As eleições em que os gregos podem escolher um alemão

Enquanto Tsipras quer virar a página da austeridade e recuperar popularidade perdida para o centro-direita, os eleitores podem votar num alemão no partido de Varoufakis, que é apoiado por Pamela Anderson.

Na Grécia, que elege o mesmo número de deputados ao Parlamento Europeu que Portugal (21), a eleição de um representante só é assegurada se o partido passar a barreira dos 3%. Vários partidos dos 40 que participam no sufrágio estão neste momento perto desse patamar. Um deles é o MeRa25, o partido fundado por Yanis Varoufakis. É o antigo ministro das Finanças quem protagoniza a campanha, incluída no Movimento pela Democracia na Europa 2025 (DIEM25, do qual faz parte o português Livre). Mas o homem que confrontou os ditames de Bruxelas (e de Berlim) em 2015 não é candidato na Grécia. Varoufakis é o número um da lista Demokratie in Europa, que concorre na Alemanha, e o alemão Jochen Schult é o cabeça de lista pelo partido grego.

"Se queremos transformar o Império Romano, temos de começar em Roma. E é crucial chamar a atenção dos europeus para o facto de que aquilo que é apresentado como um conflito entre o Norte e o Sul é uma farsa. Pelo contrário, temos um conflito entre políticas progressistas e sustentáveis, por um lado, e políticas autoritárias regressivas, por outro, que assumem a forma do chamado establishment liberal - em suma, os Macron deste mundo - ou do autoritarismo dos eurocéticos e dos xenófobos. Para combater isto, o que poderia ser melhor do que um candidato grego na Alemanha e um alemão na Grécia?", disse Varoufakis ao Libération.

O economista de 57 anos, que não enfrenta na Alemanha a barreira dos 3%, mas o desconhecimento em relação à sua candidatura, tem como bandeira o Novo Pacto Verde - incluído no programa eleitoral do DIEM25 -, que prevê um investimento anual de 500 mil milhões de euros na transição para uma economia sustentável.

Se Jochen Schult é um desconhecido para a esmagadora maioria dos gregos, o MeRa25 recebeu o inesperado apoio de uma estrela da TV: a norte-americana Pamela Anderson, que se tornou conhecida na série Marés Vivas (Baywatch).

Tsipras vira o jogo

Com ou sem candidatos eleitos pelo MeRa25, ao primeiro-ministro da coligação de esquerda Syriza as contas são outras. Para Alexis Tsipras é hora de virar a página da austeridade, dando aos eleitores e ao seu partido esperança: aos primeiros de que as condições de vida melhorem, por fim, e ao segundo que possa renovar o mandato após as eleições legislativas agendadas para outubro.

O desempenho orçamental da Grécia em 2018 foi melhor do que o esperado, com um excedente orçamental primário, excluindo os custos da dívida, de 4,4%. Espera-se que a economia cresça 2,2% este ano, com uma ligeira diminuição do desemprego, de acordo com uma previsão divulgada pela Comissão Europeia. Mas mais de um terço dos gregos ainda vive na pobreza ou em risco de pobreza, o desemprego mantém-se nos dois dígitos (e atinge quase 40% junto dos jovens entre 15 e 24 anos) e os salários médios continuaram a cair após o resgate concluído em agosto passado.

Daí que segundo um inquérito divulgado pelo Parlamento Europeu, apenas 54% dos gregos considera positiva a entrada no clube europeu, que ocorreu em 1981.

"Estamos a tomar medidas para aliviar aqueles que suportaram o fardo da crise", disse há uma semana o primeiro-ministro helénico. Tsipras prometeu aos eleitores uma série de medidas de alívio fiscal duas semanas antes das próximas eleições, após superar as metas orçamentais estabelecidas pelos credores.

Tsipras disse que as reduções do IVA da energia doméstica, da alimentação e do setor de restauração vão entrar em vigor ainda este mês. Medidas adicionais serão introduzidas no início de 2020, revertendo em parte a enorme carga fiscal lançada durante os três sucessivos resgates internacionais. Dias depois, o governo do Syriza sobreviveu a uma moção de censura no Parlamento. O caminho parece livre para enfrentar uma eleições europeias e municipais e sobreviver ao embate para mais tarde disputar as legislativas de domingo.

Daí que interesse ao primeiro-ministro minimizar a importância das eleições europeias. "A noite de 26 vai registar as tendências do eleitorado", disse em entrevista ao canal Alpha. Há meses que a Nova Democracia, presidida por Kyriakos Mitsotakis, lidera as sondagens com grande vantagem.

Mas Tsipras, que tem conduzido o Syriza de um radicalismo de esquerda para posições mais próximas da social-democracia, vai tentar lucrar com os excessos da campanha de Mitsotakis. Além de ser uma campanha baseada em publicidade negativa contra o Syriza, cujos membros são apodados de mentirosos e corruptos, também têm amplificado notícias falsas relativas a Tsipras, como uma que afirma que o pai do governante foi um colaborador da ditadura militar.

Segundo a mais recente sondagem, de dia 8, a Nova Democracia elegerá nove eurodeputados (35%), mais quatro do que em 2014. Mas o Syriza poderá eleger sete representantes (27%), mais um do que há cinco anos. Os restantes partidos a eleger deputados serão o Movimento pela Mudança (KINAL, aliança que inclui o PASOK), o neonazi Aurora Dourada e o Partido Comunista.

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