"A libertação de Paris deve-se muito mais aos aliados do que aos franceses"

Há 75 anos, De Gaulle proclamou: "Paris ultrajada! Paris destruída! Paris martirizada! Mas Paris libertada!" No dia anterior os republicanos espanhóis foram os primeiros a entrar. Entre estes devia haver portugueses, diz o jornalista José Manuel Barata-Feyo. Uma portuguesa esteve na luta da libertação.

Paris abre hoje um museu com três nomes para rememorar um único facto: a libertação de Paris das forças nazis. O antigo museu Jean Moulin (herói da resistência) passa a chamar-se também da Libertação de Paris e do general Leclerc.

Ontem à noite, a capital francesa prestou homenagem aos combatentes estrangeiros, e em especial aos espanhóis da Nueve -- a nona companhia do regimento do Chade --, os primeiros a entrarem na capital ocupada, em 24 de agosto de 1944.

A capital sublevou-se em agosto de 1944, sem esperar pela chegada dos aliados, após quatro anos de ocupação alemã. No dia 25, depois de uma semana de greves, barricadas e batalhas de rua, Paris acolheu a entrada triunfante do general Charles de Gaulle. No total, a batalha de Paris custou a vida de quase mil membros da resistência, cerca de 600 civis, 130 soldados da 2.ª divisão blindada e mais de 3.000 soldados alemães.

O jornalista José Manuel Barata-Feyo investigou o papel dos portugueses na luta contra o nazismo no livro A sombra dos heróis (ed. Clube do Autor) e crê que havia portugueses entre os 160 homens da Nueve.

Em entrevista ao DN afirmou que depois de o livro ter sido impresso recebeu uma lista com mais portugueses envolvidos no combate ao nazismo. Que números estão confirmados e que outros estima terem participado?

Aqueles que estão referidos no livro e identificados de forma oficial são 353. Diria que em números redondos, com os contactos que se estabeleceram depois de o livro ter saído, deve estar à volta de 400. Sobre essas novas informações que recebi não fiz nenhuma investigação ainda, não posso confirmar.

E em relação à libertação de Paris, sabe se houve portugueses presentes?

Sei que houve pelo menos uma portuguesa. Chamava-se Marinette da Costa e foi correio da resistência desde maio de 1942. Na libertação de Paris transportou munições e montou um posto de socorros onde tratou feridos. Não é forçosamente a única. Houve portugueses à entrada de Paris. É muito provável que tenha havido portugueses na brigada espanhola que libertou Paris, la Nueve. Se os soldados republicanos espanhóis foram mal recebidos em França, as brigadas internacionais foram ainda muito mais mal recebidas. Os portugueses, para escapar a pior destino, em vez de dizerem que estavam nas brigadas internacionais, diziam que eram espanhóis. Alguns terão estado integrados na la Nueve.

O papel desses espanhóis, bem como dos portugueses em menor escala, foi esquecido durante anos. Compreende essa atitude de De Gaulle à luz do que se passava na altura?

Penso que do ponto de vista político, sim, tratava-se de olhar para o futuro da França e não para um passado muito recente, um passado dramático e trágico para a França. É perfeitamente explicável que De Gaulle tenha feito aquele célebre discurso em Paris, "a França ocupada, a França martirizada vai ser libertada pelos exércitos franceses e pelo povo francês". Agora isso nem sempre cola com a realidade histórica. A libertação foi muito mais feita pelos exércitos aliados do que pela divisão blindada do general Leclerc. E no que diz respeito à resistência, De Gaulle passou por cima dela porque era na prática um número muito reduzido, pelo que era preferível falar do povo francês enquanto nação. Compreendo o discurso político de De Gaulle, já não compreendo bem é que tenha demorado 70 anos para que de um ponto de vista histórico se começasse a chamar os bois pelos nomes. E designadamente na libertação de Paris haver uma referência aos republicanos espanhóis. Surpreenderam o comandante alemão da praça de Paris, foi feito preso pela Nueve, pelos tanques espanhóis, que foram os primeiros a entrar na capital.

