Impressão digital de grupo brasileiro em mega-assalto

Ataque a empresa resulta no roubo de 37 milhões de euros. Pelo uso de metralhadoras antiaéreas e granadas, PCC é principal suspeito.

A organização criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital (PCC) é a principal suspeita do assalto de 40 milhões de dólares, cerca de 37 milhões de euros, a uma empresa de transporte de valores em Ciudad del Leste, cidade paraguaia a quatro quilómetros da fronteira com o Brasil, na madrugada de segunda-feira. O maior roubo da história do Paraguai é classificado como um dos mais importantes do século a nível mundial.

Perto da uma da manhã de segunda-feira, parte dos cerca de 40 criminosos envolvidos no assalto bloquearam a saída do quartel da polícia local incendiando 20 automóveis com cocktails molotov e usando miguelitos, a gíria para pregos que furam pneus. Outros assaltantes colocados em pontos estratégicos asseguravam, através de tiros de metralhadoras antiaéreas 50, usadas normalmente para derrubar helicópteros, e lançamento de granadas que as viaturas da polícia não conseguiam sair da sua base nem chegar a Avenida Monseñor Rodríguez, que dá acesso ao prédio da empresa Prosegur, entretanto fechada por um carro e por um camião em chamas.

Com todos os acessos bloqueados, outro grupo de assaltantes chegou à empresa de valores em carros blindados, dominou funcionários e vigilantes, matou o único agente da polícia no local e, beneficiando do bloqueio de duas horas, teve tempo para explodir a abertura da sala-forte do edifício e retirar malas com o equivalente a 37 milhões de euros.

Durante a fuga, que durou quatro horas e resultou na morte de três dos assaltantes em troca de tiros com os polícias na região de Itaipulândia, já no Brasil, foram ainda lançados mais miguelitos.

Segundo as autoridades, apenas 12 dos criminosos fugiram para o Brasil, e oito foram detidos, um deles a tentar apanhar um autocarro para São Paulo, a cidade-sede do PCC, principal grupo criminoso do país, com ramificações em todos os 26 estados do Brasil e em oito países da América do Sul, o Paraguai incluído.

O ministro do Interior do Paraguai disse que "tudo aponta para o PCC". Lorenzo Lescano revelou que testemunhas ouviram os assaltantes dizer "vão, vão, não olhem para trás", em português fluente, e que as matrículas das viaturas usadas eram brasileiras.

Mas a impressão digital do grupo fundado em 1993 está sobretudo no método utilizado - desde novembro de 2015, houve cinco assaltos a empresas de transporte de valores em cidades do estado de São Paulo, como Campinas, duas vezes, Santos, Ribeirão Preto e Santo André. O especialista em crime organizado do Ministério Público de São Paulo Lincoln Gakiya disse que "pelo planeamento, execução do assalto e pelo tipo de armas usados não há dúvidas da participação do PCC".

O PCC controla a fronteira do Brasil com o Paraguai desde que noutra ação cinematográfica em junho do ano passado executou Jorge Toumani, intermediário no tráfico de drogas que enfrentou a organização, com tiros de metralhadora 50 que furaram o carro blindado em que circulava na cidade fronteiriça de Ponta Porã. De então para cá mais 38 colaboradores de Toumani foram executados pelo PCC, relatam os investigadores da polícia paulista.

Líderes do PCC, como Rogério de Simone, conhecido por Gegé do Mangue e considerado o terceiro da hierarquia do grupo liderado por Marcola, e Luciano Castro, o Zequinha, são considerados os estrategas do crime. O primeiro foi solto por ordem judicial dia 3 de fevereiro e tem como missão reorganizar o tráfico de drogas e armas na fronteira, o segundo é o criminoso mais procurado pela polícia de São Paulo, que oferece 15 mil euros por informações acerca do seu paradeiro.

Ciudad del Leste, que fica colada pela Ponte Internacional da Amizade à localidade brasileira Foz do Iguaçu, demora entretanto a recuperar do choque de explosões consecutivas. "Parecia uma cidade sob bombardeamento", disse uma testemunha à AFP. As escolas e a universidade da cidade ficaram fechadas durante parte do dia de ontem. O presidente paraguaio, Horacio Cartes, já pediu a intervenção do exército e o seu homólogo brasileiro, Michel Temer, colocou todos os recursos policiais necessários à disposição.

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