As confissões de Schäuble: "Penso sobre como podíamos ter feito diferente"

Numa conversa com o Financial Times, o antigo ministro alemão das Finanças, timoneiro da zona euro na sua pior crise, insiste na ideia de que a Grécia deveria ter saído temporariamente da moeda única.

Aos 76 anos, agora presidente do Parlamento alemão (Reichstag), Wolfgang Schäuble não pensa em reformar-se da política. "Fui eleito em 2017 para um mandato de quatro anos. Não há nenhuma razão para pôr isso em causa."

O ex-ministro das Finanças alemão, figura que na Grécia e em Portugal muitos se habituaram a odiar por causa das políticas de austeridade com que combateu a crise da zona euro, continua no essencial fiel ao pensamento económico que o moveu.

Numa conversa onde Portugal não aparece, o que o deputado democrata-cristão diz é que na verdade alguns países nunca deveriam ter sido admitidos no euro - o caso da Grécia. Quando a crise financeira e económica rebentou naquele país, em 2010, por causa de um descontrolo total nas contas públicas, o alemão lembra-se de ter proposto ao seu então homólogo grego, Giorgos Papakonstantinou, que era preciso a Grécia sair do euro para poder desvalorizar a moeda e assim reconquistar competitividade. Mas foi impossível. "Toda a gente disse que não."

O que aconteceu foi que o então ministro das Finanças da Alemanha se tornou num homem odiado no sul da Europa, em particular na Grécia. "Fico triste com isso, porque tive um papel nisso", admite. Mas sem admitir erros - "eu sou um teimoso!" - apenas confessando refletir retrospetivamente sobre o que fez: "Penso sobre como poderíamos ter feito diferente."

Para Schäuble, o problema é que a implantação do euro não foi acompanhada de uma maior integração das políticas europeias (económicas, laborais, sociais). Portanto, temos uma zona monetária única com diferentes graus de desenvolvimento dentro de si.

Na sua agitada relação com a chanceler Angela Merkel, foi a Grécia, precisamente, um dos grandes motivos de divisão. A certa altura, em 2015, Schäuble tentou forçar um "Grexit" - ou seja, uma saída da Grécia do euro, durante dez anos. Mas a chanceler - e os outros líderes da UE - não deram cobertura à ideia. Schäuble revela agora que Merkel lhe perguntou: "Continuas [no governo]?"

Ficou. Mas, segundo conta, foram várias as ocasiões em que teve de "pesar" se era melhor sair ou ficar mesmo sabendo que iriam ser seguidas políticas a seu ver erradas. Foi ficando embora às vezes tenha estado "muito perto" de sair. E quanto à sua relação com Merkel? "Nem sempre estivemos de acordo. Mas eu fui sempre leal."

Merkel, entretanto, está de saída, em 2021. A CDU já elegeu a sucessora que a chanceler apoiou, Annegret Kramp-Karrenbauer, e Schaüble esteve do lado derrotado desse combate, o do milionário Friedrich Merz, em tempos líder parlamentar do partido.

Schäuble desloca-se de cadeira de rodas desde que, em 1990, foi alvo de uma tentativa de assassinato por parte de um doente mental, que o atingiu com dois tiros, um num joelho e outro na coluna vertebral.

Quanto acordou do coma soube que iria ficar preso para sempre a uma cadeira de rodas. Passou-lhe pela cabeça desistir da vida: "Disse que não sabia se não era melhor não ter acordado." Mas a sua filha Christine, de 19 anos - que assistira ao atentado - tirou-lhe os pensamentos negativos com um ralhete: "Sabes quantas pessoas estão lá fora a rezar por ti? E é assim que começas?"

Desse episódio o antigo ministro das Finanças retirou uma lição: "Tudo pode mudar de um segundo para o outro. É assim que a vida é."

O atentado, note-se, ocorreu quando Schäuble vivia aquele que ainda é para si o "momento mais alto" da sua carreira política: ser o ministro do Interior da Alemanha que conduziu todo o processo de reunificação com a Alemanha de Leste.

Em 2000 sofreu um novo golpe - mas desta vez político, sem nada que se compare com o atentado que quase lhe ia tirando a vida: estava lançado para se tornar no sucessor de Helmut Khol mas um escândalo financeiro atirou-o para as margens do processo político, ficando a ver a ascensão de Angela Merkel. Em 2009 esta convidou-o para ministro das Finanças. Disse-lhe: "Serei leal mas nunca submisso."

Agora a Alemanha vê a extrema-direita crescer em força e já com representação parlamentar. É-lhe perguntado se, 74 anos depois da derrota do nazismo, isso não incomoda: "Claro que incomoda. Nunca pensei que isso voltasse a acontecer."

No entanto, a culpa disso não a vê como resultado das políticas de austeridade que ele próprio fortemente defendeu mas antes o resultado das políticas de portas abertas aos refugiados levada a cabo por Merkel - e às quais se opôs.

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