Insultos de Duterte comprometem reputação das Filipinas no mundo

Presidente filipino é conhecido pelo uso de uma linguagem que o torna popular entre os seus compatriotas. Declarações podem pôr em risco relações com os Estados Unidos.

"Quem é que ele pensa que é? Sou presidente de um Estado soberano, e há muito que deixámos de ser uma colónia. Filho de uma puta (...), não admito faltas de respeito". Foi com esta linguagem desabrida que Rodrigo Duterte se referiu a Barack Obama e à possibilidade deste abordar a questão das execuções extrajudiciais nas Filipinas no quadro do combate ao narcotráfico, de que Duterte fez uma prioridade do seu mandato, num encontro bilateral à margem da cimeira da ASEAN na capital do Laos, Vienciana.

A Casa Branca anulou o encontro e o presidente filipino pediu desculpa pela declaração intempestiva que fez na segunda-feira. Na verdade, apenas mais uma a comprovar que Duterte aprecia praguejar.

Em comunicado, a presidência filipina procurou explicar que as palavras de Duterte resultavam do facto de ele ter lido na imprensa que o presidente americano iria dar-lhe uma "lição" sobre as execuções extrajudiciais, que causaram 2400 mortes desde que o chefe de Estado filipino tomou posse no final de junho. Uma ideia que o irritou profundamente e daí a peculiaridade de um presidente em exercício insultar ao vivo e em direto um outro presidente em exercício, principalmente sendo este o dirigente da nação aliada mais importante para as Filipinas. E não foi caso único.

Recentemente, Duterte afirmou que, num encontro com o secretário de Estado John Kerry, lhe disse que o "vosso embaixador é um filho da puta de um gay". O que irritara aqui o presidente filipino fora aquilo que considerara "interferências" do embaixador durante a campanha eleitoral num sentido que lhe era desfavorável.

O incidente sucede num momento tenso na região devido às reivindicações de soberania no Mar da China do Sul, opondo o governo de Pequim aos Estados da região e poderá comprometer a aplicação de um acordo assinado pelo antecessor de Duterte, Benigno Aquino III, prevendo o reforço da presença militar dos EUA no arquipélago.

O tipo de linguagem que Duterte cultiva torna-o bastante popular nas Filipinas, mas está a comprometer, de algum modo, a reputação do país na cena internacional. Além de que a guerra ao narcotráfico incentivada pelo presidente com frases como "matem [os traficantes] e eu dar-vos-ei uma medalha", tem merecido críticas de diferentes ONG de direitos humanos e das Nações Unidas. O que levou Duterte a criticar a organização, chegando a afirmar que não se preocupa "com os direitos humanos. Acreditem naquilo que eu digo".

Ainda antes de chegar à presidência, Duterte escandalizara a comunidade internacional em abril a violação e morte de uma missionária australiana numa prisão da cidade de Davao, em 1989, quando ele era presidente da câmara local. "Fiquei louco de raiva por ela ter sido violado, mas ela era tão bonita. Pensei que, como mayor, devia ter sido eu o primeiro". Posteriormente, recusou a apresentar desculpa por estas palavras.

Também o Papa Francisco foi alvo da peculiar linguagem de Duterte, quando este recordou ter ficado preso no trânsito em janeiro de 2015 durante a visita papal a Manila. "Demorei cinco horas do hotel até ao aeroporto. Quando soube que era por causa da visita de Francisco, até quis dizer: Papa, filho da puta, vai para casa!". E em agosto, em resposta a um vídeo do Estado Islâmico a apelar ao reforço do grupo islamita Abu Sayyaf nas Filipinas, Duterte retorquiu que "tudo o que eles fazem, eu posso fazer dez vezes pior. Aposto nisso a minha honra, a vida e até a presidência".

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG