Bolsonaro: "Não temos os recursos" para combater os incêndios na Amazónia

"A Amazónia é maior do que a Europa, como se combate incêndios criminosos numa área destas?", questionou o presidente brasileiro. Jair Bolsonaro afirmou que o país não tem os recursos necessários para combater os fogos que estão a consumir a maior floresta tropical do mundo.

O governo brasileiro não tem recursos para combater um número recorde de incêndios na floresta amazónica, afirmou esta quinta-feira Jair Bolsonaro, semanas depois de dizer que não precisava do dinheiro dos doadores do Fundo Amaz​​​​ónia, cujo objetivo é promover a exploração sustentável da maior floresta tropical do mundo.

"A Amazónia é maior do que a Europa, como se combate incêndios criminosos numa área destas", questionou o presidente brasileiro perante os jornalistas. "Nós não temos recursos para isso", admitiu.

Números do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que usa imagens de satélite para controlar os focos de calor no país, mostram o aumento de 83% no número de incêndios florestais no Brasil entre 1 de janeiro e 19 de agosto de 2019 em comparação com o mesmo período do ano passado.

Neste ano, o INPE já detetou 72 843 queimadas no país. No ano passado, foram 39 759. A Amazónia está em terceiro lugar no ranking das queimadas neste ano com 7003 focos de incêndio, 5305 apenas em agosto, até ao dia 19.

Procuradoria investiga aumento do desmatamento e das queimadas na Amazónia

Os incêndios na Amazónia já duram há mais de duas semanas e estão a destruir vastas áreas de floresta consideradas vitais no combate contra as mudanças climáticas.

Embora os fogos sejam uma ocorrência regular durante esta época do ano, os ambientalistas culparam o acentuado aumento de agricultores que fazem queimadas para limpar a terra para a pastagem.

A Procuradoria da República brasileira fez saber esta quinta-feira que está a ser investigado o aumento do desmatamento e das queimadas na Amazónia, noticiou o jornal Estadão . ​O Ministério Público Federal no Pará afirmou que estão a ser conduzidas investigações "para apurar a diminuição no número de fiscalizações ambientais na região, a ausência da Polícia Militar do estado no apoio às equipas de fiscalização e o anúncio, veiculado no jornal de Novo Progresso (sudoeste do Estado) convocando fazendeiros para promoverem um 'Dia do fogo', na semana passada".

As investigações estão a decorrer nas cidades de Santarém, Itaituba, Altamira e Belém.

Bolsonado acusa as ONG

Na quarta-feira, Bolsonaro disse, sem apresentar provas, que organizações não-governamentais (ONG) poderiam estar na origem dos incêndios.

Questionado novamente na quinta-feira sobre esses comentários, ele disse que não poderia provar que as ONGs, para as quais ele cortou o financiamento, estavam acendendo os fogos, mas que eles eram "os suspeitos mais prováveis".

"O crime existe. Temos de fazer o possível para que não aumente, mas nós tiramos dinheiro de ONG, 40% ia para ONG. Não tem mais. De modo que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro. Então pode, não estou afirmando, ter ação criminosa desses ongueiros[pessoas que trabalham em ONG] para chamar atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil", acusou o chefe de estado.

Em conversa com jornalistas à saída do Palácio da Alvorada em Brasília, Bolsonaro reafirmou a acusação esta quinta-feira de manhã. "Quer que eu culpe os índios? Quer que eu culpe os marcianos? É, no meu entender, um indício fortíssimo que é esse pessoal de ONG que perdeu a teta deles, é simples", afirmou.

O presidente admitiu até que a culpa pelos incêndios pode ser dos fazendeiros, garantindo: "Todo o mundo é suspeito. Mas a maior suspeita vem de ONG".

Quanto às provas, admitiu não ter. "Não se tem prova disso. Ninguém escreve isso 'eu vou queimar lá'".

Noruega suspende financiamento do Fundo Amazónia

O Brasil enfrenta crescente crítica internacional sobre a forma como está a fazer a gestão da floresta amazónica, 60% da qual está localizada no país.

No início deste mês, a Noruega - principal doador para a proteção da floresta amazónica - acusou Brasília de "já não querer parar a desflorestação" e de ter "rompido o acordo" com os doadores do Fundo para a Preservação da Floresta Amazónica, onde Oslo já depositou 828 milhões de euros desde a sua criação em 2008.

"O Brasil rompeu o acordo com a Noruega e com a Alemanha desde que suspendeu o conselho de administração e o comité técnico do Fundo Amazónia", afirmou o ministro do Meio Ambiente da Noruega, Ola Elvestuen, ao jornal norueguês Dagens Naeringsliv (DN).

"O Brasil não pode fazer isso sem que a Noruega e a Alemanha concordem", acrescentou o governante.

Em reação à suspensão da transferência de verbas para o Fundo Amazónia pela Noruega, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, questionou se o país nórdico "não é aquele que mata baleias e explora petróleo".

"A Noruega não é aquele que mata baleias lá em cima, no Polo Norte? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer-nos. Peguem no dinheiro e ajudem a [chanceler alemã] Angela Merkel a reflorestar a Alemanha", declarou o chefe de Estado, citado pela imprensa local.

Também a ministra alemã do Ambiente, Svenja Schulze, anunciou, em entrevista ao jornal alemão "Tagesspiegel", a suspensão do financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade na Amazónia, no valor de 35 milhões de euros, devido ao aumento da desflorestação na região.

Câmara de deputados anuncia a criação de uma comissão externa

O presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, Rodrigo Maia, disse no Twitter que vai ser criada "uma comissão externa para acompanhar o problema das queimadas que atingem" a floresta tropical. Na rede social, anunciou ainda que vai ser criado uma "comissão geral" nos próximos dias "para avaliar a situação e propor soluções para o governo".

O Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), um organismo da Igreja Católica, expressou preocupação com o que chamou de "uma tragédia", e na quinta-feira convocou os países a tomar medidas imediatas para proteger a floresta tropical e as comunidades que vivem dentro e ao redor dela.

"Pedimos aos governos dos países amazónicos, especialmente ao Brasil e à Bolívia, às Nações Unidas e à comunidade internacional, que tomem medidas sérias para salvar os pulmões do mundo", disse o Conselho Episcopal, em comunicado. "Se a Amazônia sofre, o mundo sofre".

Com Lusa