Incerteza preocupa portugueses a viver no Reino Unido

Emigrantes apreensivos com o dia a seguir ao voto: temem expulsão ou que empresas onde trabalham deixem o país.

A poucos dias do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, a radicalização do discurso vinha a acentuar-se cada vez mais e só o violento homicídio da deputada trabalhista Jo Cox esfriou os ânimos e impôs a paz entre os dois campos de batalha.

Entre outras questões, a imigração é vista por muitos como a causa de muitos males do país. Os defensores da saída da UE dizem que os imigrantes "roubam" os empregos dos britânicos, ignorando que muitos também chegam ao país para colmatar falhas do próprio sistema nacional.

Ismália Érica de Sousa é um exemplo disso mesmo. Chegou ao Reino Unido em 2009 numa das primeiras vagas de emigração de enfermeiros portugueses. Trabalha no Hospital de Charing Cross, em Londres como enfermeira especialista.

Ao DN, a portuguesa de 28 anos disse que "o mais preocupante é a incerteza sobre o que acontecerá ao Reino Unido se sair da União Europeia". A jovem acrescenta ainda que "nenhum país saiu da UE e isso é preocupante, no sentido de saber o que é que vai acontecer com os emigrantes. Por mais que as pessoas digam que não vai acontecer nada, na verdade não se sabe até que ponto é que isso é mesmo verdade."

Ismália alerta ainda para as eventuais consequências do brexit para o próprio sistema nacional de saúde britânico (NHS). "Há muitos enfermeiros que foram treinados ou que são de muitos países europeus: Portugal, Espanha, Itália e, tendo em conta o estado do NHS, se por acaso o Reino Unido decidir sair da União Europeia, há a possibilidade de esses enfermeiros voltarem para os seus países de origem (...) porque não se sabe o que será necessário para provar que se pode viver e trabalhar aqui".

Os enfermeiros portugueses são altamente desejados no Reino Unido, onde são já muitos os hospitais britânicos que vão a Portugal diretamente buscar os profissionais de que necessitam. São vistos como trabalhadores esforçados, com bom nível de inglês e com uma formação superior melhor do que a que existe no Reino Unido.

Todos os anos cerca de 30 mil portugueses escolhem este país como destino para emigrar. Mas por cá nem tudo são rosas. A maioria trabalha no setor da hotelaria e restauração. 60% vive em Londres, sobretudo concentrada na margem sul to rio Tamisa, entre as zona de Vauxhall e Stockwell, também conhecida como "little Portugal" ou "Pequeno Portugal".

Se por um lado, nos últimos anos, muitos emigrantes chegam com formação superior e amplos conhecimentos linguísticos, a maioria continua enquadrada no antigo estereótipo da emigração não qualificada e acaba a trabalhar em áreas para as quais alguns britânicos "olham de lado".

António Farçadas vive em Londres há quatro anos e meio e trabalha numa empresa de apostas online. Também ele partilha da mesma opinião e preocupação de Ismália e sofre com a incerteza. "Em termos gerais, o Reino Unido pertence à UE e está sujeito a um determinado conjunto de regras, mas havendo um brexit não sabemos como vai ser o dia de amanhã. Sabemos que haverá um período de transição de dois anos em que serão estabelecidos acordos bilaterais mas é tudo muito vago."

Este emigrante português disse ainda ao DN: "Nós brincamos a dizer que no dia 24 vamos sair todos do país, vamos ser postos na rua, só que neste momento há uma incerteza muito grande quanto ao que vai acontecer no dia a seguir. Certamente acordos terão que ser feitos porque não podemos ter milhões de profissionais a serem convidados a abandonar o país."

António alerta ainda para a eventual saída de empresas europeias do Reino Unido. Esta possibilidade preocupa-o. Tendo já constituído família em Londres, ele teme que em virtude do brexit a sua empresa o envie para outro país da UE. "O grande responsável disto tudo tem um nome: David Cameron. Porque para ganhar umas eleições, há dois anos ele pôs na agenda política um referendo e quis fazer pressão sobre a UE para poder cortar subsídios [em casa]."

*) Londres

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