Imigrantes do Usbequistão querem embaixada em Portugal

Metade dos imigrantes do Usbequistão que vieram para Portugal estão na região centro. Só em Leiria são mais de 300. É lá que acaba de nascer uma associação que os une, e que vai lutar por uma embaixada

Até 2001, Zavquiddin Idiev nunca tinha ouvido falar de Portugal. "Já tinha visto meio mundo, mas quando cheguei a Portugal vi que era um país tranquilo, e foi aqui que escolhi ficar." É apontado como uma referência de sucesso entre a comunidade portuguesa do Usbequistão este empresário do ramo da construção civil. Começou como empresário em nome individual, em 2006, e em 2014 abriu a empresa.

Na verdade, é ele quem dá emprego a mais de 20 usbeques, na empresa com sede em Leiria, a cidade que muitos escolheram para se radicar - e que na sexta-feira passada recebeu o embaixador em Madrid, Jahongir Ganiev, bem como o cônsul Sardor Sadikov.

Zavquiddin foi entretanto "batizado" pelos amigos portugueses. Chamam-lhe "Jaques". Muitos (também empresários) quiseram juntar-se à receção oferecida ao embaixador, pouco tempo depois de ter sido construída a Vatandosh - Associação de Usbeques, também com sede em Leiria.

Estima-se que na cidade e na região morem cerca de 500 usbeques, o que corresponde a metade dos imigrantes vindos daquele país. A maioria dedica-se a pequenos negócios de comida de rua, à base de kebab, mas também em restaurantes. É o caso de Bahtiyor Sodikov, o presidente da associação. Antes, porém, trabalhou noutros ramos de atividade. "Comecei por trabalhar na agricultura, foi o que apareceu. Depois fui trabalhar para uma oficina, e só mais tarde abri o meu negócio", conta ao DN. Tem apenas 41 anos, e hoje está particularmente orgulhoso da filha mais velha, uma estudante universitária que serviu de intérprete na cerimónia de receção ao embaixador. Tal como o amigo Zavquiddin, também ele está perfeitamente integrado e não poupa elogios à cidade que os acolheu.

"As pessoas gostam dos imigrantes, gostam de ajudar", considera o construtor.

O embaixador Jahongir Ganiev foi recebido em Leiria num clima de festa. A Associação de Usbeques chamou a comunidade ao Mercado de Santana e convidou cada um deles a levar uma iguaria da gastronomia do país. Além disso, um desfile de moda da estilista Mumtoz Suhayl, com os tecidos típicos, também fez parte do programa, que começou com uma apresentação do Usbequistão à imprensa e às agências de viagens.

Gonçalo Lopes, vice-presidente da Câmara de Leiria, fez as honras da casa: "Mais do que as ligações de cariz institucional, o que realmente aproxima os povos são as relações sociais", disse o autarca, antes de agradecer "o contributo que toda a comunidade do Usbequistão tem dado para o desenvolvimento desta região". O vereador acredita que, "neste tempo de globalização de oportunidades, mas também de ameaças, o multiculturalismo e a abertura a novos horizontes culturais são as mais eficazes ferramentas para travar o retrocesso civilizacional a que se assiste em algumas geografias". O embaixador anuiu, ainda impressionado com a Leiria que o recebeu, por coincidência durante o festival A Porta, que tomou conta da cidade durante vários dias.

Uma embaixada em Portugal? Sim, em Leiria

Jahongir Ganiev tutela a embaixada em Madrid, a representação diplomática mais próxima de Portugal. A comunidade usbeque acredita que faria sentido criar uma embaixada por cá, e sugere mesmo que possa sediar-se em Leiria. "Era uma forma de descentralizar e estar mais próxima de todos", diz ao DN Beatriz Vaz, uma empresária da região que acabou por estabelecer todas as pontes institucionais entre a comunidade e a autarquia. Começou por ajudá-los nas pequenas burocracias, numa altura em que já era fornecedora de copos de papel e outros utensílios para os restaurantes. "Fui percebendo como são trabalhadores, como são um povo empenhado em dar o seu contributo ao nosso país", conta.

Situado na Ásia Central, o Usbequistão sempre foi uma encruzilhada entre a China e a Europa. O embaixador Ganiev sublinhou a reforma radical de que o país está a ser alvo no que respeita à indústria do turismo, alavancado pela rota da seda. Não admira por isso que um dos cartões-de-visita seja a indústria têxtil, a partir dos campos de algodão. De resto, sempre foi o caminho escolhido noutro tempo para as caravanas carregadas de especiarias, porcelanas e sedas.

Os números oficiais apontam para um crescimento do turismo quatro vezes superior na última década. São principais pontos de interesse quatro cidades classificadas como Património da Humanidade pela UNESCO: Samarcanda, Jiva, Bujará e Termez.

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