"A justiça é lenta como um elefante mas no final cumpre a sua missão"

Condenado a 11 anos de inabilitação profissional por ordenar escutas entre advogados e arguidos do Gürtel, o juiz Baltasar Garzón reagiu hoje à sentença do caso de corrupção que manchou a imagem o PP de Mariano Rajoy: "A justiça é lenta como um elefante mas no final cumpre a sua missão".

O ex-juiz da Audiencia Nacional de Espanha viu hoje o tribunal a que pertenceu proferir a sentença do caso Gürtel, um esquema de corrupção que envolvia empresários que ganhavam concursos públicos a troco do pagamentos de percentagens que eram usadas para ajudar a financiar o Partido Popular.

A sentença hoje proferida soma 351 anos de penas de prisão para 29 dos acusados e aplica uma multa de 245.492,8 euros ao PP. O cabecilha do esquema, Francisco Correa, cuja tradução para alemão do apelido deu o nome à investigação de Gürtel, foi condenado a 51 anos e 11 meses de cadeia. Luis Bárcenas, ex-tesoureiro do PP, foi condenado a 33 anos de cadeia e a pagar uma multa no valor de 44 milhões de euros.

"A justiça é lenta como um elefante mas no final cumpre a sua missão", disse hoje Baltasar Garzón, em declarações ao programa Rojo Vivo da cadeia de televisão espanhola La Sexta. Apesar do preço que teve que pagar, disse, o ex-juiz espanhol declarou-se satisfeito pelo trabalho que ajudou a trazer à luz do dia o esquema de corrupção. A sentença "é um triunfo da sociedade e da justiça apesar dos entraves colocados no início da investigação".

Garzón, conhecido pela luta contra a ETA ou pela ousadia de querer investigar os crimes do regime de Franco, foi inabilitado de exercer a profissão de juiz durante 11 anos depois de ter ordenado escutas ilegais na prisão entre os advogados de defesa e os arguidos do caso Gürtel.

Em fevereiro de 2017, de passagem por Lisboa, Baltasar Garzón afirmou em entrevista ao DN: "Fui suspenso pela investigação dos crimes franquistas e posteriormente juntou-se o caso Gürtel, pelo qual fui condenado. Um crime que, do ponto de vista da nossa defesa, não existia. Criou-se na sentença. Mas isso já passou. Serviu para me lembrar que a luta contra a corrupção tem um custo, que às vezes é muito grande. No meu caso foi a impossibilidade de exercer como juiz durante 11 anos. O estudo do direito era a minha vida, mas esta vida continua. E pode-se continuar a lutar pela justiça, contra a corrupção, também desde fora".

Em julho de 2017, Mariano Rajoy foi ouvido como testemunha em tribunal, tornando-se o primeiro chefe do Governo em funções a sentar-se no banco dos réus na democracia espanhola. Rajoy, presidente do PP, argumentou que sempre se ocupou apenas das questões políticas relacionadas com a atividade dos populares e que os detalhes económicos nunca passaram pelas suas mãos. "Jamais me ocupei dos temas de contabilidade", frisou. "Não sei nada de contas, só tive conhecimento quando foi publicado nos meios de comunicação social, por isso não há nada que possa aportar, não sei nada desse assunto, francamente", afirmou noutro momento da audiência.

Hoje, reagindo à sentença, o coordenador geral do PP, Fernando Martínez-Maillo, disse: "Creio que é uma sentença que está enganada e errada e vai ser alvo de recurso de forma imediata e fundamentada". E lembrou que, antes de 2003, "Mariano Rajoy nem sequer era o presidente do PP". Esta sentença refere-se à chamada primeira fase do Gürtel, que corresponde ao período entre 1999 e 2005.

O líder do PSOE, Pedro Sánchez, considerou "inaceitável" a reação do PP em relação a uma sentença que "implica politicamente o presidente do governo e do PP Mariano Rajoy".

O líder do Ciudadanos, Albert Rivera, indicou que o seu partido vai reavaliar o apoio ao Executivo de Rajoy, que não goza de maioria absoluta. "Esta não é mais uma sentença, pois é a primeira vez que um partido é condenado por corrupção, que é o partido que governa Espanha. Há que tomar decisões", declarou Rivera, descartando, para já, apoio a uma moção de censura contra Rajoy. No seu entender, isso seria somar mais instabilidade, numa altura em que Espanha já enfrenta o desafio independentista na Catalunha, comunidade autonómica onde o Ciudadanos é um partido muito forte.

A ideia da moção de censura voltou a ser hoje defendida pelo líder do Podemos Pablo Iglesias."Pedro Sánchez conhece perfeitamente a disponibilidade do Podemos", disse, desafiando o PSOE a apoiar uma moção de censura (foi a abstenção dos socialistas que, no passado, viabilizou o governo minoritário do PP de Rajoy). Recorde-se que Iglesias enfrenta, ele próprio, escrutínio da sociedade espanhola e dos militantes do partido, tendo sido fortemente criticado por ter adquirido, com a namorada Irene Montero, também membro do Podemos, uma casa de 600 mil euros. Acusado de hipocrisia, por no passado ter criticado o ex-ministro das Finanças Luis de Guindos por ter adquirido um apartamento no mesmo valor em 2012, decidiu submeter a questão a referendo. A consulta, feita através da internet, decorre no Podemos até domingo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.