CDU de Merkel sob ataque duplo da direita: da Liga de Salvini à CSU de Weber

Fragilizada por causa da política migratória e pela ascensão da extrema-direita, a chanceler pode ver o seu partido perder força na Europa.

A CDU da chanceler alemã Angela Merkel está sob ataque duplo da direita na Europa. Por um lado, dos seus próprios aliados bávaros, que em casa a forçaram a abandonar a política de portas abertas para com os migrantes, e na União Europeia esperam ganhar mais destaque, estando na calha para assumir a presidência da Comissão Europeia com Manfred Weber. Por outro, a CDU arrisca perder a bandeira de maior partido no Parlamento Europeu para a italiana Liga, de Matteo Salvini, que, segundo uma sondagem, pode estar a apenas um eurodeputado de os ultrapassar.

A União Democrática Cristã (CDU) tem atualmente 34 eurodeputados. Mas, segundo uma sondagem feita em seis países, publicada em vários jornais, incluindo no El Mundo, a CDU e a sua aliada bávara da CSU (que atualmente tem oito eurodeputados) podem só eleger 29 representantes.

O partido de extrema-direita de Salvini não perdeu força apesar da coligação governamental com a esquerda eurocética do Movimento 5 Estrelas, de Luigi di Maio. Segundo as sondagens, deverá ser o partido mais votado pelos italianos, conquistando 33,4% dos votos e elegendo 28 eurodeputados - atualmente tem seis -, frente aos 22,1% e 19 representantes do 5 Estrelas.

Com este resultado e com base na sondagem europeia, a Liga fica a apenas um deputado da aliança CDU-CSU. Salvini tem dito que estas eleições europeias vão significar a "mudança" da Europa.

A perda de poder dos partidos tradicionais que se verifica já a nível nacional, com Parlamentos cada vez mais fracionados, deverá repetir-se agora a nível europeu.

Perda de maioria

A sondagem europeia confirma que o Partido Popular Europeu (PPE) seria a força mais votada, com 174 lugares, seguida da Aliança Progressista de Socialistas e Democratas (S&D), com 141. Os dois representantes dos partidos tradicionais perdem, nestas previsões, cerca de 40 lugares - e a maioria que detinham desde as primeiras eleições europeias, em 1979. Em conjunto, tinham 404 representantes em 751 lugares (750 eurodeputados mais o presidente), devendo agora ficar com 315 em 705 (a redução prende-se com o Brexit). Como candidato do grupo mais votado, Weber teria o caminho aberto para suceder a Jean-Claude Juncker, se conseguir fazer uma aliança nesse sentido.

Quem ganha, segundo esta sondagem, são os liberais do ALDE, que aparecem com 101 eurodeputados, podendo ser chave para a governabilidade - a atual comissão une PPE, S&D e ALDE. Devem contar com os eleitos pelo La République en Marche, do presidente francês Emmanuel Macron, que deve estrear-se com 22 eurodeputados. Os Verdes, que devem eleger 44 representantes, podem também juntar-se para reforçar a aliança pró-europeia, face à eurocética.

A extrema-direita eurocética da Europa das Nações e Liberdade (onde está a Liga, mas também a Reunião Nacional francesa de Marine Le Pen, que sozinha deve eleger 22) subirá dos atuais 28 eurodeputados para os 67, ultrapassando a Esquerda Unitária e os Conservadores e Reformistas (ambos com 51). A Europa da Liberdade e da Democracia Direta, que inclui o outro partido no poder em Itália (o Movimento 5 Estrelas), elegerá 42, segundo esta sondagem.

"Lame-duck" Merkel

A expressão '"lame-duck", literalmente pato coxo em inglês, é usada nos EUA para referir um político (incluindo o presidente) que ainda está em funções quando o sucessor já foi eleito. O ainda titular do cargo é visto como tendo menos influência, já que o seu tempo está contado.

Após 14 anos como chanceler alemã, Merkel comporta-se neste momento como uma "lame-duck" - em dezembro abdicou da liderança da CDU (foi eleita Annegret Kramp-Karrenbauer para a substituir), mas indicou que pretende continuar a liderar os destinos do país até às legislativas do outono de 2021. Uma prova da fragilidade de Merkel foi o facto de Macron ter apresentado a sua proposta para o renascimento da União Europeia sozinho, mostrando que já não pode contar com o eixo franco-alemão.

Mais grave para Merkel é que também não se sabe se o seu governo vai aguentar até ao final da legislatura. Os parceiros de coligação (os sociais-democratas do SPD) também estão fragilizados por terem aceitado a aliança com a CDU, havendo algumas sondagens internas que os colocam atrás até dos Verdes (na sondagem para as europeias do El Mundo conseguem apenas mais um ponto percentual).

Com o resultado das europeias, assim como das regionais em Bremen no final de maio e noutras regiões no outono, há já quem aposte numas eleições gerais. Segundo o Politico, para alguns analistas "o colapso do governo é mais uma questão de 'quando' do que de 'se' [irá acontecer]".

A tensão entre SPD e CDU é palpável, com os primeiros à procura das suas raízes socialistas e os segundos a avisar que não passam de "fantasias". O ministro das Finanças alemão, Olaf Scholz, que é o vice-presidente do SPD, defende que os gastos sociais devem ser prioritários, mas o secretário-geral da CDU, Paul Ziemiak, avisou numa entrevista que o partido não aceitará cortes noutras áreas, como segurança.

CSU à conquista da Europa

Mas não é só o parceiro de coligação que representa uma dor de cabeça para a CDU: o partido irmão bávaro da CSU também tem vindo a mostrar as suas garras e prepara-se para assumir o executivo europeu.

Diante da subida da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), a CSU então liderada pelo ministro do Interior Horst Seehofer ameaçou deixar cair Merkel, caso esta não recuasse na sua política de portas abertas à imigração.

Agora, o partido promete ser o "partido das pessoas", fazendo campanha para que o seu vice-presidente Manfred Weber seja eleito presidente da Comissão Europeia depois das eleições de maio.

Weber, que está no Parlamento Europeu desde 2004 e é líder do Partido Popular Europeu (PPE), é o candidato a suceder a Jean-Claude Juncker e faz campanha apresentando-se como um homem de compromisso, capaz de construir pontes e de lutar contra o populismo. "A política precisa de ser moldada do centro. Não da esquerda, nem da extrema-direita", afirmou num evento na sua Bavária natal, no último fim de semana.

Para o provar (e calar os críticos que o acusam de não ter carisma nem currículo), Weber está lançado numa luta interna contra o Fidész do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán. Membro do PPE, o partido húngaro está debaixo de fogo por causa da campanha anti-imigração e dos ataques contra Jean-Claude Junker, o atual presidente da Comissão, sendo alvo de um ultimato.

Weber estabeleceu três condições para permitir que o Fidész continue no PPE (o tema será discutido no dia 20): acabar com as campanhas anti-Bruxelas do seu governo, pedir desculpas aos outros membros do PPE e garantir a existência da Universidade Central Europeia em Budapeste.

Orbán não parece disposto a ceder ao ultimato - ontem, num site do governo húngaro, defendeu que a União Europeia pode acabar se uma parte forçar a outra a aceitar políticas pró-imigração -, havendo quem diga que poderá ser ele próprio a romper com o PPE.

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