Ciclone Idai "já se inscreve na tendência global das alterações climáticas"

Moçambique é o terceiro país de África mais vulnerável a fenómenos extremos. O investigador Pedro Garrett diz que os ciclones mais intensos "são o resultado da emissão desproporcional de emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera".

É o pior ciclone tropical da última década, pelo menos, na região do sudoeste do Índico. O Idai, que deixou um rasto de mortes e destruição, cujo saldo final ainda não é conhecido, numa vasta região de Moçambique, do Malawi e do Zimbabwe, "já se inscreve na tendência global das alterações climáticas, em que se observa um aumento da frequência e da intensidade deste tipo de fenómenos", afirma ao DN Pedro Garrett, investigador do Programa Doutoral em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, coordenado na Universidade de Lisboa pelo especialista Filipe Duarte Santos.

"Não se pode atribuir nenhum eventos em específico às alterações climáticas, mas a análise dos dados históricos já indica que existe um aumento da frequência e da intensidade destes fenómenos [furacões e ciclones tropicais], que é consequência das alterações climáticas e, portanto, esta situação insere-se nesse quadro de alterações climáticas", explica o investigador.

"Estes ciclones mais intensos são o resultado da emissão desproporcional de gases de efeito estufa e das suas consequências na dinâmica energética do nosso planeta,", nota Pedro Garrett, sublinhando que "Moçambique, na linha da trajetória da maior parte dos ciclones que ocorrem naquela região do globo, já está a sofrer o seu impacto direto". E esta tendência, adianta, "vai aumentar nas próximas décadas", de acordo com os modelos climáticos.

Os ciclones que ocorrem nesta região do globo, onde se localiza Moçambique, e os mecanismos que estão na sua origem são bem conhecidos. Estão ligados à oscilação das águas quentes superficiais entre a região oeste da América do Sul e a costa sudeste de África, associada aos fenómenos El Niño e La Niña. Neste último caso, como está agora a acontecer, as águas quentes são arrastadas para a região sudoeste do Índico, junto a Madagáscar e à costa africana.

"Neste tipo de fenómenos [os ciclones] existe uma enorme descarga de energia dos oceanos para a atmosfera, que é libertada também sob a forma de vapor de água, que por sua vez alimenta estas tempestades", explica o investigador da Universidade de Lisboa, sublinhando que "a maior parte da energia do chamado efeito de estufa está a ser recebida e acumulada nos oceanos". É isso que depois alimenta as tempestades mais intensas com fenómenos extremos de precipitação e ventos mais fortes, e que "já se vê a acontecer".

"É expectável que as temporadas de ciclones nesta região se tornem mais intensas e mais frequentes nas próximas décadas", confirma Pedro Garrett.

A juntar a esta tendência, que torna Moçambique o terceiro país africano mais vulnerável a desastres relacionados com fenómenos meteorológicos extremos, de acordo o Global Facility for Disaster Reduction and Recovery (GFDRR), um grupo de trabalho ligado ao Banco Mundial e às Nações Unidas, as condições no terreno, com grandes índices de pobreza e desordenamento territorial, acabam por agravar ainda mais os impactos destes fenómenos climáticos extremos, como agora se viu.

Moçambique é um dos países africanos mais expostos a episódios meteorológicos extremos, potencialmente causadores de vítimas humanas e danos materiais avultados, incluindo os dois extremos que são as secas e inundações.

"Secas e inundações até podem ocorrer ao mesmo tempo em diferentes zonas do país, o que decorre também de um problema de gestão das bacias hidrográficas e da ocupação do solo", diz Pedro Garrett, notando que "a situação é ainda mais difícil no contexto do clima em mudança".

Furacões mais lentos e perigosos

Um estudo publicado no ano passado na Nature já tinha confirmado, justamente, que os furacões, os ciclones e as tempestades tropicais se tornaram nas últimas décadas mais intensos e perigosos.

A equipa de James Kossin, do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos, passou em revista os dados dos últimos 68 anos das tempestades tropicais ocorridas no mundo, entre 1949 e 2016, e identificou um padrão que tinha estado oculto: o de que elas estão, em média, 10% mais lentas. Depois de se formarem sobre os oceanos, a progressão destas tempestades através da atmosfera, e frequentemente sobre regiões densamente habitadas nos vários continentes, está atualmente a acontecer de forma mais vagarosa, o que significa que a quantidade de chuva que desaba sobre uma determinada zona tem estado a crescer, aumentando significativamente o risco de desastres naturais, como inundações ou deslizamentos de terras.

"Este abrandamento global em 10% [da velocidade a que furacões e tufões se deslocam] ocorreu ao longo de um período em que o planeta sofreu um aumento de temperatura de 0,5 graus Celsius", explicou na altura o autor do estudo.

Apesar de a média global do abrandamento ser de 10%, este varia conforme as regiões. Na do Índico, onde se localiza Moçambique, este abrandamento na passagem dos ciclones tropicais é da ordem dos 4%.

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