Atiradora do YouTube é caso raro num mundo de homens

Estatísticas dizem que, entre 2000 e 2016, houve 220 tiroteios e só nove foram perpetrados por mulheres. E só três causaram quatro ou mais mortos. Nasim feriu três pessoas e suicidou-se

"Vai ser um homem, ou talvez ainda um rapaz." Era assim que começava o texto intitulado "Nós sabemos o que vai acontecer a seguir", que o jornal The Boston Globe publicou um dia depois do tiroteio na escola de Parkland (17 mortos, a 14 de fevereiro). Um texto destinado a mostrar que estas tragédias se repetem quase sempre da mesma forma e que é preciso fazer algo para as travar. Mas que também revela como o caso de Nasim Najafi Aghdam, a mulher de 39 anos que feriu três pessoas a tiro nos escritórios do YouTube antes de se suicidar, é raro.

As estatísticas do FBI indicam que, entre 2000 e 2016, dos 220 incidentes que envolveram atiradores nos EUA, só nove foram atribuídos a mulheres. Isto é, cerca de 4%. Já a base de dados da revista Mother Jones, que se limita aos tiroteios que fizeram quatro ou mais mortos (este caso não se inclui por isso aqui), nos últimos 30 anos em locais públicos, revelam que houve apenas três casos. Curiosamente, todos na Califórnia.

Mas porque é que é raro as mulheres serem as atiradoras? "Não podemos responder a essa pergunta porque na realidade não temos um número suficiente de mulheres atiradoras. O problema, ou a boa notícia, é que não temos mulheres atiradoras suficientes para ter um exemplo estatisticamente relevante", disse Adam Lankford, professor de Justiça Criminal na Universidade de Alabama, à CNN.

"É definitivamente muito raro ver uma mulher atiradora", indicou por seu lado à NBC a professora de Psicologia da Universidade do Sul, no Tennessee. "Quanto mais extrema é a violência, mais provável é o atacante ser do sexo masculino", acrescentou, dizendo que a investigação revela várias razões para os homens serem mais violentos, incluindo sentirem que têm direito a isso. No caso das mulheres, a violência prende-se normalmente com disputas domésticas, sendo mais provável que elas matem membros da família ou os filhos.

Não foi o caso de Nasim. Nascida no Irão, a mulher que disparou contra os funcionários do YouTube em San Bruno, na Califórnia, acusava a empresa de a discriminar e restringir o alcance dos seus vídeos. Militante vegana (não comem carne, ovos, mel ou laticínios), Nasim denunciava nalguns dos seus vídeos (em inglês, farsi ou turco) os maus-tratos aos animais. E acusava a empresa de a privar de rendimentos. Os utilizadores podem receber dinheiro através dos anúncios publicitários que acompanham os vídeos, mas a rede social pode suspender os pagamentos caso o material seja considerado pouco apropriado ou se tiver menos de mil visualizações.

O pai de Nasim, Ismail Aghdam, citado pelo Mercury News, tinha alertado a polícia para o desaparecimento da filha de San Diego (Sul da Califórnia) e avisado que ela podia fazer algo contra o YouTube porque "odiava" a empresa. Na noite antes do ataque, segundo o mesmo jornal, foi encontrada a dormir no carro em Mountain View (a sul de São Francisco), a pouco menos de 30 quilómetros da sede do YouTube. A polícia telefonou à família a dizer que estava tudo controlado. Mas, horas depois, armada com uma pistola de 9 mm, Nasim atingiu a tiro três pessoas que estavam numa zona de refeições, no exterior da empresa, antes de se suicidar. Duas das vítimas estão em estado grave.

Em números gerais, as mulheres cometem apenas entre 10% a 13% dos homicídios nos EUA. E tendem a não usar armas de fogo - são responsáveis só por 8% dos homicídios perpetrados dessa forma. Em comparação, 40% dos envenenamentos e 20% das mortes com recurso a fogo têm mão feminina.

AS OUTRAS

Em 30 anos, só três mulheres foram autoras de tiroteios com quatro ou mais mortos

Seis mortos nos correios de Goleta

A 30 de janeiro de 2006, Jennifer San Marco, de 44 anos, matou a tiro uma antiga vizinha em Goleta, na Califórnia. Depois, conduziu até ao centro de distribuição de correio onde tinha trabalhado durante seis anos - e do qual tinha sido afastada em 2003 por problemas psicológicos - e começou a disparar. Matou seis funcionários antes de se suicidar. Segundo textos encontrados na sua casa, acreditava ser vítima de uma conspiração com base naqueles correios.

Quatro mortes num centro tribal

A 20 de fevereiro de 2014, Cherie Lash Rhoades, de 44 anos, antiga líder da tribo de Cedarville Rancheria, abriu fogo nos escritórios do centro comunitário tribal, em Alturas, na Califórnia. Matou quatro pessoas, incluindo o irmão, a sobrinha e o sobrinho, e feriu outras duas. Esfaqueou uma delas, agarrando uma faca da cozinha do centro depois de ter ficado sem munições. Rhoades tinha sido afastada da liderança e estava a ser investigada por desvio de fundos. Foi condenada à morte em 2017.

Casal matou 14 em San Bernardino

A 2 de dezembro de 2015, Tashfeen Malik, de 27 anos, e o marido, Syed Rizwan Farook, de 28, mataram a tiro 14 pessoas num centro para pessoas com deficiências em San Bernardino, na Califórnia. No local decorria um encontro anual de trabalhadores e uma festa de Natal, em que Farook participava. O casal, de origem paquistanesa, inspirou-se no terrorismo islamita e deixou bombas no local, que não explodiram. Foram mortos quatro horas depois, num tiroteio com a polícia.

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