"A "coerência" de Trump ajuda-o a manter popularidade junto do eleitorado"

Luís Nuno Rodrigues, diretor do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE-IUL, analisa um ano de presidência Trump e o que esperar para 2018.

Um ano depois de tomar posse, Donald Trump é uma mais-valia ou um handicap para os republicanos antes das intercalares de novembro?

Se olharmos para os resultados recentes das eleições no Alabama, podemos verificar que o candidato apoiado por Trump foi derrotado e pensar que o seu apoio poderá ser prejudicial aos candidatos republicanos à Câmara dos Representantes e ao Senado nas eleições do próximo ano. No entanto, não é linear que assim seja. As eleições para o Congresso são muitas vezes determinadas por lógicas políticas dos respetivos estados, pelo passado dos candidatos e pelo seu carisma e popularidade. Assim se explica que em muitos momentos o Congresso tenha sido dominado pelo partido que não está na Casa Branca, mesmo quando houve presidentes com níveis de popularidade assinaláveis. Neste final de 2017, os níveis de popularidade de Trump estão muito baixos em termos gerais, mas junto do eleitorado republicano ele mantém taxas de aprovação superiores a 80%. Além disso, houve nos últimos dias um desenvolvimento assinalável: Trump e o GOP conseguiram aprovar um complexo pacote legislativo (que não é só uma reforma fiscal) que poderá permitir aos candidatos republicanos ganhar momentum. Em suma, tudo dependerá do que se passar nos próximos meses em relação à agenda do presidente, às circunstâncias dos estados e às características do seu eleitorado, mas não se pode dizer à partida que o apoio de Trump funcione como um handicap para os candidatos republicanos.

Que balanço faz deste ano de Trump na presidência dos EUA?

Ao nível interno, o primeiro ano de Trump ficou marcado pela incapacidade de fazer avançar algumas das suas promessas mais emblemáticas, como a construção do muro na fronteira com o México e a revogação e substituição do Obamacare, que contou, aliás, com a oposição de figuras de relevo do Partido Republicano. Por outro lado, estes meses ficaram marcados pela instabilidade na própria administração, com demissões frequentes, do diretor do FBI James Comey ao chefe de gabinete Reince Priebus e ao seu principal conselheiro, Steve Bannon, passando por dois porta-vozes da Casa Branca, Sean Spicer e Anthony Scaramucci. Só nos últimos dias do ano Trump conseguiu aquela que foi a sua grande vitória em 2017: a aprovação da reforma fiscal. A questão decisiva será a de saber se esta foi uma exceção ou se, pelo contrário, marcará o início de uma aproximação entre Donald Trump e os líderes republicanos.

Deixar o Acordo de Paris, o travel ban, reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Cumprir estas promessas explica porque Trump mantém a popularidade com a sua base?

A aceitação de Trump entre a sua base inicial parece resistir à erosão dos seus níveis de popularidade a nível nacional. Não me parece que a sua política externa seja o que mais conta nessa equação. Os bons indicadores económicos e os números cada vez mais baixos do desemprego são certamente decisivos, assim como a manutenção de tópicos mais polémicos, a nível da imigração ou do discurso "identitário". No quotidiano americano, a política externa está longe de ser o tema dominante, embora a mensagem de que os EUA estavam "reféns" de uma ordem internacional que lhes era prejudicial tenha algum acolhimento. E foi isso que tornou populares as decisões de abandonar acordos e organizações multilaterais, como o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, a UNESCO, da qual os EUA já tinham estado ausentes de 1984 a 2002, e a política comum da ONU sobre migrações.

Passado um ano, Trump mantém o estilo imprevisível. O mundo tem de aprender a lidar com ele?

Não creio que Trump vá abdicar do seu estilo peculiar que gera, aliás, tremenda animosidade na opinião pública americana. Raramente se ouvia, na conversa de rua, os americanos referirem-se de forma tão depreciativa ao "seu" presidente. Parecia existir uma espécie de regra de ouro segundo a qual, uma vez eleito, o presidente se tornava "presidente de todos os americanos", sendo visto como uma espécie de instituição. Hoje, essa regra foi quebrada e até nas lojas de souvenirs se encontram artigos com mensagens muito contundentes, passe o eufemismo, para com Trump. O reverso da moeda? A "coerência" de Trump ajuda-o a manter os níveis de popularidade junto do seu eleitorado inicial. A verdade é que, uma vez chegado à Casa Branca, não modificou o comportamento que tinha caracterizado a sua campanha e continuou a usar o Twitter como meio de comunicação preferencial na sua busca incessante de "monsters to destroy", para usar a expressão de John Quincy Adams. Trump manteve nestes meses o tom acusatório, apontando o dedo a personalidades e instituições nacionais e internacionais que considera responsáveis por tudo o que de menos bom ocorre nos EUA. A opinião pública americana e internacional vai mesmo ter de se habituar.

Continua a falar-se em impeachment. É um cenário realista?

Para já não me parece realista. Não só o Partido Republicano detém a maioria em ambas as câmaras do Congresso como a aprovação da reforma fiscal parece querer significar que o partido foi finalmente capaz de encontrar uma plataforma comum como o presidente. Se o acordo sobre este amplo pacote legislativo for um sinal do que está para vir, Trump poderá dormir descansado no que ao impeachment diz respeito. As eleições de novembro de 2018 serão decisivas a esse respeito, uma vez que o impeachment requer um voto favorável de ambas as câmaras.

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