A nota de 20 dólares que Trump não quer imprimir

Barack Obama tinha decidido que em 2020 as notas de 20 dólares iam ter a imagem de Harriet Tubman, ativista negra que lutou contra a escravidão. Administração Trump recua alegando questões técnicas.

Não será por "razões técnicas" que os Estados Unidos da América não vão ter - pelo menos até 2028 - uma nota dedicada à ex-escrava e ativista dos direitos humanos Harriet Tubman, como disse há algumas semanas a administração de Donald Trump, deixando desiludidos muitos norte-americanos. É que já há um protótipo da nota e até imagens da mesma.

Tubman seria a primeira mulher e a primeira pessoa negra a surgir numa nota norte-americana e o início da sua circulação, numa decisão do ex-presidente Barack Obama, estava previsto para 2020. No entanto, esse lançamento foi adiado para 2028, segundo o secretário de Estado do Tesouro, Steven Mnuchin, que alegou dificuldades técnicas para cumprir essa promessa.

Contudo, segundo o The New Times, os preparativos estavam a ser feitos e o jornal publicou mesmo esta sexta-feira uma imagem da nota - um projeto do US Bureau of Engraving and Printing, responsável pela conceção e impressão das notas - que mostra Tubman (1820-1913) com o cabelo apanhado, um casaco preto sob o qual está um lenço branco. A imagem escolhida é a de uma fotografia conhecida da ativista, cuja história de compromisso e heroísmo faz parte do currículo escolar de muitas escolas nos Estados Unidos.

A ideia de Barack Obama era substituir a imagem de Andrew Jackson, o sétimo presidente dos Estados Unidos (1829-1937), que ordenou o exílio a oeste de milhares de nativos americanos, pela de Harriet Tubman, que nasceu em 1820 em Maryland. O seu nome de batismo era Araminta Ross - mudou para Harriet quando casou - e nasceu no seio de escravos. Trabalhou como criada desde os cinco anos de idade e aos 29 conseguiu fugir da herdade onde estava e chegar ao norte dos EUA onde se lutava contra a escravidão.

Como em 2020 se assinala o centenário da conquista do direito de voto pelas mulheres nos EUA, a inclusão da imagem de Harriet nas notas de 20 dólares era uma forma de homenageá-la. O que não vai acontecer pois, segundo o secretário de Estado Steven Mnuchin, questões de segurança tornavam impossível cumprir o prazo, ao mesmo tempo que não era possível ter novos designs até 2026 e novas notas antes de 2028.

No entanto, fonte do US Bureau of Engraving and Printing disse ao diário norte-americano que a preparação da nota estava avançada de tal forma que seria possível imprimir as notas. Ao jornal, um porta-voz da ONU confirmou a autenticidade do design e um funcionário do Bureau of Engraving disse, sob anonimato, que viu uma placa de metal gravada e uma imagem digital do bilhete com Tubman em maio do ano passado. "Havia uma atmosfera de excitação e orgulho no escritório sobre a nota de 20 dólares", frisou a fonte do jornal.

Foi por isso uma surpresa a decisão da administração Trump de não imprimir a nova nota. Houve várias críticas de congressistas e até mesmo o grupo conservador Cato Institute lembrou que "Harriet Tubman lutou muito contra a injustiça e promoveu a liberdade humana. Mostrou coragem quebrando leis injustas e assumiu a liderança para colocar suas ideias em ação. Merece estar na nota de 20 dólares".

Durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais, Donald Trump foi questionado sobre a ideia de incluir uma mulher e negra pela primeira vez nas notas de dólar. A decisão do antigo presidente Barack Obama parecia "pura correção política", disse ele. "Seria melhor colocar Tubman em notas de dois dólares", sugeriu o então candidato republicano, "em vez de remover a imagem do sétimo presidente". Na realidade, Jackson é o presidente dos Estados Unidos mais admirado por Trump.

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