"Alexis Tsipras é um traidor do povo grego". E por isso será processado

Ex-presidente do Parlamento grego, ex-membro do Syriza e ex-aliada de Alexis Tsipras, Zoe Konstantopoulou indicou nesta quinta-feira, em entrevista telefónica ao DN, que vai processar o governo regional de Ática e o governo grego pelas falhas na resposta aos incêndios que, nesta semana, mataram 85 pessoas.

Advogada de profissão, foi uma das estrelas do Syriza quando esta chegou ao poder na Grécia, em 2015. Eleita a mais jovem presidente do Parlamento grego, Zoe Konstantopoulou, hoje com 41 anos, era uma das maiores aliadas de Alexis Tsipras, o atual primeiro-ministro grego e líder daquela coligação de esquerda.

Até ao dia em que Tsipras decidiu ignorar o resultado do referendo sobre as condições de um eventual terceiro resgate da troika, realizado a 5 de julho de 2015, quando 61,31% dos eleitores disseram "não" e 38,69% responderam "sim". A consulta popular, que levou a um controlo de capitais que desesperou a Grécia e desafiou a UE, teve uma participação de 62,5%.

O atual chefe do governo acabou a pedir um terceiro resgate financeiro à troika para a Grécia. E Zoe rompeu com ele. Filha da jornalista Lina Alexiou e de Nikos Konstantopoulou, ex-presidente do Synaspismos, o principal partido dentro do Syriza, a advogada lançou em 2016 o seu novo partido: Plefsi Eletherias, ou seja, Caminho para a Liberdade.

Tem passado estes dias na zona dos incêndios, em Mati, na região de Ática, onde morreram 85 pessoas. Em entrevista ao DN, por telefone, nesta quinta-feira, Zoe Konstantopoulou anunciou que o seu partido vai processar o governo grego e o governo regional de Ática, liderado por Rena Dourou, também do Syriza.

"Não se morre assim nem em tempos de guerra", declarou, sublinhando que a Grécia, que no dia 20 de agosto sai oficialmente do programa de resgate e regressa aos mercados internacionais, tem tudo menos razões para festejar. Crítica de Tsipras, acusa-o de ter traído o povo grego, ter enganado tudo e todos e ter vendido o país aos credores da troika.

Tem estado na zona dos incêndios?
Estive nos últimos dois dias em Mati e vou voltar amanhã. Porque nós, o meu partido, Caminho para a Liberdade, vamos apresentar uma queixa-crime contra as autoridades regionais [governo de Ática] e o governo grego [liderado por Alexis Tsipras] pelas mortes causadas. Estamos a fazê-lo porque é um facto estabelecido que estas pessoas morreram por razão nenhuma, ficaram encurraladas nas casas, sem informação, nos carros, nas ruas. Ninguém as informou do perigo, não houve um plano de evacuação da área, as autoridades tiveram algumas horas para reagir, mas não o fizeram. Deixaram as pessoas indefesas à morte. Até tinham bloqueado a estrada principal através da qual as pessoas poderiam sair de Mati. E direcionaram toda a gente através de estradas mais pequenas. Foi como mandá-las para ratoeiras.

O presidente da Câmara de Rafina [Evangelos Bournous] disse que o vento tinha mudado e soprado com tal força que a zona costeira ficou reduzida a cinzas em poucos minutos...
Não é assim. O fogo começou algumas horas antes de chegar a Mati. Era imperativo evacuar a área e enviar forças de combate a incêndios e de resgate, para combater o fogo por um lado e, por outro, ajudar as pessoas. Isso só começou a acontecer depois de a tragédia já ter acontecido.

Em Portugal, no ano passado, houve também uma tragédia com muitos mortos em Pedrógão Grande...
Não sei os detalhes do caso português para estabelecer uma analogia. A tragédia, sim, pode ser, mas as causas que conduziram à tragédia... são alvo de investigação. O que aconteceu aqui é claramente responsabilidade do governo regional e do governo grego. Aquelas pessoas poderiam ter sido salvas. E deviam tê-lo sido. Não se morre assim nem em tempos de guerra. Mesmo em clima de guerra há um aviso prévio de evacuação. Isto não aconteceu. Mati é Atenas. Claro que o governo e as autoridades regionais talvez estivessem mais ocupados a preparar os festejos da saída do resgate [a 20 de agosto].

Alguns especialistas também sublinharam o facto de muitas das casas ardidas serem muito antigas, construídas com materiais que estão ultrapassados e, nalguns casos até, estarem ilegais...
O que posso dizer é que essas casas estão lá há décadas e as autoridades têm conhecimento disso. Mas isso não é razão para morrer. Para deixar as pessoas indefesas para morrer. Quaisquer que sejam as irregularidades isto é, em primeiro lugar, responsabilidade do Estado. Em segundo lugar o Estado tinha conhecimento da situação. Não se pode argumentar que morreram crianças de 5 ou 9 anos porque havia irregularidades na construção das casas.

