Brexit: Eurocéticos conservadores divididos sobre próximos passos

Boris Johnson quer que May tente no Conselho Europeu desta semana alterações ao backstop. Já Jacob Rees-Mogg admite votar no acordo da primeira-ministra se a hipótese de sair sem acordo estiver fora da mesa.

O Brexit divide os eurocéticos conservadores, que votaram contra o acordo de saída negociado por Theresa May e a União Europeia em duas ocasiões. Diante da hipótese de um terceiro voto vinculativo, as posições dentro do Partido Conservador da primeira-ministra dividem-se, enquanto May procura também o aval dos unionistas da Irlanda do Norte (DUP).

O ex-chefe da diplomacia e um dos principais rostos do Brexit, Boris Johnson, defende que a primeira-ministra britânica deve tentar negociar alterações ao backstop [o mecanismo de salvaguarda para evitar uma fronteira física entre Irlanda do Norte e República da Irlanda] no Conselho Europeu de quinta-feira. Por seu lado, Jacob Rees-Mogg, o líder do European Research Group (ERG) que reúne 80 conservadores eurocéticos, admite que poderá votar no acordo de May se o DUP tiver sido convencido e se concluir que a hipótese de uma saída sem acordo já não é uma alternativa.

"Há um Conselho Europeu esta semana. Não é tarde demais para conseguir uma mudança real na solução de último recurso [backstop]. Seria absurdo realizar a votação antes mesmo de ter sido tentada", defendeu esta segunda-feira Boris Johnson, na coluna semanal publicada no diário The Daily Telegraph.

Segundo Johnson, o backstop "dá à UE uma forma ilimitada de chantagem, para que possam manter-nos trancados na união aduaneira e em grandes partes do mercado único, a menos que estejamos dispostos a abandonar a Irlanda do Norte; e eles vão usar essa chantagem para ganhar vantagem durante as negociações, principalmente sobre a livre circulação de pessoas".

Já Rees-Mogg, em entrevista à rádio LBC, disse que está à espera do que o DUP vai fazer. "O acordo ainda é um muito mau acordo. Não responde às promessas do manifesto do Partido Conservador e não responde totalmente ao resultado do referendo", afirmou. "Se pudermos antes ter a hipótese de uma saída sem acordo, isso é uma melhor opção. Significa que vamos sair e que vamos ter restaurado a independência da nossa nação", acrescentou, dizendo contudo temer que a primeira-ministra afaste essa hipótese.

"Um não-acordo é melhor do que um mau acordo, mas um mau acordo é melhor do que ficar na União Europeia na hierarquia dos acordos", afirmou Rees-Mogg. "Uma extensão de dois anos é basicamente ficar na União Europeia", referiu, falando na hipótese de May ter que pedir uma extensão do prazo de saída do Artigo 50.

Entretanto, 23 deputados conservadores defensores do Brexit rejeitam esta ideia de que o acordo de May é melhor do que nada. Numa carta publicada no Daily Telegraph, dizem que não vão votar no acordo, preferindo que o Reino Unido saia da União Europeia sem acordo, considerando que isso é o caminho para "um acordo muito bom". E alegam: "Não foi por nossa culpa que estamos confrontados por duas escolhas inaceitáveis, mas será culpa nossa se votarmos a favor de um por medo de outro", indicam, referindo-se ao acordo de May e a um não-acordo. Mas não dizem qual é a alternativa, parecendo acreditar que se o acordo de May voltar a falhar, o Reino Unido sairá como previsto a 29 de março, apesar de os deputados terem rejeitado isso na semana passada.

Em declarações à BBC, o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Jeremy Hunt, disse que o governo espera poder realizar o terceiro voto significativo, isto é, vinculativo, na terça-feira devido aos "sinais prudentes de encorajamento". Mas acrescentou: "Esperamos que sim, mas precisamos de garantir que temos os números [suficientes]. É por isso que está a decorrer imenso trabalho com colegas, com o DUP e com todas as partes do partido Conservador."

Já no briefing diário de Downing Street, o porta-voz de May disse que a primeira-ministra não avançará para um terceiro voto se não tiver "a perspetiva realística" de vencer. O acordo foi rejeitado na terça-feira passada por uma diferença de 149 votos, tendo uma primeira versão sido rejeitada em janeiro por 230 votos.

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