Num cenário em que a coligação Nova Maioria, atualmente no poder com Michelle Bachelet, aparece desfeita em várias candidaturas de esquerda, o caminho parece traçado para permitir o regresso da direita e de Sebastián Piñera ao Palácio de La Moneda. O ex-presidente, que esteve no poder entre 2010 e 2014, é o favorito à vitória, parecendo pouco provável que, mesmo se for necessária uma segunda volta a 17 de dezembro, a esquerda tenha capacidade de se unir em torno de um só candidato. Alejandro Guillier, ex-jornalista e senador há apenas quatro anos, que venceu as primárias da Nova Maioria, deve ser o adversário.."As forças de centro-esquerda e da esquerda estão muito divididas e a Nova Maioria quase não sobreviveu a estes quatro anos no governo. Será muito difícil que os diversos setores se ponham de acordo", disse ao DN o cientista político da Universidade do Chile, Robert Funk. Ao contrário do que aconteceu no final do primeiro mandato, entre 2006 e 2010, quando saiu com 80% de popularidade, Bachelet tinha em setembro apenas 34% de aprovação. Apesar das reformas profundas que empreendeu (laboral, tributária, educação e do sistema de pensões), a presidente ficou marcada pelo escândalo de corrupção que envolveu o filho e a nora, em 2015..Num país onde a reeleição imediata não é possível, Piñera surge com 44,4% das intenções de voto nas sondagens (Guillier tem 19,7%) e parece a caminho de repetir o feito de Bachelet, que voltou a ser eleita presidente em 2014, depois de ter precisamente passado a pasta ao ex-empresário em 2010. Mas este provável regresso responde a uma lógica distinta. "No caso de Bachelet, esteve sem dúvida ligada à popularidade que tinha quando deixou o poder em 2010 e que conseguiu manter durante os quatro anos que esteve fora, em grande medida porque optou por radicar-se em Nova Iorque e não se envolver na política doméstica", explicou Funk. Bachelet foi a primeira diretora do ONU Mulheres.."No caso de Piñera, o fator decisivo parece ser o desejo de que o governo se concentre em elementos fundamentais da economia como o crescimento", acrescentou o professor chileno. Piñera, que teve o pico de popularidade no final de 2010 com a libertação dos 33 mineiros que ficaram 70 dias presos a 720 metros de profundidade, acabou o mandato com 50% de aprovação..Mas Funk admite também uma "falta de renovação de lideranças" dentro das coligações tradicionais nesta alternância entre Bachelet e Piñera. O verdadeiro problema é outro: o Chile é uma das democracias com a menor participação eleitoral do mundo - ao contrário de outros países da América Latina o voto não é obrigatório. Nas eleições municipais de outubro de 2016, só 34% dos chilenos foram votar (nas últimas presidenciais, na segunda volta, votaram 42%). Estão inscritos 14,3 milhões de eleitores, sendo que 39 mil vão poder votar pela primeira vez desde o estrangeiro (86 estão recenseados em Lisboa).."Durante o regime militar, a política e a democracia foram menosprezadas pelo discurso oficial", lembrou o analista político chileno. "Com o regresso à democracia, houve um certo otimismo que levou toda uma geração a inscrever-se nos registos eleitorais e a votar. Mas estes ficaram estanques durante décadas", lembrou, falando de um eleitorado envelhecido. "Tivemos, além disso, um sistema eleitoral para as eleições parlamentares que distorcia o voto e a representação, de forma que alguns eleitores sentiam que o seu voto não fazia diferença", explica, acrescentando que os jovens também procuram outras formas de participação política..Uma das reformas de Bachelet foi a da lei eleitoral, que acaba com o bipartidarismo que permitia maiorias a favor de um sistema proporcional. Isso significa que o Parlamento e o Senado, que serão também eleitos hoje, vão ser muito diferentes. "Quem ganhar as presidenciais provavelmente não terá uma maioria no Congresso e terá de negociar voto a voto", avisou Funk. A única boa notícias, referiu, é que o ambiente económico internacional - referindo-se ao preço do cobre, principal exportação - aliviará as pressões. A queda no preço do cobre e o ressentimento do mercado com a reforma tributária de Bachelet fizeram que o PIB do Chile só tenha crescido 1,6% em 2016.