"A mesma coisa de novo e de novo". Conservadores antecipam derrota do acordo de May

Os deputados conservadores pró-Brexit dizem que mais uma vez vão votar contra o acordo de saída da União Europeia quando a primeira-ministra apresentar o projeto de lei ao Parlamento no próximo mês.

"Eu conversei com colegas, e alguns dos quais votaram a favor do acordo da última vez agora acham que está morto e vão votar contra desta", disse Peter Bone, um deputado conservador e apoiante do Brexit, à Talk Radio. "Parece absurdo trazê-lo de volta. É a mesma coisa de novo, de novo e de novo." Bone refere-se ao acordo de retirada do Reino Unido da União Europeia.

Desta vez a primeira-ministra Theresa May não irá levar ao parlamento uma moção, como das três vezes anteriores, mas um projeto de lei sobre o acordo de retirada, que aciona os termos de saída. A votação decorre na primeira semana de junho, anunciou o secretário do Brexit, Steven Barclay, na mesma semana em que o presidente dos EUA, Donald Trump, inicia uma visita de Estado ao Reino Unido.

Perguntado numa comissão parlamentar dos lordes se esta era a última hipótese para se aprovar o acordo de May, Barclay disse: "Se a Câmara dos Comuns não aprovar o projeto de lei, então o acordo de Barnier estará morto." O secretário do Brexit lembrou que o parlamento tem a opção de revogar a decisão de sair da UE ou de sair sem acordo - a opção por defeito a concretizar-se em 31 de outubro.

No entanto, o porta-voz de Theresa May disse que não exclui a hipótese de o governo regressar ao parlamento pela quinta vez com o acordo do Brexit.

O seu porta-voz recusou-se a dizer na quarta-feira se May se demitiria se não conseguir obter de novo apoio parlamentar para o seu acordo do Brexit.

May, que se tornou primeira-ministra na sequência do referendo de 2016, no qual os britânicos votaram 52% a 48% para deixar a UE, está sob pressão de alguns dos seus deputados para marcar uma data para a sua saída da liderança.

Antes de o acordo ter sido derrotado da última vez, por 344 votos contra 286 a 29 de março, May prometeu demitir-se depois da aprovação. Foi rejeitado em janeiro e de novo em março.

Além do impasse do Brexit, o Partido Conservador sofreu perdas importantes nas eleições locais deste mês e está em quinto lugar nas sondagens para as eleições ao Parlamento Europeu.

Ambiguidade trabalhista

Conservadores e trabalhistas estão há semanas em conversações para alcançarem um acordo parlamentar. Mas, após mais de quatro semanas de conversações, May e o eurocético Jeremy Corbyn parecem estar no mesmo ponto em que começaram e com os trabalhistas renitentes em dar aval a uma líder a prazo. "Para que haja apoio trabalhista para o projeto de lei, será necessário um acordo e nós não temos acordo", disse um porta-voz trabalhista.

"Temos sérias preocupações sobre a negociação com um governo que está em processo de desintegração e o que foi dito sobre o que poderia acontecer se uma nova liderança conservadora estivesse no comando", disse um porta-voz trabalhista à Reuters. Este, entanto, não descartou a hipótese de abstenção na votação, o que poderia permitir que reunisse apoio suficiente para passar.

Esta ambiguidade dos trabalhistas não passa despercebido ao eleitor britânico: segundo uma sondagem YouGov dos dias 13 e 14, o Labour é o partido menos claro quanto à sua política para o Brexit. Só 13% dos inquiridos afirmam que os trabalhistas são bastante claros ou razoavelmente claros sobre o Brexit. Do lado oposto, para 59% dos britânicos, o Partido do Brexit é claro quanto ao tema.

Para o tory Peter Bone, o cenário de algumas concessões para a abstenção dos trabalhistas seria duplamente negativo: "Iria dividir totalmente o Partido Conservador. Iria destruir o Partido Conservador."

O ponto mais controverso do acordo de retirada é o backstop, o mecanismo de salvaguarda destinado a evitar uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. Os apoiantes do Brexit temem que o acordo de May mantenha o Reino Unido preso na órbita da UE durante anos e que possa, em última análise, levar a província britânica da Irlanda do Norte para a UE.

A maioria dos membros do ERG, a fação pró-Brexit do Partido Conservador liderada por Jacob Rees-Mogg, votará mais uma vez contra o acordo, confirmou Owen Paterson.

Sem surpresa, também o aliado parlamentar DUP deverá manter a mesma posição - e reprovar o acordo. "Se a primeira-ministra levar o projeto de retirada à Câmara para votação, a questão será o que mudou?", perguntou Nigel Dodds, líder parlamentar dos unionistas da Irlanda do Norte. "A menos que consiga demonstrar algo novo que aborde o problema do backstop, é altamente provável que o seu acordo volte a ser derrotado", disse Dodds.

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