"Brasil foi um enorme laboratório no uso maciço de fake news para a manipulação do processo eleitoral"

Jornalista luso-brasileira Gisele Lobato nota que esta "nova forma de populismo" já se vê em Portugal. "Há uma convergência entre o vocabulário utilizado nas redes sociais portuguesas com aquele que se disseminou no Brasil".

Gisele Lobato é uma jornalista luso-brasileira, que trabalhou no Grupo Folha, onde foi editora-assistente de economia do jornal Agora São Paulo, e na Agência Lusa, da que foi correspondente em São Paulo em 2011. Mudou-se para Lisboa em 2013, continuando no jornalismo como freelancer, tendo colaborado com vários títulos, como o Público e a revista Piauí. É mestre em Estudos Africanos pelo ISCTE-IUL e, atualmente, frequenta o Programa Interuniversitário de Doutoramento em História. A sua investigação académica aborda as relações entre a ditadura brasileira, o Estado Novo português e o apartheid sul-africano, durante a Guerra Fria.

Nesta entrevista ao DN, fala-nos das semelhanças que já são visíveis entre a forma de debater política, em Portugal e no Brasil. "Nota-se nas redes sociais aqui cada vez mais discurso de ódio contra ciganos, negros, muçulmanos e estrangeiros em geral. Já também se vê ataques a feministas ou às esquerdas."

Como jornalista, que tem vivido entre Portugal e o Brasil, encontra alguma semelhança na forma como se discute política?

Venho para Portugal desde muito nova, porque meu pai é português e tenho cidadania. No convívio com a família do campo, gente simples, sempre me chamou a atenção que temas relacionados à política frequentemente vinham à mesa. Não me refiro apenas a "falar de políticos", mas sim a "falar de política". Sempre me pareceu que havia ali uma consciência maior sobre o funcionamento do processo.

Falar de política não era tão comum há uns anos no Brasil e sinto que isso começou a mudar após os protestos de 2013. Mas somos uma democracia jovem. Quando eu nasci, isso ainda era complicado, por causa da ditadura, e a redemocratização foi feita com muito menos envolvimento popular do que o 25 de Abril. Tanto é que uma pesquisa recente mostrou que 8 em cada 10 brasileiros não sabem o que foi a ditadura. Não se pode atribuir isso apenas à escolarização, já que muitas pessoas viveram esse período.

No entanto, mudar para Lisboa abalou um pouco a convicção de que na Europa mesmo pessoas com menos instrução tinham mais acesso a informações de qualidade. Eu não sei se é um fenómeno recente, mas noto isso, sobretudo, entre os mais jovens. Já me vi em uma mesa de café no centro de Lisboa a ouvir acaloradas discussões do tipo "a terra é plana".

O maior convívio também me mostrou algumas nuances. Se, por um lado, poderia afirmar com alguma segurança que os portugueses demonstram mais conhecimento ao discutir conceitos como o "comunismo", por outro, refletir sobre o passado colonial aqui por vezes é complicado. Nunca me esqueço do dia em que ouvi um grupo musical tocar "Conquistador", dos Da Vinci, quase em frente ao setor internacional da Festa do Avante!. Ninguém nem percebia a contradição.

Sabemos agora que uma parte da campanha de Jair Bolsonaro nas redes sociais foi feita em Lisboa. As caixas de comentários dos jornais online portugueses estão cheias de comentadores brasileiros pró-Bolsonaro. Há alguma aproximação a esse nível também?

Não vejo necessariamente uma ligação. Há muitos brasileiros a viver em Portugal e sob influência do que se passa no Brasil - por meio, por exemplo, dos grupos de WhatsApp de suas famílias. Além disso, a língua torna o conteúdo publicado aqui acessível para quem está lá, embora o mesmo movimento seja registrado também em jornais de língua inglesa, por exemplo.

A imprensa brasileira tem noticiado que muitos grupos de WhatsApp que disseminam fake news têm administradores que utilizam números de telemóvel estrangeiros, inclusive portugueses. Isso parece ser um padrão e precisa ser melhor estudado. É possível que isso ocorra para dificultar o rastreamento dos responsáveis e o combate a esse fenómeno.