Diz que proporcionalmente houve mais portugueses a lutar contra nazis do que franceses. Isso aplica-se a outras nacionalidades?

Aos espanhóis certamente. Não sei ao certo quantos espanhóis havia em França na altura, mas eram muitos porque a República tinha perdido a guerra, Franco havia ganho e muitos refugiaram-se em França. Onde foram pessimamente tratados porque as democracias europeias olhavam de um modo muito desconfiado para os republicanos espanhóis, sobretudo para as brigadas internacionais, que eram considerados comunistas ou anarquistas. Trataram-nos mal como já tinham tratado durante a guerra civil de Espanha. Enquanto a Alemanha nazi e a Itália fascista apoiavam Franco, França e Inglaterra adotaram uma política de não interferência que permitiu na prática que a República fosse esmagada pelas tropas franquistas e pela aviação alemã e italiana.

Mencionou o comandante de Paris, o general Choltitz. A libertação de Paris aconteceu nos moldes que sabemos porque o alemão terá recusado cumprir as ordens de Hitler de "não deixar cair Paris ou transformá-la num campo de ruínas". Mais recentemente, soube-se que o general Leclerc terá escrito uma carta a ameaçar Choltitz de que se destruísse a capital seria julgado por crimes de guerra e executado. Como analisa a ação do general alemão?

Não fiz nenhuma investigação sobre esse ponto concreto, a única coisa que sei foi o que li sobre o assunto. Hitler teria dado ordens para o general explodir uma série de monumentos em Paris e este não teria obedecido. Se esta ordem foi escrita não existe nenhum documento a comprová-lo. Se foi verbal é estranho porque sabemos como são os alemães: mesmo que a ordem fosse dada pelo telefone deveria existir um documento. O que é facto é que não mandou sabotar os monumentos em Paris e isso podemos dizer porque estavam dinamitados mas não foi acionado o mecanismo que permitia a explosão. Eu não sabia da existência de uma carta de ameaça mas duvido da sua eficácia no final de uma guerra, quando os alemães em geral sabiam que era muito possível que acabassem diante de um tribunal militar. Principalmente as SS, as tropas políticas de Hitler. Por isso não acho essa ameaça muito eficaz.

Muitos dos que entraram em Paris acabaram por ainda morrer em combate. Foi uma vitória mais simbólica do que outra coisa ou foi determinante na marcha contra o nazismo?

Foi perfeitamente acessória. Aliás, do ponto de vista tático e estratégico Eisenhower e os ingleses consideravam a libertação de Paris de somenos importância. O grande objetivo era chegar a Berlim antes dos soviéticos. Os eixos de ataque sobre a Alemanha passavam a todos o lado de Paris, Paris não era estrategicamente importante. De um ponto político, sim, extremamente importante para os franceses, era a libertação da capital. Em relação aos espanhóis de la Nueve, depois da libertação de Paris, muitos desertaram para perto da fronteira, nos Pirenéus, porque o seu propósito era derrotar Franco, tendo tentado a conquista de Espanha. Claro que outros continuaram a combater no exército aliado e morreram em combate.

A investigação e escrita de A sombra dos heróis demorou quanto tempo?

Exatamente três anos menos uma semana. Foi um longo processo, não era fácil, não havia qualquer referência aos portugueses. Ainda hoje se pesquisar no Google ou em qualquer motor de busca não aparece nada, enquanto se pesquisar por espanhóis aparece. Em França e em Portugal houve um silêncio total à volta disso.

Está a investigar para o seu próximo livro as histórias dos 905 portugueses que se alistaram no exército francês para combater o nazismo. Já sabe o que aconteceu à maioria?

Tiveram o destino que a esmagadora maioria do exército francês. Foram feitos prisioneiros, alguns fugiram. Destes, houve quem fosse para a resistência. Na altura da debandada três milhões de soldados franceses foram feitos prisioneiros num ápice. Muitos conseguiram escapar dos campos de prisioneiros e alguns deles foram depois para a luta civil, digamos, a resistência, para combater os nazis. Ainda não sei exatamente o destino dos portugueses. Esse número, 905, é o que consta dos registos franceses.

Exclusivos