Daniel Hannan é um dos maiores defensores da saída do Reino Unido da UE, tendo chegado a ser apelidado pelo The Guardian de "o cérebro do Brexit"..Em entrevista ao DN, em Estrasburgo, o eurodeputado britânico do Partido Conservador não rejeita um cenário de permanência do país na UE se a única opção de saída que houver for o acordo do Brexit de Theresa May..O brexiteer, de 47 anos, considera que o documento fechado entre Londres e Bruxelas é como "deitar fora a chave da porta" pela qual os britânicos querem abandonar a União Europeia..Insinuando que Michel Barnier e os negociadores das restantes instituições da UE querem reverter o Brexit, o eurodeputado do partido liderado pela primeira-ministra Theresa May sublinha: "Se [a negociação] coubesse aos governos nacionais haveria uma atitude recíproca. Se não houvesse acordo, no caso da livre circulação ou no acesso a vistos, Portugal teria vias de acesso nos aeroportos para os visitantes britânicos. Isto faria sentido. Somos aliados há mais de 600 anos, muito antes de nos envolvermos com UE. Mas penso que Bruxelas quer que isto seja uma visível derrota.".O negociador para o Brexit de Theresa May disse nesta semana que os deputados britânicos têm de aprovar o acordo conseguido pela primeira-ministra ou haverá uma extensão do artigo 50.º. Parece-lhe que isto é um ultimato aos deputados britânicos?.Fizemos muitíssimos erros nos últimos dois anos e isso reduziu as nossas opções. A minha preferência, depois do Brexit, seria irmos para um acordo estilo suíço ou EFTA, o que resolveria muitos desses problemas. Se tivéssemos feito isso, a perspetiva seria muito mais positiva do que é hoje. Mas, tendo reduzido as nossas opções, com inúmeras decisões miseráveis, negociando com franqueza com parceiros que não estão interessados num bom resultado mútuo, mas que têm sido hostis, penso que as opções são agora um não acordo, o acordo da primeira-ministra ou a extensão. A pior de todas as opções é o acordo da primeira-ministra com o backstop tal como está..Então admite a extensão do artigo 50.º como um cenário possível?.Se priorizar as minhas preferências, no topo estará um acordo ao género do que há com a Suíça. Depois viria por aí abaixo com diversos géneros de acordos de comércio livre. E, mesmo no fundo da minha lista, estaria o No Deal Brexit, depois a hipótese de continuar na UE, depois aceitar a união aduaneira como país terceiro..Pode concretizar em que patamar de preferências colocaria o acordo de May?.Não se trata de uma questão entre deixar a União Europeia ou aceitar todas as obrigações sem qualquer influência, pois, assim, seria pior sair do que ficar..Admitiria a permanência, mesmo que seja no fundo das preferências? É a segunda na sua pior escala de prioridades....Sei que você adoraria que eu dissesse que preferia mais ficar do que sair. Mas isso está no fundo da minha lista de saídas possíveis. Preferia antes sair sem acordo do que aceitar outra coisa. Mas o acordo em cima da mesa, porque não garante a saída, é ainda pior do que continuar na União Europeia. Pelo menos, enquanto membro da UE há um entendimento claro sobre a retirada, de acordo com o artigo 50.º. No âmbito do backstop não há qualquer direito de retirada. Nós trocaríamos um lugar em que, pelo menos, temos a chave da porta por outro em que deitamos a chave fora? Então, claro que é ainda pior do que continuar na UE..Que expectativa tem sobre os desenvolvimentos nas próximas semanas?.Logicamente, o que deveria acontecer seria a substituição do backstop e o acordo sobre as outras partes. Porque se olharmos para isto, unicamente do ponto de vista lógico, e do interesse próprio de todos os países implicados, então a escolha é entre mudar o backstop e manter tudo o resto - o dinheiro [a pagar na fatura do Brexit], os direitos recíprocos dos cidadãos - ou perder o backstop, mas perder também tudo o resto. Logicamente, não deveria haver qualquer questão sobre isto. Mas, se você esteve neste edifício [Parlamento Europeu], terá visto que não é apenas o lógico que está em jogo. Existe também uma sensação de aborrecimento, de confronto e um elo emocional..Descreve o que pode ser interpretado como arrogância. Os líderes institucionais estão a agir com algum tipo de arrogância, no diálogo com o Reino Unido?.Se é tecnicamente possível, sim. É uma ideia terrível. Mas há obviamente pessoas a tentar reverter o Brexit, claro..No Parlamento Europeu há duas correntes de opinião sobre isso. Acredita que haverá entraves à realização de eleições europeias no Reino Unido?.Não me cabe a mim responder a isso. Uma coisa de que posso falar é sobre o nosso interesse, porque não quero que haja uma extensão. É claro para mim. Preferiria antes sair sem acordo do que ter essa extensão..Vê um novo referendo como um desfecho possível para quebrar o impasse?.Se considero como uma possibilidade, OK... Também é possível que caia neve amanhã, mas não está nas minhas capacidades fazer nevar ou não nevar. Há um grupo no Reino Unido que quer impor uma reviravolta nos resultados. Eles nunca vão aceitar a legitimidade desses resultados. Esse grupo pode até ter a maioria na Câmara dos Comuns. Quando eles decidiram perguntar ao país se deviam permanecer na UE, nunca lhes ocorreu que o país poderia responder que se calhar não quereria. E, durante os últimos dois anos e meio, os nossos políticos têm tentado inverter o resultado. É tão simples quanto isto..Voltando à questão da linguagem utilizada no bloco europeu, há uma frase que o presidente Donald Tusk repete, quando diz que o Brexit é um jogo em que todos perdem. Pelo que descreveu, parece que tende a concordar..Eles estão determinados a que seja assim. Não tem de ser. Não vejo qualquer razão para que a Grã-Bretanha não possa, por uma via amigável, perder os seus laços políticos coma UE, enquanto mantém o vínculo ao mercado [único]. Penso que era isso de que a maioria das pessoas estava à espera. Somos amigos de longa data. Claro que nós [Portugal e o Reino Unido] somos os mais velhos amigos do mundo. Mas mesmo os outros são bons amigos, mesmo que não tenham 600 e tal anos de aliança connosco. Claro que não queremos viver de uma forma que cause uma crise na zona euro ou conduza a insegurança nas fronteiras a leste. Apesar do referendo, continuamos comprometidos com o sucesso da Europa. Queremos ter vizinhos ricos, claro, para serem bons clientes. A todos os níveis, queremos que os europeus continuem prósperos. Se [a negociação] coubesse aos governos nacionais, haveria uma atitude recíproca. Se não houvesse acordo, no caso da livre circulação ou no acesso a vistos, Portugal teria vias de acesso nos aeroportos para os britânicos. Isto faria sentido. Somos aliados há mais de 600 anos, muito antes de nos envolvermos com UE. Mas penso que Bruxelas quer que isto seja uma visível derrota. Havia uma citação muito interessante, do Michel Barnier, há dois meses, no Le Point, em que ele dizia: "Eu irei concluir o meu trabalho. Se no final do processo os termos da saída forem maus, os britânicos irão ficar." É por isso que este impasse existe..É algo que depende da forma como se conduzem as negociações?.Não acredito que seja fácil conseguir um acordo fechado, se não houver boa vontade de ambos os lados. Nós entrámos nas negociações com vista a um resultado em que todos ganham. Como é que preservamos as boas apostas do projeto europeu, ao mesmo tempo que honramos o resultado do referendo? Não penso que isto seja recíproco, da parte dos burocratas.