Reparei, no entanto, que há uma convergência entre o vocabulário utilizado nas redes sociais portuguesas com aquele que se disseminou no Brasil: em Portugal, "petralha" virou "esquerdalha". O termo "petralha" vem de um trocadilho com os "Irmãos Metralha", personagens da Disney que eram ladrões. Não me parece natural a adoção de "esquerdalha" aqui. O trocadilho não é óbvio, não faz sentido olhar para esse termo sem cogitar a possibilidade de contaminação do discurso.

Como vê o debate nas redes sociais em Portugal? Há um discurso de ódio visível?

O discurso de ódio não nasce nas redes sociais. Devo dizer que não era exatamente fácil ser mulher e ter sotaque brasileiro quando fiz intercâmbio em Braga, em 2005, pouco depois do Movimento das Mães de Bragança. A diferença é que, naquela época, talvez muitos não tivessem coragem de expressar seus preconceitos na minha frente. Agora, as redes sociais despersonificam essas interações, o que facilita a expressão de preconceitos.

Nota-se nas redes sociais aqui cada vez mais discurso de ódio contra ciganos, negros, muçulmanos e estrangeiros em geral. Já também se vê ataques a feministas ou às esquerdas.

Antes, esse tipo de pensamento poderia ser pontual, ficando restrito a alguns indivíduos mais radicais. O problema é que a presença cada vez mais frequente desse tipo de manifestação na internet pode legitimá-la, ajudando na disseminação do pensamento. Com mais gente compactuando com o discurso de ódio, o risco é que ele saia da internet e tome as ruas. É o que se nota nessa onda de violência no Brasil.

E a influência das fake news no debate, sente-se?

Muito menos do que no Brasil, mas já noto sim. Um dos temas que vejo difundirem com mais frequência diz respeito à ligação entre refugiados e o terrorismo islâmico. Também já vi muitas notícias falsas sobre supostos subsídios pagos a ciganos ou imigrantes.

Outro sinal são comentários que atacam os meios de comunicação tradicionais, que são muito perigosos. A campanha de descredibilização da imprensa deixa o caminho livre para a disseminação das fake news. Perde-se a referência do que é real e do que é manipulado, de quais fontes de informação são seguras e de quais são duvidosas. Sabemos que não existe informação 100% objetiva, mas há uma distância enorme entre um texto com determinado viés e outro totalmente fictício.

Acredita que os perfis falsos criados no Brasil podem ser reciclados para intervir em campanhas portuguesas, por exemplo?

Não digo que os perfis em si venham a ser reciclados. É fácil criar um perfil falso. O que pode, sim, é ocorrer uma transferência de know how e tecnologia. O Brasil foi um enorme laboratório no uso maciço de fake news para a manipulação do processo eleitoral. Seu alcance foi inédito.

Na sua opinião, Portugal deve preocupar-se com esta nova forma de fazer política?

Acho que o mundo inteiro precisa se preocupar. O que vemos não me parece algo já conhecido, mas uma nova forma de populismo. Em vez do discurso de massa, o que a internet trouxe foi a possibilidade de segmentação do discurso. É como se houvesse, para cada alvo, para cada tipo de frustração, uma mensagem sob medida. Quando o discurso é pulverizado, é fragmentado em memes, o cidadão absorve o que lhe faz sentido e ignora aquilo que lhe causa repulsa. Por isso é tão difícil combater o fenómeno. Da mesma forma que não há uma mensagem única, as respostas também não podem ser únicas ou padronizadas.

O que observo no Brasil dessas últimas semanas é que desfazer o efeito das fake news tem sido uma batalha no nível micro. O movimento de "vira voto" tem falado muito na necessidade do "olho no olho", da necessidade de se escutar, de se entender as motivações específicas de cada eleitor, de ter empatia com seus medos e paciência para dialogar.

Vejo esse retorno do diálogo como algo positivo disso tudo. O individualismo e a competição, típicos da vida urbana, tornam o ser humano mais emocionalmente frágil e, assim, mais vulnerável a discursos que se apresentem como soluções fáceis para seus dramas pessoais.

Enquanto não se encontram soluções jurídicas, políticas e tecnológicas para se combater o problema, o fenómeno das fake news aumenta a responsabilidade de cada cidadão. Não falo apenas sobre a necessidade de se ter senso crítico para diferenciar o que é real do que é mentira, mas também para agir sempre que se notar alguém a reproduzir informações falsas. Isso vale tanto para as caixas de comentários dos jornais como para posts de amigos e familiares. Não se pode deixar que informações de origem duvidosa dominem os espaços públicos de debate.

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.