Lula vai entregar-se. "Já não sou um homem, sou uma ideia"

"Eu vou continuar a ser criminoso neste país... não desisto deste sonho de ter um país com futuro". Lula nega crimes e denuncia perseguição política e judicial.

Lula da Silva saiu hoje da sede do sindicato metalúrgico onde permanecia desde quinta-feira, depois de ser decretada a sua prisão, para participar numa missa em memória da sua mulher.

Depois da cerimónia, Lula da Silva cumprimentou, um a um, todos aqueles que o acompanharam ao longo dos últimos anos no Sindicato dos Metalúrgicos e no PT. E recordou várias histórias desses tempos.

Depois dos elogios vieram as criticas. Lula arrasou a acusação, as televisões - em particular a Globo - e jornais que o "condenam", os magistrados envolvidos no seu processos e rematou: "Eu não tenho medo deles".

"Sou um construtor de sonhos", afirmou perante as centenas de pessoas que nunca pararam de o aplaudir. "Qual foi o crime que cometi?", questionou Lula da Silva. E de imediato deu a resposta: "Eu apenas sonhei um futuro para o meu país", gritou.

E se é esse o "crime"... prometeu: "eu vou continuar a ser criminoso neste país... não desisto deste sonho".

Eu fico imaginando a tesão da Veja e Globo vendo a fotografia da minha prisão. Vão ter um orgasmo múltiplo

Lula confirmou que vai entregar-se. Porque há "milhões e milhões de Lulas por ai". "Eu sou uma ideia", afirmou. E as ideias não se "travam".

O ex-Presidente do Brasil, Lula da Silva, disse que vai respeitar a ordem de prisão decretada pela justiça brasileira, que o condenou a 12 anos de cadeia por corrupção.

Eu vou atender o mandado deles. (...) Eu vou cumprir o mandado e todos vocês daqui para frente vão virar Lula. A morte de um combatente não para a revolução" disse Lula da Silva, num discurso perante apoiantes seus em São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo, nas imediações do edifício do Sindicato dos Metalúrgicos, em que reafirmou a sua inocência.

Lula da Silva está em São Bernardo do Campo, no edifício do Sindicato dos Metalúrgicos, desde quinta-feira, após ter sido decretada a sua prisão, pelo juiz Sérgio Moro, responsável pela operação Lava Jato

O ex-Presidente brasileiro foi condenado em duas instâncias da Justiça num processo da Operação Lava Jato em que foi acusado de receber um apartamento de luxo da construtora OAS em troca de favorecer os contratos da empresa com a estatal brasileira Petrobras.

"Não pensem que eu sou contra a Lava Jato, não... a Lava Jato, se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo que roubou, e prender. Todos nós queremos isso", disse Lula da Silva, que desafiou Sérgio Moro a apresentar "alguma prova" dos crimes pelos quais condenou o ex-Presidente do Brasil.

"Eu não estou acima da justiça, se eu não acreditasse da justiça, eu não teria feito um partido político, teria proposto revolução, acredito na justiça, mas na Justiça justa, baseada nas acusações, na prova concreta", disse, acrescentando que "quem quiser votar com base na opinião pública largue a toga e vá ser candidato a deputado; escolha um partido político e vá ser candidato".

Lula da Silva anunciou que iria terminar o discurso citando uma frase que ouviu de uma criança de 10 anos. "Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera".

Mas não conseguiu. Chorou, foi abraçado por todos os que estavam no palco e levado em ombros pela multidão.

"Eu sou Lula", gritaram os apoiantes. "Vamos todos a Curitiba", prometeram os dirigentes do PT.

Juiz Sergio Moro diz que não tinha razões para adiar ordem de prisão de Lula

O juiz federal brasileiro Sergio Moro, que condenou o ex-Presidente Lula da Silva por corrupção e lavagem de dinheiro, afirmou não ter razões para adiar a ordem de prisão do antigo chefe de Estado.

Lula da Silva "foi condenado por lavagem de dinheiro e corrupção. É preciso executar a sentença. É muito simples. Não vejo nenhuma razão específica para a adiar mais", frisou o magistrado.

O juiz da 13.ª Vara da Justiça Federal de Curitiba falava em entrevista à estação de televisão chinesa CGTN, reproduzida hoje pela imprensa brasileira e citada pela agência de notícias espanhola EFE.

Sergio Moro disse ter recebido o memorando do tribunal de segunda instância que ordenou a prisão do antigo chefe de Estado e que "simplesmente o cumpriu", frisando que "não tinha outra opção a não ser cumprir a ordem".

Na entrevista, o magistrado referiu que não se sente "muito confortável" ao ter de responder a perguntas específicas sobre a condenação de Lula da Silva.

O caso

Lula foi condenado inicialmente por Moro em julho de 2017 a nove anos e seis meses por posse de um apartamento tríplex no Guarujá, no litoral de São Paulo, supostamente oferecido pela OAS, beneficiária no escândalo da Petrobras. Recorreu e viu agravada a pena em segunda instância para 12 anos e um mês. No STJ voltou a ser derrotado para, quarta-feira, ver indeferido um habeas corpus no STF, que precipitou a sua prisão. Lula é réu em mais seis ações, quatro delas no âmbito da Lava-Jato, ou seja sob a alçada de Moro. Apesar de histórica, a decisão de Moro não é inédita: no Brasil já quatro ex-presidentes, Hermes da Fonseca (1922), Washington Luiz (1930), Artur Bernardes (1932 e 1939) e Juscelino Kubitschek (1968), foram detidos

O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) do Brasil rejeitou na sexta-feira um segundo pedido de 'habeas corpus', apresentado pelos advogados de defesa do ex-Presidente.

Na madrugada de quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) tinha já negado um 'habeas corpus' também apresentado pela defesa de Lula da Silva, que visava evitar a sua prisão antes de se esgotarem os recursos na Justiça.

Anteriormente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) já havia também negado um 'habeas corpus' preventivo a Lula da Silva, condenado a 12 anos de prisão e um mês por corrupção passiva e branqueamento de capitais.

Na sequência da decisão do STF, o juiz federal Sérgio Moro decretou a prisão de Lula da Silva e deu como prazo as 17:00 de sexta-feira (horário de Brasília, 21:00 em Lisboa), para o ex-Presidente brasileiro se apresentar voluntariamente à Polícia Federal na cidade de Curitiba, no Estado do Paraná, sul do Brasil.

A cela de Lula

cela à espera de Lula é uma sala no quarto andar da sede da polícia federal de Curitiba, inaugurada pelo próprio futuro detido em 2017, de 15 metros quadrados, duas janelas, casa de banho privativa, cama de solteiro, um armário e uma mesa. O antigo presidente terá direito a duas horas de banho de sol diárias em horários alternativos aos dos outros presos no local porque entre esses presos estão dois ex-amigos íntimos de Lula, hoje seus inimigos por o terem delatado: Léo Pinheiro, o presidente da OAS, a construtora que terá oferecido o tríplex a Lula, e Antonio Palocci, braço direito para a área económica do antigo presidente durante os seus mandatos.

Luiz Inácio Lula da Silva, 72 anos, foi o 35.º Presidente do Brasil (2003-2011)

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