"A Catalunha será uma república independente no próximo ano"

Milhares de pessoas participaram na primeira Diada pós-referendo de 1 de outubro de 2017. Aos gritos pela independência, somaram-se, este ano, os apelos à libertação dos dirigentes catalães que foram presos na sequência da organização daquela consulta popular ilegal sobre uma República da Catalunha naquela autonomia de Espanha

A Diada - Dia Nacional da Catalunha - assinalou-se esta terça-feira com milhares de pessoas nas ruas de Barcelona. 460 mil participantes, 1500 autocarros, 270 mil T-shirts vendidas são, para já, as contas da organização, citas pelo El Mundo. A Guardia Urbana, assinala o La Vanguardia, fala em um milhão de manifestantes.

A data destina-se a assinalar que os catalães resistiram, até 11 de setembro de 1714, ao Cerco de Barcelona durante a Guerra da Sucessão Espanhola antes de a Catalunha passar para o Estado espanhol.

Aos tradicionais gritos pela independência desta autonomia espanhola, juntam-se, este ano, os apelos à libertação dos dirigentes catalães que foram presos na sequência do referendo ilegal de 1 de outubro de 2017.

Nele, perguntou-se aos catalães se queriam uma República da Catalunha, independente de Espanha, desafiando a justiça espanhola, bem como a polícia espanhola, conduzindo à aplicação, pela primeira vez, do artigo 155.º da Constituição: a autonomia foi temporariamente retirada ao governo catalão e os poderes regressaram a Madrid.

Os nove dirigentes que estão atualmente detidos em cadeias catalãs são: Oriol Junqueras, Jordi Sànchez, Jordi Cuixart, Josep Rull, Jordi Turull, Raül Romeva, Carme Forcadell, Dolors Bassa e Quim Forn.

Carles Puigdemont, ex-presidente da Generalitat, não está preso porque fugiu. Está exilado na Bélgica. Esta Diada celebrou-a em Gibraltar. Isto porque se entrar em Espanha é detido à luz do mandado de captura que existe contra si.

Apesar de fisicamente ausente, Puigdemont esteve presente através de Ben Emmerson, advogado britânico que o representa na defesa do seu caso junto da ONU. "Estou aqui para vos lembrar que têm muitos amigos lá fora. Estamos ao vosso lado. Enviemos uma mensagem a Pedro Sánchez e ao seu governo de que têm a última oportunidade de fazer o que lhes compete. Usemos a nossa voz e asseguremo-nos de que chega a mensagem de liberdade para os presos políticos A Catalunha será uma república independente no próximo ano. Pedir uma mudança política, em democracia, não é nenhum delito", afirmou o advogado.

"A 1 de outubro demos uma lição ao mundo e ganhámos o direito à independência. Mostrámos que a repressão não nos derrubou", afirmou Elisenda Paluzie, líder da Assembleia Nacional Catalã, uma das duas entidades que organizam as manifestações da Diada.

"Pedimos a Pedro Sánchez que assuma que o seu Estado cometeu a maior das ofensas: reprimir a cidadania", afirmou o vice-presidente da outra entidade organizadora, a Òmnium Cultural, Marcel Mauri, citado pelo La Vanguardia. O presidente da Òmnium, Jordi Cuixart, é um dos nove detidos por causa da consulta de 1 de outubro de 2017.

Recorde-se que, naquele referendo, votaram 2,26 milhões de pessoas. O resultado foi de 90% a favor de uma República da Catalunha, 7% contra e 3% de votos brancos e nulos. Quem votou desafiou a polícia, sobretudo a Polícia Nacional espanhola, uma vez que a polícia autonómica catalã, Mossos d'Esquadra, chegou a ser acusada de compactuar com os independentistas nalgumas situações.

Não só dos independentistas chegou hoje a pressão sobre o primeiro-ministro socialista espanhol. O PP, maior formação da oposição a nível nacional em Espanha, exigiu, através da sua porta-voz no Parlamento, Dolors Montserrat, que "garanta que a Diada volta a ser uma festa de todos os catalães, de convivência e concórdia e não uma manifestação sectária dos independentistas" segregando a sociedade catalã entre cidadãos "de primeira e de segunda" categoria.

Albert Rivera, líder do Ciudadanos, partido que nasceu na Catalunha contra a deriva independentista, escreveu no Twitter: "Senhor Sánchez, deixe de pôr o cargo à frente do interesse geral dos espanhóis. O futuro da nossa democracia não pode depender de [Quim] Torra e [Carles] Puigdemont, esclareça isto antes que seja demasiado tarde".

Em declarações aos jornalistas estrangeiros, citadas pela AFP, o atual líder da Generalitat, Quim Torra, fiel de Puigdemont, admitiu que não pode libertar os presos. "Não tenho a possibilidade de abrir as portas das cadeias", afirmou. Torra tomou posse como presidente do governo autónomo catalão in extremis, a 17 de maio, quando faltava pouco para expirar o prazo que iria obrigar a novas eleições na Catalunha, tendo depois sido levantada a aplicação do artigo 155.º. Porém, se os independentistas voltarem a tentar separar-se do Estado espanhol, este poderá sempre voltar a ser aplicado.

Em entrevista à BBC, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Sánchez, Josep Borrell, ele próprio catalão, afirmou: "preferia" que os presos "estivesse em liberdade" mas o governo "nada pode fazer" porque em Espanha existe "uma separação de poderes" entre política e justiça. Borrell é também ex-presidente do Parlamento Europeu.

Recorde-se que para tirar Mariano Rajoy e o PP do poder, em junho, através de uma moção de censura, Sánchez contou com o apoio de vários partidos regionais, entre os quais os independentistas da Catalunha. Em declarações feitas na Bélgica, Puigdemont já avisou que tal apoio não é um cheque em branco ao líder do PSOE no governo de Espanha.

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