Cimeira da NATO. O que está em discussão além do dinheiro

A discussão começou antes da cimeira, com as declarações de Trump. O orçamento da Aliança Atlântica ameaça dividir um bloco unido contra a Rússia

O tom da cimeira da NATO, que decorre em Bruxelas, foi dado em Washington, por Donald Trump, antes de sair da Casa Branca. "Temos a NATO, o Reino Unido e depois Putin. Com franqueza, Putin pode ser [o encontro] mais fácil de todos. Quem diria..."
Para compor o ramalhete, escreveu depois várias mensagens no Twitter, como esta: "Os países da NATO devem pagar mais, os Estados Unidos devem pagar menos. Muito injusto!"

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, respondeu também no Twitter: "Os EUA não têm nem vão ter um aliado melhor do que a União Europeia. Gastamos em defesa muito mais do que a Rússia e tanto quanto a China."

Para o clima ficar ainda mais tenso, já em Bruxelas, Trump acusou a Alemanha de estar refém da Rússia devido às importações de gás e ao gasoduto que vai ser construído no Mar Báltico.

A chanceler Angela Merkel não deixou o presidente norte-americano sem resposta, ao afirmar que a Alemanha "pode tomar decisões independentes".

Os gastos com a defesa e a repartição dos encargos estão no topo da agenda do primeiro dos dois dias da 29.ª cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

2% do PIB

Em 2014, no ano em que a Rússia anexou a Crimeia, os países da NATO concordaram em inverter a política de cortes orçamentais e começarem a aumentar o orçamento em defesa. Comprometeram-se em gastar 2% do PIB no espaço de uma década e há oito países que devem gastar já neste ano essa percentagem. Em 2014 só três países gastaram essa percentagem do produto.

O secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, elogiou os progressos dos aliados, não só no aumento dos gastos na defesa, mas também a investir em novos equipamentos. "Estimamos que os aliados europeus e o Canadá adicionem mais 266 mil mihões de dólares para a defesa entre agora e 2024", disse o norueguês.

As despesas militares norte-americanas, em 2018, representam, contudo, quase 70% dos gastos militares do conjunto dos 29 países da NATO.

Paradoxo da NATO

Este é o que a Reuters, após ouvir alguns diplomatas e quadros da organização de defesa, chama de "paradoxo da NATO": tem mais países a investir, está mais forte em termos militares do que alguma vez esteve durante a Guerra Fria e, no entanto, o presidente e comandante em chefe das forças armadas do aliado mais poderoso põe as fundações da Aliança em causa.

"Os aliados podem receber algumas críticas se estas vierem com um novo compromisso da garantia de segurança dos EUA, mas se Trump ameaçar retirar da NATO, então pode ficar muito complicado", disse um diplomata da Aliança à Reuters.

Alargamento e Quatro Trintas

Na agenda da cimeira há mais temas a discutir além do orçamento. Um deles não deverá dar lugar a controvérsias. O país oficialmente conhecido como antiga República Jugoslava da Macedónia, assim que adotar oficialmente o novo nome, República da Macedónia do Norte, será convidado a tornar-se no trigésimo membro da NATO.

Um alargamento nos Balcãs que não agrada a Moscovo. Prova disso é a expulsão de diplomatas russos por parte da Grécia. Atenas acusa os russos de tentarem minar o acordo entre a capital grega e a capital macedónia.

Foi também devido à ameaça russa que surgiu a ideia de fortalecer a capacidade de prontidão de resposta. Espera-se que os líderes aprovem um compromisso conhecido por Quatro Trintas a iniciar até 2020: 30 batalhões mecanizados, 30 esquadrões aéreos e 30 embarcações de combate prontos para entrar em atividade em 30 dias ou menos.

O papel da NATO na luta contra o terrorismo também deve ser intensificado. O Iraque é uma prioridade, com uma nova missão de treino no terreno e a criação de escolas militares.
No Médio Oriente e no norte de África, a NATO quer estreitar relações com a Tunísia e a Jordânia.

O Afeganistão mantém-se como prioridade. Espera-se que a presença dos militares da NATO naquele país asiático se prolongue para lá de 2020, e que os líderes expressem apoio à iniciativa de paz do presidente Ghani.

"A nossa presença no Afeganistão é vital para garantir que o país nunca mais se torne num refúgio seguro para o terrorismo internacional", disse o secretário-geral.

Guerra comercial

A visita de Donald Trump a Bruxelas não se limita à discussão com os parceiros europeus sobre os temas da Aliança Atlântica. O presidente dos EUA deu indicações de que quer abordar o tema das tarifas, uma guerra comercial iniciada pelo próprio.

Trump impôs tarifas sobre as exportações de aço e alumínio da UE e ameaça fazê-lo com os automóveis.

"Nós perdemos 151 mil milhões de dólares em comércio com a União Europeia", queixou-se num tuíte, em referência ao défice comercial dos EUA com a UE. Quer a UE, quer a administração norte-americana dizem que o valor é mais baixo.

Trump terá encontros bilaterais com outros líderes, como por exemplo Angela Merkel.

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