Iglesias dá prioridade a programa e não a nomes num governo de coligação com o PSOE

No segundo dia de consultas, o rei espanhol também recebeu políticos independentistas e o líder do Vox. Esta tarde recebe Albert Rivera, Pablo Casado e Pedro Sánchez.

O líder do Podemos, Pablo Iglesias, disse esta quinta-feira ao rei Felipe VI que "o mais sensato seria que houvesse um governo de coligação com o PSOE para garantir a estabilidade política e políticas progressistas". Revelou ainda que não tem contacto com o líder socialista, Pedro Sánchez, há duas semanas. "Cabe-lhe a ele iniciar os contactos", indicou.

Iglesias explicou que para a aliança Unidas Podemos "o fundamental é chegar a um acordo programático", defendendo um governo de coligação progressista, lamentando que a primeira coisa que o PSOE tenha feito após as eleições europeias, municipais e autonómicas de 26 de maio tenha sido estender a mão ao Ciudadanos. O Podemos teve um resultado abaixo do esperado nessas eleições.

"É evidente que se o Ciudadanos facilitasse um acordo isso seria o preferido para o PSOE. Nós temos a responsabilidade de garantir que em Espanha haja políticas progressistas", alertou Iglesias, lembrando que "o pacto [do PSOE] com o Ciudadanos não acontece porque Albert Rivera não quer". Socialistas e Ciudadanos teriam uma maioria absoluta de 180 deputados no Congresso, mas desde a campanha Rivera não se mostrou disponível para essa aliança.

O líder do Podemos disse ainda que o importante não é falar de "ministros ou ministras" mas "falar de equipas". E alega que não haverá vetos, já que o tempo deles já passou em Espanha.

No encontro com o rei, Iglesias defendeu uma política de "investimentos estratégicos" em Espanha para "criar emprego e evitar a guerra comercial aberta por Donald Trump nos EUA". Além disso, quer acabar com "a reforma laboral" do Partido Popular. "É preciso apostar numa receita diferente. É preciso subir mais o salário mínimo. É preciso acabar com a fraude nos contratos temporários", referiu aos jornalistas após o encontro.

Iglesias defendeu ainda um aumento dos impostos sobre a banca e grandes empresas, e diminuição do IVA em produtos de higiene feminina, mas também eletricidade e gás.

"Não é necessário pôr condições ou linhas vermelhas. Mas que haja diálogo com a Catalunha é o mais sensato dado as circunstâncias. Há um conflito e a maneira mais sensata de abordá-lo é o diálogo e este deve produzir-se antes, durante e depois de haver governo", acrescentou.

Vox

Santiago Abascal, líder do partido de extrema-direita que se estreia no Parlamento espanhol, disse ao rei que não apoiará o PSOE, mas votará num governo que queria reinstaurar a ordem constitucional e aplicar o artigo 155.º da Constituição espanhola, para suspender mais uma vez a autonomia da Catalunha.

Reiterando em várias ocasiões que houve um "golpe de Estado" na Catalunha, Abascal disse que agradeceu ao rei o discurso que fez a 3 de outubro de 2017, após o referendo independentista, lamentando "a anomalia democrática que força o rei a receber as forças" que deram esse golpe. Referia-se ao Junts per Catalunya, que o monarca tinha recebido mais cedo.

Naquele discurso à nação, o rei acusou as autoridades catalãs de "conduta irresponsável" e considerou que os "legítimos poderes do Estado" deviam assegurar "a ordem constitucional". No final desse mês, o governo espanhol, liderado pelo PP, aplicou o artigo 155.º.

"A nossa posição é a de braços abertos para evitar que haja governo de esquerda", disse, referindo-se também às negociações para a formação de governos regionais e municipais.

Junts per Catalunya

A primeira a ser recebida pelo rei, esta manhã, foi Laura Borràs, dos independentistas do Junts per Catalunya. O partido queria que Felipe VI tivesse recebido Jordi Sànchez, seu cabeça de lista nas eleições de abril. Mas Sànchez é um dos quatro deputados catalães detidos e a ser julgados por rebelião, sedição e peculato na organização do referendo de 1 de outubro de 2017 e consequente declaração unilateral de independência. Acabou por não ser autorizado a ir ao encontro, mas enviou uma carta para o rei.

"Não queríamos ser cúmplices da incomodidade do Rei de Espanha de ter que se encontrar com um preso político como Jordi Sànchez. Nós pensamos que o que prejudica a imagem da democracia em Espanha é a existência de presos políticos. Eu vim para ser voz das vozes que se querem silenciar", indicou Borràs aos jornalistas, após o encontro, indicando que "é evidente que o rei não considera que são presos políticos".

"Disse-lhe que os catalães não têm rei, mas que vinha ver o rei de Espanha", explicou, indicando que criticou o monarca pelo discurso que proferiu a 3 de outubro, após o referendo. "Disse-lhe, olhando-o nos olhos, o que não queria ouvir". O outro partido independentista catalão, Esquerda Republicana da Catalunha, não quis ser recebida pelo rei, tal como o representando dos nacionalistas bascos do EH-Bildu.

Em relação ao futuro governo, Borràs defende que só seja investido primeiro-ministro "alguém disposto a solucionar este conflito político" na Catalunha, disse aos jornalistas. "Sánchez não falou connosco ainda", explicou, dizendo que o Junts per Catalunya não apoiará o líder socialista, mas que os três deputados do Junts que estão presos (há também um da Esquerda Republicana da Catalunha) não vão renunciar ao cargo, pelo que isso facilitará as contas a Sánchez.

A política catalã disse ainda que aproveitou para dar ao rei uma mensagem do ex-presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, que optou por sair de Espanha para não responder na justiça. "Puigdemont pediu-me que lhe dissesse que gostava mais dele como príncipe de Girona [um dos títulos enquanto herdeiro ao trono] do que como rei". O monarca terá respondido, segundo Borràs: "eu também gostava mais [dele] como presidente da câmara de Girona do que como presidente da Generalitat".

En Comú Podem

Outro catalão, Jaume Asens, do grupo catalão ligado ao Podemos, também esteve esta manhã com o rei e também criticou a mensagem que o monarca passou no discurso de 3 de outubro.

Em relação ao futuro governo espanhol, defende uma coligação com o PSOE e lembra que "deve haver um interlocutor disposto a dialogar" com a Catalunha.

"O bipartidarismo em Espanha está morto e isto deve refletir-se no governo. A maior garantia para que se cumpram os acordos com o PSOE é que estejamos no mesmo governo", referiu, lembrando que um bom ponto de partida foi o acordo orçamental que os socialistas alcançaram com o Podemos.

"Os nomes concretos não estão em cima da mesa. Este é um debate posterior. Primeiro temos que nos por de acordo sobre o programa", referiu.

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