Portugal condecora funcionários da ONU ligados ao processo timorense

Três dos funcionários da ONU que mais estiveram ligados à luta pela independência de Timor-Leste -- Francesc Vendrell, Tamrat Samuel e Ian Martin -- foram hoje condecorados com a Comenda da Ordem da Liberdade, conferida pela Presidência da República portuguesa.

"É uma honra a Ordem da Liberdade a individualidades tão distintas e, em particular, poder conferir estas comendas em Díli por ocasião do 20.º aniversário da Consulta Popular de 30 de agosto de 1999", disse o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, que conferiu as condecorações em representação do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Numa intervenção no Centro Cultural da embaixada portuguesa em Díli, Ferro Rodrigues, recordou "o medo, a esperança e a coragem dos timorenses" em 1999 e o trabalho da missão das Nações Unidas para permitir o voto. "As missões fazem-se de pessoas e penso que os timorenses tiveram sorte em tê-los aqui", afirmou. "O mundo precisa de mais pessoas como vocês", disse ainda.

Depois de receber a comenda, Francesc Vendrell destacou o papel de Portugal na luta pela independência de Timor-Leste, processo em que Portugal esteve "sozinho entre 1976 e os meados dos anos 1990".

A nível pessoal, o diplomata catalão afirmou que uma das coisas que mais o inspirou na defesa do direito à autodeterminação timorense foi o que diz ser o comportamento errado das Nações Unidas quando permitiu a anexação da Papua Ocidental pela Indonésia em 1962.

"Era o meu dever, perante a ONU e as pessoas de Timor-Leste, prevenir uma repetição do que aconteceu com a anexação da Papua Ocidental. Foi o sempre me guiou", disse. Tamrant, que disse receber a condecoração com "humildade e em reconhecimentos de todos os que trabalharam na ONU para permitir a autodeterminação timorense", recordou que Portugal sempre se manteve "firme" nesta questão.

"Sempre me surpreendeu a unidade de opinião em todo o espetro político, de apoio ao direito à autodeterminação timorense", afirmou. Houve dias "em que as perspetiva desse sonho de autodeterminação se tornar realidade eram muito negras" com "muitas vozes a dizer que era preciso ser realista, que isso não iria ocorrer" em Timor-Leste. "Mas a justiça esteve do lado de Timor-Leste e essa justiça prevaleceu", disse.

"Neste processo foi construída uma rede de solidariedade em que a resistência armada, apesar de não ser forte, se manteve como símbolo da esperança e com ação diplomática externa que, entre si, permitiram a autodeterminação", afirmou.

Ian Martin, por seu lado, dedicou a sua condecoração a todos os que trabalharam na UNAMET, a missão que liderou e que organizou o referendo de 30 de agosto de 1999, saudando os seus co-galardoados pelo seu trabalho na questão de Timor-Leste.

Recordando momentos de 1999, Martin recordou a ocasião em que, na presença da embaixadora Ana Gomes, içou pela primeira vez a bandeira das Nações Unidas e, depois, durante o cerco à sede da UNAMET.

Um momento de crescente pressão internacional para o envio de uma força internacional em que Portugal, disse, teve um "papel fundamental", ecoado por uma mobilização de protesto em todo o país.

"E por isso é um privilégio por ter sido nomeados como representante especial do secretário-geral da ONU, António Guterres, para vir a Timor-Leste por ocasião do 20º aniversário da Consulta Popular", afirmou.

Ian Martin liderou a Missão das Nações Unidas em Timor-Leste (UNAMET) que supervisionou o referendo de 30 de agosto de 1999 e, posteriormente, em 2006, foi enviado especial do secretário-geral para o país, na altura envolvido numa profunda crise política.

Francesc Vendrell, 79 anos e natural de Barcelona, é considerado o funcionário das Nações Unidas que mais tempo acompanhou a questão de Timor-Leste, tendo em 1975 convencido o então sub-secretário geral Tang Ming-Chao a aprovar a realização de um relatório sobre Timor (publicado em 1976).

Vendrell teve um papel importante na produção das oito resoluções da Assembleia Geral sobre Timor-Leste, aprovadas entre 1976 e 1982, altura em que a questão ia progressivamente desaparecendo da atenção da comunidade de nações. Depois de anos a acompanhar Timor-Leste, Vendrell, então diretor do Departamento de Assuntos Políticos da ONU, liderou a primeira delegação das Nações Unidas.

Tamrat Samuel, por seu lado, foi entre 1992 e 2000 o ponto focal do secretário-geral da ONU para a "Questão de Timor-Leste", tendo estado envolvido nas prolongadas negociações entre Portugal e a Indonésia que culminaram no acordo de 05 de maio de 1999, que permitiu a consulta popular de há 20 anos.

Principal canal de ligação entre a ONU e a liderança timorense, organizou e facilitou as rondas do diálogo intra-timorense entre 1994 e 1998 e fez parte da delegação da ONU liderada por Vendrell.

No referendo de 30 de agosto de 1999, que ocorreu após 24 anos de ocupação indonésia de Timor-Leste, mais de 78,5% da população timorense votou a favor da independência, apesar de meses de intensa violência e intimidação.

Os resultados da votação foram anunciados na manhã de 04 de setembro por Ian Martin na sala de conferências do então Hotel Mahkota (hoje Hotel Timor), tendo praticamente de imediato começado uma onda de destruição sistemática em todo o país.

A situação levou a comunidade internacional a aprovar a vinda de uma força internacional, a Interfet, que chegou ao país a 20 de setembro para estabilizar a situação.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.