Bolsonaro visita Macri: Venezuela, Kirchner e crises na agenda

Pela primeira vez na vida em Buenos Aires, presidente brasileiro tentará ajudar homólogo argentino em vésperas de eleições. Mas enfrentará protestos na ruas.

Depois de Davos, Washington, Santiago e Jerusalém, o presidente Jair Bolsonaro faz hoje aquela que era, por tradição, a primeira viagem dos chefes de estado do Brasil: visita Maurício Macri, em Buenos Aires, uma cidade que, embora vizinha, ainda não conhece. O próprio Bolsonaro adiantou que acordos bilaterais e um tratado Mercosul-União Europeia estarão em cima da mesa. Mas não só: as eleições argentinas, a situação na Venezuela e as crises internas que um e outro enfrentam serão, certamente, tema de conversa.

Numa entrevista recente ao jornal argentino La Nación para lançar o encontro, o presidente brasileiro anunciou que ele e Macri vão tratar de medidas de cooperação bilateral entre os dois países e da fase final de um acordo estabelecido entre a União Europeia e o Mercosul, o mercado comum da América do Sul de que fazem parte, além dos dois países, o Uruguai, o Paraguai e a Venezuela, atualmente suspensa.

Aliás, o país de Nicolás Maduro - e de Juan Guaidó - não deixará de ser discutido. Para Bolsonaro, tanto Brasil como Argentina "não se podem despreocupar" da questão venezuelana. Os dois países fazem parte do Grupo de Lima, conjunto de 14 países latino-americanos que debatem a crise no país.

No entanto, nem só a Venezuela preocupa Bolsonaro - disse o próprio no mês passado que está mais apreensivo em relação à situação política e eleitoral na Argentina do que com a crise de Caracas. Em causa, a liderança nas sondagens de Alberto Fernández, cuja candidata a vice-presidente é a ex-titular do cargo Cristina Kirchner, para as presidenciais de outubro.

"Argentina e Brasil não podem voltar para a corrupção do passado, uma corrupção desenfreada pela busca do poder", disse Bolsonaro, cuja visita a Buenos Aires está a ser interpretada também como uma tentativa de ajudar Macri nessas eleições, à imagem do que fizera em Israel com outro aliado, Benjamin Netanyahu, às vésperas das eleições locais, ou até nos Estados Unidos, quando afirmou estar seguro de que a sua referência, Donald Trump, conseguiria reeleger-se.

"A economia é importante? Sim, e eles [os argentinos] podem contar com o apoio do Brasil no que for necessário para que possamos fazer o melhor para o povo argentino através de uma economia saudável como a que estamos tendo com Macri", afirmou ainda Bolsonaro ao La Nación.

O governo de Mauricio Macri, no entanto, está cada vez mais impopular em função de uma situação económica que dificilmente se pode classificar de "saudável". Em meados de 2018, deu-se uma disparada do preço do dólar, a inflação acumulada deste ano é de 15,6%, o índice de pobreza está em 33%, há perspetiva de encolhimento do PIB e o desemprego atingiu 9,1%, com a taxa de emprego informal beirando os 40%.

O governo de Macri, aliás, enfrentou nova greve geral na semana passada. E Bolsonaro, a propósito, também enfrentará protestos ao longo da visita. Partidos de esquerda, grupos de direitos humanos e de representantes de minorias, como as Mães da Praça de Maio e a Federação Argentina de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans, além de movimentos juvenis peronistas, como o La Cámpora e o Movimento Evita, e de sindicatos de trabalhadores participarão de um ato contra o presidente brasileiro. A deputada Myriam Bergman, da Frente de Izquierda, disse que os protestos também são de solidariedade com "os estudantes do Brasil que saíram maciçamente às ruas para protestar contra os cortes na verba da educação".

Na comitiva presidencial estarão a primeira dama, Michelle Bolsonaro, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o ministro de Minas e Energia, Bento de Albuquerque, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, um senador e um deputado.

A visita termina já amanhã, com o regresso ao Rio de Janeiro, logo pela manhã. Dela constarão reunião privada e reunião ampliada na Casa Rosada e encontros com os chefes dos outros poderes argentinos. Haverá também compromissos com empresários e diplomatas.

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