Caracas sai à rua para apoiar Maduro. Mas afinal, houve ou não atentado?

Falta de confiança nas autoridades venezuelanas deixa no ar muitas questões sobre o que aconteceu no sábado na Avenida Bolívar. As várias versões, as dúvidas e as certezas

Centenas de apoiantes de Nicolás Maduro saíram hoje às ruas de Caracas para mostrar o apoio ao presidente venezuelano, dois dias depois de as autoridades denunciarem um atentado contra a sua vida durante um discurso por ocasião do 81.º aniversário da Guarda Nacional Bolivariana.

"Nós, os trabalhadores, estamos aqui para apoiar o presidente Maduro. Nada como aquilo alguma vez aconteceu antes em direto na televisão, não há justificação para este ataque contra o presidente", disse Melanie Diaz, de 40 anos, que trabalha no Ministério da Alimentação, citada pela Reuters.

Mas há quem duvide da versão oficial dos factos. Será que houve mesmo atentado? Poderá estar o governo por detrás dos acontecimentos?

A versão oficial

O ministro da Comunicação e Informação da Venezuela, Jorge Rodríguez, foi o primeiro a dar a versão oficial dos factos. Disse que houve um "atentado" contra o presidente Maduro, que saiu ileso, e explicou que tinham sido usados drones. Falou ainda em sete feridos entre os efetivos da Guarda Nacional Bolivariana, mas houve quem desconfiasse porque só se viu a imagem de uma pessoa ferida na cabeça.

Já no domingo, Rodríguez falou em três explosões. "Uma explosão é um drone frente à tribuna presidencial, outro drone estava numa esquina de Caracas, chamada a esquina Curamichate, foi isso que gerou que um setor dos familiares dos efetivos que estavam na parada saíssem a correr para a esquerda, e um terceiro drone explodiu nas imediações de um edifício, a sul da tribuna", afirmou.

Por seu lado, o ministro do Interior, Justiça e Paz, Néstor Reverol, voltou a falar só em dois drones tipo M-600, carregados com um quilo de explosivos C4 cada um. "Uma das aeronaves sobrevoou a tribuna presidencial com o fim de ativar à distância a substância explosiva, mas graças às técnicas da Guarda de Honra Presidencial e a instalação de equipamentos bloqueadores de sinal, conseguiu-se desorientar o drone", afirmou. O outro "perdeu o controlo e caiu num edifício próximo à avenida Bolívar". Falou ainda num "crime de terrorismo e magnicídio".

O que disse Maduro?

O presidente falou ao país poucas horas após o ataque, desde o palácio de Miraflores. Acusou então a "extrema-direita venezuelana" com ligação à "extrema-direita colombiana" de estar por detrás da tentativa de atentado, apontando diretamente o dedo ao presidente colombiano Juan Manuel Santos (que esta terça-feira passa o poder a Iván Duque).

Não é a primeira vez que Maduro acusa a Colômbia de estar por detrás de um atentado contra a sua vida, mas nunca apresentou provas dessas acusações. E, mesmo agora, com o evento transmitido em direto, há quem duvide da versão oficial.

O governo colombiano rejeitou qualquer responsabilidade e Santos respondeu ontem diretamente às acusações de Maduro, através do Twitter. "Não se preocupe. No sábado, estava a fazer coisas mais importantes, a batizar a minha neta Celeste."

Maduro também disse esperar que os EUA colaborem na investigação, alegando que vários autores morais do ataque, assim como financiadores, vivem na Florida. O conselheiro para a Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, foi claro: "Posso dizer categoricamente que não houve qualquer participação do governo norte-americano" no ataque, declarou à televisão Fox.

"Não haverá perdão. Vamos persegui-los e vamos capturá-los", disse o presidente Maduro em relação aos responsáveis.

A reivindicação

O ataque com drones foi reivindicado no Twitter pelo Movimento Nacional Soldados de Franelas. Esta palavra significa T-shirt ou roupa interior de algodão, sendo a expressão usada para denomina os militares de hierarquia mais baixa. A página do Twitter existe desde 2014 e num vídeo de maio de 2017 dizem ser "rebeldes mas com causa, liberdade".

"O tempo esgotou-se", diziam as primeiras mensagens após o atentado. "A operação era fazer sobrevoar dois drones carregados com C4 e o objetivo o palco presidencial. Atiradores furtivos derrubaram os drones antes de chegarem ao objetivo. Demonstramos que são vulneráveis, não se conseguiu hoje, mas é uma questão de tempo", escreveram.

