Corrida contra o tempo para salvar vítimas do Idai em Moçambique

Estão desaparecidos 30 portugueses na Beira, cidade que está isolada por via terrestre. Chuvas fortes e vento intenso dificultam as operações de resgate de sobreviventes.

As chuvas fortes e o vento intenso vão continuar até sexta-feira em toda a província de Sofala, onde se situa a Beira, e regiões adjacentes, dificultando as operações de busca e salvamento das vítimas do ciclone Idai, que provocou já 202 mortos e 1416 feridos em Moçambique, segundo o balanço mais recente Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) deste país.​​​

O Instituto Nacional de Meteorologia moçambicano adverte ainda para a possibilidade de formação de um sistema de baixas pressões, o que ocasionaria novas chuvas intensas.

Há um número indeterminado de desaparecidos, entre os quais 30 cidadãos de nacionalidade portuguesa na cidade da Beira, afirmou ao final da tarde desta quarta-feira o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, citado pela Lusa.

O acesso à Beira permanece intransitável por via terrestre devido ao nível das águas, só sendo possível a entrada por via marítima ou aérea. Na cidade não há água potável, não há eletricidade, começa a faltar comida e todos os outros produtos de primeira necessidade.

O Idai atingiu com particular violência a cidade da Beira, onde mais de 400 mil pessoas, numa população de 500 mil, ficaram desalojadas, e o distrito de Buzi, também na província de Sofala, onde mais de 200 mil habitantes viram destruídas as suas casas e muitos deles estão em locais isolados e em risco de vida devido ao elevado nível das águas.

Milhares de moçambicanos continuam sitiados nos tetos de suas casas e nas copas das árvores, aguardando a chegada de ajuda dos meios aéreos ou de equipas de nadadores-salvadores.

Segundo relatos de sobreviventes, algumas destas pessoas acabaram por desfalecer vítimas da fome, depois de terem estado isoladas, nalguns casos desde o fim de semana.

O país precisa de apoio financeiro, de assistência em termos de saúde, as escolas estão destruídas, não há comida e água, não há eletricidade

Para Machiel Pouw, diretor internacional da ONG Save the Children, a situação em Moçambique é extrema. O país "precisa de apoio financeiro, de assistência em termos de saúde, as escolas estão destruídas, não há comida e água, não há eletricidade", disse ao Plataforma. E se a situação na Beira é grave, muito mais grave é nas zonas rurais, em que aldeias inteiras ficaram submersas pelas águas e não se sabe qual o destino de muitos dos seus habitantes.

Para o responsável da Save the Children, "estamos só a ver o início desta tragédia, o pior ainda está para vir".

Uma primeira resposta das instituições internacionais veio já do Banco Mundial e da ONU, com o primeiro a disponibilizar uma verba de 90 milhões de dólares e a segunda 20 milhões.

A verba do Banco Mundial será canalizada para programas de apoio e ajuda às vítimas do ciclone enquanto o montante da ONU será empregue pelas agências humanitárias da organização que estão a atuar em Moçambique.

As condições meteorológicas constituem o principal desafio, como refere ao Plataforma Gert Verdonck, coordenador de emergência dos Médicos Sem Fronteiras na Beira. "Continua a chover forte", assegurando que "ainda vai demorar antes de a água das cheias começar a recuar". Por isso, afirma, "é difícil nesta fase ter uma ideia clara das necessidades médicas", explica Verdonck.

O nível da água ultrapassa os seis metros de altura, cobrindo localidades inteiras

Nalguns pontos das províncias mais afetadas, o nível da água ultrapassa os seis metros de altura, cobrindo localidades inteiras. Uma situação que se poderá agravar na província de Sofala se as barragens do vizinho Zimbabwe tiverem de proceder a descargas de emergência.

Segundo a UNICEF, só em Moçambique mais de 260 mil crianças encontram-se em situação de risco extremo, devido à falta de alimentos e à falta de condições sanitárias

Por seu turno, o INGC confirma o resgate de cerca de 40 mil pessoas em todo o país.

O rasto de destruição do Idai estendeu-se ao Zimbabwe e ao Malaui, havendo a registar 102 mortos e 200 feridos naquele primeiro país e 56 vítimas mortais no segundo.

O número de desaparecidos ultrapassa as 600 pessoas nestes dois países.

Em Moçambique, as províncias de Nampula, no norte, e Inhambane e Gaza, no sul, foram também severamente afetadas pelo mau tempo, estando este a atingir ainda a província de Maputo. Para a região da capital, preveem-se inundações devido à subida do nível de água das bacias hidrográficas.

A Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos (DNGRH) alertou para a ocorrência de inundações urbanas, nas próximas 48 horas, pelo menos, em 37 bairros das cidades de Maputo e da Matola.

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