Incêndios na Austrália. Autoridades pedem a 250 mil pessoas que deixem as suas casas

Os bombeiros australianos estão esta sexta-feira a combater várias frentes de fogos, especialmente no leste da Austrália, com a deterioração das condições climatéricas a aumentar o risco de incêndio em diferentes locais.

As situações mais graves registam-se sobretudo nos estados de Victoria e de Nova Gales do Sul (NSW), bem como na ilha Kangaroo, a sudoeste de Adelaide, no estado do Sul da Austália, de acordo com dados recolhidos pela Lusa junto dos serviços de emergência de bombeiros.

As áreas mais críticas são as zonas montanhosas, na fronteira entre os estados de NSW e de Victoria, onde várias frentes de fogos, algumas das quais com centenas de quilómetros, estão a unir-se, como na região Alpina e em Gippsland, no sul de NSW e na região nordeste de Victoria. A capacidade de resposta dos bombeiros é prejudicada pelos acessos difíceis e pelo vento forte.

Os serviços de emergência do estado de Victoria emitiram já vários alertas para as populações de diferentes localidades para que abandonem de imediato as suas casas. Na página na internet, os alertas de "evacuação imediata" abrangem cerca de 30 localidades e regiões. No total foram instadas a sair de casa cerca de 250 mil pessoas.

Muitos residentes já se deslocaram para localidades consideradas seguras e onde estão instalados serviços de emergência civis e militares, para apoiar as populações afetadas.

De acordo com o serviço de incêndios rurais de Nova Gales do Sul, dois fogos, um procedente do estado de Victoria e outro de NSW, estão praticamente unidos, na zona da Reserva Natural de Clarkes Hill. "A previsão é de perigo severo ou extremo" na costa sul e em outras zonas do sul do estado de Nova Gales do Sul", indicaram aqueles serviços, sublinhando que "as atuais condições tornam o comportamento dos fogos mais errático e perigoso".

Na ilha Kangaroo, onde as chamas destruíram já mais de um terço da área, os incêndios continuam a ameaçar grande parte do resto da zona. Grande parte da ilha está sem serviço elétrico, devido à destruição de várias subestações e algumas das principais linhas de distribuição, indicou a entidade responsável SA Power Networks.

Equipas do Kangaroo Island Wildlife Park, apoiadas por voluntários, estão a trabalhar para tentar proteger os animais do fogo, com o risco de incêndio a baixar ligeiramente apesar de se manter a ameaça.

Equipas de veterinários do exército australiano têm dado apoio urgente a animais autóctones, nomeadamente koalas, cangurus, águias e gambás.

Hamilton e Serena fazem doações

O britânico Lewis Hamilton, seis vezes campeão do mundo de Fórmula 1, revelou que vai doar 500 mil dólares (450 mil euros) para auxiliar a Austrália, onde os incêndios causaram 27 mortos e vitimaram diversos animais. "Vou doar 500 mil dólares para ajudar os animais, os voluntários que lutam pela vida selvagem e os bombeiros locais", anunciou o piloto da Mercedes no Twitter, pedindo aos seus seguidores para fazerem igualmente uma doação.

O piloto, de 35 anos, fez acompanhar a sua mensagem de um vídeo, onde se vê um coala a ser salvo das chamas pelos habitantes australianos.

Também a tenista Serena Williams vai fazer uma doação, mas para um leilão: um vestido utilizado e assinado por ela no primeiro torneio do ano, o Australian Open, que decorre este mês em Auckland, na Austrália. "Tenho imensos amigos na Austrália e isto tem sido realmente trágico", disse esta sexta-feira a atleta que tem 23 títulos de Grand Slams no currículo. "Continuou a perguntar todos os dias às pessoas o que posso fazer. Existe algo que eu possa fazer? É literalmente devastador para mim e tenho a certeza que muitas outras pessoas se sentem da mesma maneira", acrescentou.

O vestido que será entregue para leilão é da marca Nike e foi utilizado pela norte-americana quando venceu a italiana Camila Giorgi na primeira ronda em Auckland. Também estará à venda uma bola de ténis assinada por serena Williams e Caroline Wozniacki, assim como uma sessão de treino particular de uma hora dada pelo mentor de Serena, Patrick Mouratoglou.

