Demissão de ministra por plágio vira holofotes para tese de Sánchez e mestrado de Casado

Ministra da Saúde espanhola, Carmen Montón, demitiu-se por irregularidades no seu mestrado. Segundo a La Sexta, 19 das 52 páginas do seu trabalho final no mestrado em Estudos Interdisciplinares de Género são plágio de outros autores

Entre 2010 e 2011, Carmen Montón frequentou, na Universidade Rey Juan Carlos, o mestrado em Estudos Interdisciplinares de Género. Segundo a La Sexta, o seu trabalho final de curso tem textos idênticos aos de outros autores em 19 das 52 páginas, sem que os mesmos estejam referenciados, citados, apareçam em rodapé ou referidos na bibliografia consultada.

Montón, que se demitiu do cargo de ministra da Saúde que ocupava no governo socialista de Pedro Sánchez, negou quaisquer irregularidades na obtenção do mestrado por aquela universidade mas não mostrou o conteúdo do seu trabalho final de curso. O Eldiario.es, que primeiro saiu com a notícia, encarregou-se de o fazer e disponibilizou o documento no seu site.

Entre os vários textos, o Eldiario.es destaca parágrafos completos retirados de um trabalho de Mónica Pérez, de 2004, publicado no portal de Comunicação e Informação da Mulher sobre El Patriarcado Mexico, uma organização da sociedade civil especializada em questão de igualdade de género ou direitos humanos no México.

Montón é o segundo membro do governo de Pedro Sánchez a demitir-se, depois de Máxim Huerta ter renunciado ao cargo de ministro da Cultura e do Desporto, em junho, apenas sete dias depois de ter sido nomeado pelo líder do PSOE. A demissão aconteceu depois de ter vindo a público, através do El Confidencial, que o ministro foi multado pelas Finanças depois de ter fugido ao fisco numa quantia de 218 mil euros.

A notícia acabaria aqui não fosse o aproveitamento político que os três principais partidos políticos de Espanha estão a tentar fazer do caso Montón, com acusações cruzadas, uns contra os outros. Usando, para isso, o mesmo tema.

Na sessão plenária do Parlamento espanhol, esta quarta-feira, o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, lançou dúvidas sobre a tese de doutoramento do primeiro-ministro Pedro Sánchez.

"Existem dúvidas razoáveis sobre a sua tese de doutoramento. Porque a oculta? Pelo bem da Universidade torne pública a sua sua tese de doutoramento e não vete a lei que torna obrigatória a sua publicação", declarou Rivera, perante os deputados.

A isto, Sánchez, no poder desde 2 de junho, quando derrubou Mariano Rajoy e o PP do poder através de uma moção de censura, respondeu que a sua tese de doutoramento "está publicada nos termos da lei em vigor". A tese, garantiu o chefe do governo espanhol, "está publicada. O senhor, que não prepara as perguntas que faz, é que diz que não".

Ou seja: a tese de doutoramento de Sánchez em Economia, apresentada, em 2012, na Universidade Camilo José Cela, está arquivada em papel, não em formato digital. Não pode, por isso, ser descarregada, fotocopiada ou fotografada.

Isso mesmo constatou a jornalista Elena G. Sevillano, do El País, que se deslocou à universidade para consultar a tese de Sánchez. Tem 324 páginas, sem contar com a parte da bibliografia, tendo como título "Inovações da diplomacia económica espanhola: Análise do setor público (2000-2012).

Porque não está a tese, relativamente recente, digitalizada, perguntou a jornalista à bibliotecária que a recebeu. "O autor é quem decide. É o que diz a norma em vigor". Segundo ela, de acordo com "a legislação vigente em termos de propriedade intelectual", não é possível reproduzir fotograficamente as páginas ou fazer uso do conteúdo da tese. Quem a consulta tem, por isso, que assinar um documento a declarar que não o fará, indo contra a norma.

Ao mesmo tempo que defende Sánchez, o PSOE aproveita para atacar o líder do PP, Pablo Casado. "O primeiro-ministro não tem nada a ocultar, é doutorado, tem a sua tese que, tal como todas as outras, está registada na universidade. O que o Ciudadanos fez hoje foi mais uma vez servir de muleta para o PP. Quem tem, atualmente, um problema real em cima da mesa é o senhor Pablo Casado", afirmou Adriana Lastra, porta-voz dos socialistas no Parlamento.

A também vice-secretária-geral do PSOE foi mais longe e pediu mesmo a demissão do sucessor de Rajoy. "Casado tem que apresentar a sua demissão. A demissão de Carmen Montón mostra a exigência técnica na nossa democracia. Esse é o caminho que tem que seguir Casado. Se não fosse deputado estaria acusado por causa do seu mestrado ou do seu não mestrado". A responsável sublinhou que Montón "não estava a ser investigada judicialmente e Casado está".

Casado, eleito líder do PP em julho, aguarda decisão do Supremo Tribunal para saber se é o não acusado de "prevaricação administrativa e suborno" no caso do seu mestrado.

Casado fez um mestrado em Direito Autonómico em 2008 e 2009 na Universidade Rei Juan Carlos, o mesmo que Cristina Cifuentes, que conseguiu o título sem ir às aulas e com várias equivalências e que, por causa do escândalo, foi obrigada a demitir-se da presidência do governo de Madrid.

Cifuentes não foi, contudo, caso único e há pelo menos três outras alunas a ser investigadas pela juíza Carmen Rodríguez-Mede do Supremo. Uma delas admitiu mesmo que não fez nada para ter o mestrado e que foi tudo combinado com o diretor do curso, Enrique Álvarez Conde.

O atual líder do PP conseguiu o mestrado de 22 cadeiras com 18 equivalências. Casado admitiu que não teve que ir às aulas e conseguiu os créditos restantes fazendo quatro trabalhos, que não foram encontrados na investigação interna que a universidade fez. Casado diz que fez o que Conde lhe pediu.

"Continuo muito tranquilo. Ouvi a senhora Montón dizer que nem todos os casos são iguais. Assim é de facto. No seu caso houve uma suposta falsificação de documento público", afirmou Casado, em sua defesa, esta quarta-feira.

"Penso que dez anos depois é muito difícil explicar a alunos que estão a fazer um mestrado por 10 mil euros em universidades privadas que eu paguei 600 euros por um curso com quatro trabalhos, mas qualquer um que sabe o que era tirar um curso antes de Bolonha e que não se pode fazer analogias", acrescentou, voltando a direcionar acusações ao PSOE.

No entender de Casado, aquilo que Sánchez e o PSOE pretendem é "desviar o foco do que se está a passar no governo, para aquilo que interessa menos e que é a oposição. Se falamos da tese de Sánchez, não estamos a falar da Catalunha, do desemprego..."

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