na cidade de Natal (Brasil), em Luanda (Angola) e as últimas quatro edição na cidade da Praia (Cabo Verde).

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Maria Antónia de Almeida Santos

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