Polícia australiana nega que incendiários sejam a principal causa dos fogos

A polícia do estado australiano de Victoria afirmou esta sexta-feira não existir qualquer prova de origem criminosa nos incêndios que estão a devastar o país, ao contrário de notícias divulgadas por jornais conservadores.

Uma porta-voz da polícia negou que 183 pessoas tinham sido detidas por provocar os incêndios das últimas semanas, informação divulgada por jornais da News Corp de Rupert Murdoch, de acordo com a imprensa australiana.

"Não há qualquer indício de que os maiores fogos tenham sido causados por mão criminosa", disse, sobre a informação usada em várias publicações em redes sociais.

A mesma fonte policial explicou que as notícias usaram estatísticas anuais, em alguns casos relativas a um período que terminou em setembro de 2019, "muito antes dos atuais fogos".

A mesma informação foi confirmada pela polícia em Queensland, que negou as mais de 100 alegadas detenções no estado.

A polícia de Queensland afirmou que o número abrange um período muito maior do que os atuais fogos e inclui casos em que não houve fogos postos, mas violações de proibição total de fogo.

Já em Nova Gales do Sul, a polícia confirmou a detenção de 24 pessoas por provocarem deliberadamente incêndios, tendo o serviço de incêndios florestais local confirmado que os maiores fogos foram desencadeados por trovoadas em conjugação com a seca.

Diretora de grupo de media demite-se após denunciar cobertura "irresponsável" e "perigosa"

Perante as notícias que davam conta de origem criminosa nos incêndios, publicadas por jornais da News Corp, do magnata Rupert Murdoch, a diretora comercial deste grupo de media demitiu-se esta sexta-feira após denunciar uma cobertura "irresponsável" e "perigosa" que os jornais do grupo têm feito.

Num email para o responsável do grupo, Michael Miller, e distribuído por todos os funcionários da News Corp, Emily Townsend acusou os jornais do grupo de tentarem promover a falsa ideia de que os incêndios se devem a atos criminosos.

"Tenho sentido um impacto severo da cobertura das publicações da News Corp relativamente aos fogos, especialmente a campanha de informação falsa que tem tentado desviar a atenção da questão real das alterações climáticas, destacando a questão de fogos postos (muitas vezes deturpando factos)", escreveu no email.

O email, divulgado pela imprensa australiana, foi removido dos servidores do correio da News Corp uma hora depois de ter sido enviado.

"Considero inconcebível continuar a trabalhar para esta empresa e saber que estou a contribuir para a disseminação de negações e mentiras sobre as alterações climáticas", escreveu Townsend, que trabalhou na News Corp durante cinco anos.

"As notícias que vi no The Australian , no The Daily Telegraph e no Herald Sun não são apenas irresponsáveis, são também perigosas e prejudiciais para as nossas comunidades e para o nosso planeta, que precisa que reconheçamos a destruição e sobre a qual precisamos de começar a atuar", acrescentou.

Ao jornal Sydney Morning Herald , Townsend lamentou que o email tenha sido divulgado, mas reiterou e defendeu o conteúdo.

Partilhadas imagens e informações falsas sobre os fogos na Austrália

Imagens falsas ou antigas, informação errada e até mapas fictícios partilhados por cidadãos, partidos políticos e celebridades têm estado a contaminar a cobertura dos fogos na Austrália divulgada nas redes sociais.

Uma investigação da ABC Austrália apontou para uma proliferação de 'bots' [aplicação de 'software' concebida para simular ações humanas repetidas vezes de maneira padrão] e contas fictícias que estão igualmente a espalhar notícias falsas, incluindo a tentativa de apontar o dedo a ecologistas, nomeadamente em torno do debate sobre as alterações climáticas.

Entre a informação falsa que circula há várias imagens e notícias com a 'hashtag' #ArsonEmergency que têm inundado a rede social Twitter.

Um investigador da Queensland University of Technology (QUT), Timothy Graham, disse que cerca de um terço de mais de 300 contas que analisou e que têm partilhado publicações com essa 'hashtag' sugerem ser falsas ou automatizadas.

Uma das mais partilhadas, por exemplo, a notícia falsa de que as autoridades australianas teriam detido 200 incendiários, atacando os 'media' tradicionais por ignorarem a informação e preferirem responsabilizar as alterações climáticas.

O número total de pessoas detidas por provocarem incêndios é, até ao momento, de 24.

Atualizada às 11:02

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