Os militares, através do ministro da Defesa Vladimir Padrino López, saíram em apoio do presidente. "Nenhum governo que procure instalar-se por vias não democráticas contará com o apoio da FANB [Forças Armadas Nacionais Bolivarianas]", disse.

Mas foram mesmo drones?

A agência de notícias norte-americana Associated Press citou três bombeiros que indicaram que a explosão teria sido de gás e não haveria qualquer drone envolvido. E havia o relato de testemunhas que diziam não ter visto drone nenhum.

Entretanto, foram publicados vídeos nas redes sociais que mostram esses aparelhos, incluindo um que explode no ar e outro que vai de encontro a um prédio (onde se deu depois a outra explosão).

Seis detenções

No domingo, as autoridades venezuelanas anunciaram a detenção de seis pessoas ligadas ao atentado. Ontem o procurador geral Tarek William Saab revelou que duas pessoas foram apanhadas em flagrante, já que operavam um dos drones (o que embateu contra o prédio) desde um veículo e foram identificadas por testemunhas.

Saab indicou ainda que já foram identificados os explosivos e estabelecidas "as primeiras ligações internacionais dessas pessoas". O ataque de sábado estará relacionado à investigação de um outro atentado, de há um ano, revelou.

Em causa o ataque ao forte militar de Paramacay, a 6 de agosto, no qual foram roubadas armas. Dois dos líderes do ataque foram mortos dias depois, na operação para deter a todos. Este ataque foi reivindicado pelo polícia Óscar Pérez, responsável pelo ataque com granadas, lançadas a partir de um helicóptero, contra o Supremo Tribunal de Justiça, seis meses antes. Pérez foi morto em janeiro, numa operação para o deter.

Além disso, estão a ser procuradas outras sete pessoas, segundo informou o próprio Movimento Nacional Soldados de Franelas no Twitter, falando em "sete jovens totalmente inocentes que estão a ser vítimas de perseguição pelo regime narcoterrorista genocida e seus lacaios".

Quem duvida do atentado?

A oposição venezuelana, que Maduro acusa de estar por detrás do atentado, é a primeira a pôr em causa esse cenário. "Existem sérias dúvidas sobre a versão oficial do que aconteceu. Os democratas, a comunidade internacional e os governos democráticos do mundo devemos estar alerta face à perseguição contra opositores. Exigimos uma investigação séria independente", escreve o deputado Carlos Valero, do partido Um Novo Tempo.

A Frente Amplio, que reúne vários partidos da oposição, falou de um "evento irregular", dizendo que falta ver se foi "atentado, um acidente fortuito ou algumas das outras versões que circulam pelas redes sociais". E lembrando que Maduro, sem provas, apressou-se a acusar a oposição: "Isto é, todos os venezuelanos que nos opomos e criticamos a gestão do seu governo."

A primeira reação de Luis Vicente León, presidente da Datanálisis e crítico do governo, foi não comentar sem saber mais pormenores. "É difícil separar o ruído dos sinais. É comum quando os interlocutores mentiram tanto que a sua informação não faz parte das peças que se reveem para tirar conclusões válidas", escreveu no Twitter. Já ontem, acrescentou: "Atentado, possível atentado, falso atentado, auto atentado, passado atentado, futuro atentado, potencial atentado. É igual. Rejeito todos, seja ou não popular fazê-lo", lembrando que "apoiar este tipo de ação violenta só nos levará a caminhos sangrentos, instáveis e incertos".

"Com o objetivo de reduzir a atenção sobre os problemas internos e a pressão internacional, um atentado falhado resulta tão conveniente para o regime que se não existisse teria que o inventar", escreveu no Twitter o analista político venezuelano, Benigno Alarcón.

O diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello alertou ainda para as consequências do que aconteceu. "O transcendente são as ações que se justificarão posteriormente. Montagem ou não, vêm as investigações, detenções, repressão e possivelmente a paralisia de uma parte da liderança opositora, com o que o regime procurará fazer xeque num tabuleiro onde restam poucas peças".

Media afastados

Há outra questão que põe em causa a teoria oficial. O facto de 11 jornalistas independentes terem sido afastados do local e detidos arbitrariamente "sendo ameaçados e obrigando-os a apagar o material gravado durante a cobertura dos factos", denunciou o líder do Colégio Nacional de Jornalistas, Edgar Cárdenas.

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