Bono Vox: "Estamos juntos em mares agitados pelo clima extremo e pela política extremista"

O vocalista dos U2, horas depois de ter publicado um artigo num jornal alemão, visitou a chanceler num encontro confidencial em que a Europa esteve em cima da mesa.

O encontro demorou 45 minutos mas Bono Vox, vocalista dos U2, e Angela Merkel falaram, segundo fontes próximas da chanceler, do projeto europeu.

A visita de Bono a Angela Merkel aconteceu no mesmo dia em que o músico irlandês publicou um artigo no jornal alemão Frankfurter Allgemeine, no qual reflete sobre o futuro e as ameaças à União Europeia.

Angela Merkel tem por costume ouvir pessoas de áreas diferentes sobre os mais variados assuntos e, como já disse anteriormente, considera Bono Vox um líder cultural. E a convergência entre os dois é uma realidade, pelo menos no que toca ao projeto europeu.

"A Europa é um pensamento que precisa de se tornar um sentimento."


"A Europa é um pensamento que precisa de se tornar um sentimento", diz Bono no texto publicado nesta terça-feira.

"A palavra patriotismo foi-nos roubada por nacionalistas e extremistas", afirma Bono, considerando que "os verdadeiros patriotas procuram a união acima da homogeneidade", e que este é que é "o verdadeiro projeto europeu".

Partindo deste pressuposto, o músico questiona: "Poderemos pôr os nossos corações nesta luta?"

"Os valores e as aspirações da Europa fazem desta muito mais do que apenas uma geografia, vão ao âmago de quem somos como seres humanos e quem queremos ser", escreve o músico, considerando que esta ideia de Europa "merece canções escritas sobre ela e grandes bandeiras azuis e brilhantes acenadas".

Esta afirmação decorre de uma ideia "provocadora" que a banda teve para a sua próxima digressão, que começa nesta semana em Berlim e que vai passar por Lisboa a 16 e 17 de setembro.

"Disseram-me que uma banda de rock está no seu melhor quando é um pouco transgressora: quando estica os limites do chamado bom gosto, quando choca, quando surpreende", escreveu, adiantando que a banda pretende, durante o concerto, agitar uma bandeira da União Europeia (UE), "grande, brilhante e azul".

"Imagino que mesmo para um público de rock, agitar uma bandeira da UE nos dias de hoje é um aborrecimento, uma chatice, uma referência kitsch ao Festival da Eurovisão, mas para alguns de nós tornou-se um ato radical."


"Imagino que mesmo para um público de rock, agitar uma bandeira da UE nos dias de hoje é um aborrecimento, uma chatice, uma referência kitsch ao Festival da Eurovisão, mas para alguns de nós tornou-se um ato radical", defendeu Bono.

O músico lembra que a mesma Europa que durante muito tempo provocava um bocejo, "hoje desencadeia uma disputa de gritos na mesa da cozinha", que é um palco de forças poderosas, emocionais e conflituantes que vão moldar o futuro. "O nosso futuro", sublinha o cantor, considerando: "Não há como negar que estamos todos juntos neste barco, em mares agitados pelo clima extremo e pela política extremista."

Bono aborda ainda a questão dos refugiados, afirmando que se sente orgulhoso, quando se lembra de que "os alemães receberam refugiados sírios assustados" (e mais se sentiria se mais países se tivessem juntado); "orgulhoso da luta da Europa para acabar com a pobreza extrema e as alterações climáticas; e, sim, extraordinariamente orgulhoso do acordo de Belfast e de como outros países se uniram à Irlanda na questão das fronteiras, reavivada pelo brexit".

"Sinto-me privilegiado por ter testemunhado o maior período de paz e prosperidade de todos os tempos no continente europeu", acrescentou.

"Sinto-me privilegiado por ter testemunhado o maior período de paz e prosperidade de todos os tempos no continente europeu."

No entanto, o cantor alerta que todas essas conquistas "estão a ser ameaçadas, porque o respeito pela diversidade - premissa de todo o sistema europeu - está a ser desafiado" e salienta que "a diferença é da essência da humanidade, e deve ser respeitada, celebrada e até mesmo cultivada".

"Adoro as nossas diferenças: os nossos dialetos, as nossas tradições, as nossas peculiaridades, 'a essência da humanidade', como definiu Hume. E acredito que eles ainda deixam espaço para o que Churchill apelidou de 'um patriotismo ampliado': alianças plurais, identidades em camadas, irlandeses e europeus, alemães e europeus, e não uma coisa ou outra."

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.