O Corriere della Sera, jornal italiano, noticiou na quarta-feira que as medidas de austeridade na Grécia levaram a cortes na Proteção Civil grega na ordem dos 34 milhões de euros. Esse número está certo? Está em condições de confirmar?
É correto. E acho que o valor ainda é superior. As medidas de austeridade deixaram as pessoas sem proteção. Houve cortes na Proteção Civil. Mas não só. Também nos hospitais, médicos, enfermeiros. Ao ver o que se passou percebemos a importância que essas pessoas têm. E é por essa razão que eu, enquanto cidadã, advogada, ex-presidente do Parlamento, líder de um movimento político, me sinto extremamente ofendida por declarações de compaixão e solidariedade feitas por líderes como Angela Merkel, Emmanuel Macron, Jean-Claude Juncker, que representam os credores. O povo grego foi deixado nesta situação também por causa das medidas de austeridade e dos memorandos. O que eu sempre disse é que o governo não tem o direito de obedecer a estas medidas e deixar o seu povo sem proteção.

Em seu entender, quando a Grécia regressar aos mercados, a 20 de agosto, não há então nada a celebrar...
Não. O nosso país está sob um regime totalitário que vai continuar. A economia está sob controlo dos credores até 2060 e toda a propriedade pública foi entregue até ao ano 2114. É uma fraude dizer que estamos a sair do regime dos memorandos. Ainda continuamos sob esta nova forma de colonização. O meu povo sofre há muito tempo.

Quando o Syriza chegou ao poder era uma das maiores aliadas de Alexis Tsipras. Hoje, porém, é uma das suas maiores críticas. Acha que ele tinha, de facto, alternativa a pedir um terceiro resgate, até pelo que viu também passar-se noutros países que tiveram de recorrer a assistência financeira da troika?
Eu era membro do Syriza e presidente do Parlamento no primeiro governo. Não era só próxima. Era alguém que, de coração, acreditava naquilo que estávamos a fazer. Estou na triste posição de constatar que Tsipras não só tinha escolha, como fez a escolha de trair o povo e entregar o país e que fez essa escolha muito antes das eleições de 2015. Lamento imenso que tenhamos sido todos defraudados, sinto-me frustrada por ele ter defraudado toda a população, não só os seus camaradas e o seu partido. Tenho a certeza, porque estava na presidência do Parlamento na altura, que os dois relatórios que o Comité para a Verdade sobre a Dívida Grega produziu a dizer que a dívida grega era ilegal e devia ser anulada nem sequer foram usados por Tsipras. Ele também não honrou o mandato do povo. Não estamos a falar de escolhas em abstrato. As pessoas foram chamadas a votar [no referendo de 5 de julho de 2015] e votaram "não" a mais austeridade. Tsipras violou esse "não", transformou-o em "sim" e assim tem estado a governar nos últimos três anos. Se ele tinha escolha? Tinha. E fê-la. A sua escolha foi manter-se no poder e, por isso, ficará nas páginas negras da história. O povo grego não esquecerá. O Tsipras em quem confiaram, o Tsipras que representava esperança, traiu-os da forma mais cínica possível.

No início deste mês assinou um artigo no jornal britânico The Guardian com o seguinte título: "Se gostam da Grécia, ajudem-nos a livrar-nos de Alexis Tsipras e do seu partido zombie". O que tem em mente? Eleições antecipadas?
O artigo destinava-se a informar a comunidade internacional sobre o que realmente se passa na Grécia e o que este governo, que tanto gosta de se intitular como sendo de esquerda, está a fazer ao seu povo. É um governo que governa praticamente contra a vontade do povo, É um governo que está no poder graças ao trauma, ao desespero do povo, que viu o resultado do referendo violado. Implementou as medidas mais suicidas a nível social talvez de toda a Europa. O que quis foi informar os cidadãos britânicos e europeus sobre o que é realmente o governo de Tsipras. Queremos que o mandato do referendo seja restaurado e que, claro, haja eleições. Mas eleições no quadro constitucional. Porque, em 2015, o que aconteceu foi que as eleições antecipadas foram secretamente acordadas entre Tsipras e os credores. Foram desenhadas para surpreender o povo e usar o seu desespero e o seu sentimento de impotência para criar factos. Nessas eleições a abstenção foi histórica.

As sondagens atualmente indicam que o primeiro partido é a Nova Democracia e não o Syriza...
A Nova Democracia, tal como o Syriza, contribuiu para destruir o nosso país. É um partido [de direita] que contribuiu para muita corrupção e que serviu os credores e os memorandos de bom grado. O que queremos é que Nova Democracia e Syriza sejam esmagados. O nosso povo já fez isso antes quando, em 2012, derrubou o antigo sistema político. Só que, infelizmente, o que foi iniciado na altura perdeu-se porque Tsipras é um traidor do povo grego. O que esperamos é que o povo recupere a sua autoconfiança e vontade de lutar pelos seus direitos e pela sua dignidade. Lutar para restaurar uma verdadeira democracia no nosso país, para derrubar todos estes partidos e personalidades políticas que causaram tanta, tanta destruição.

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